Disciplina: Historiografia Brasileira

Bibliografia
CARVALHO, Jos Murilo de. A Formao das Almas. So Paulo: Companhia das Letras, 2004.

A FORMAO DAS ALMAS
Cenrio: passagem do Imprio para a Repblica. Personagens: liberais, jacobinos e positivistas. Trama central: disputa pela legitimao do regime Repblicano. Com 
esses elementos, o cientista poltico e historiador Jos Murilo de Carvalho constri um trabalho fundamental para a compreenso de um momento importante da histria 
poltica brasileira que, entre outras virtudes, agrada tanto o leitor especializado como o pblico mais amplo.
No  a primeira vez que o autor se detm sobre o momento de gnese da Repblica brasileira. Em estudo anterior, Os bestializados: o Rio de janeiro e a Repblica 
que no foi (Companhia das Letras, 1987), Jos Murilo coloca seu foco sobre a concepo e a prtica da cidadania no Brasil, mostrando como o povo esteve afastado 
da "onda revolucionria" de 1896. Tal evidncia, longe de significar o final de um percurso analtico, anuncia novos desdobramentos: diante da inexpressiva participao 
popular, como o novo regime se consolida? A formao das almas: o imaginrio da Repblica tenta responder a essa questo, a partir do mapeamento das correntes ideolgicas 
que disputavam a definio da natureza do regime Repblicano.
Se o eixo articulador do livro - a trama das ideologias   por si s interessante, o modo como o sensvel pesquisador procede a anlise constitui, talvez, o aspecto 
mais original da obra. Trabalhando os elementos extradiscursivos das justificativas ideolgicas Repblicanas, o autor, um hermeneuta das formas, interpreta smbolos, 
imagens, alegorias e mitos da poca, na tentativa de avaliar como as vises da Repblica transbordaram o crculo restrito das elites e atingiram a populao de modo 
geral.
O ttulo  revelador: formar almas. Eis o objetivo do arsenal de heris, hinos, mitos e bandeiras que assolaram o pas no final do sculo, em meio a verdadeiras 
batalhas pela conquista do imaginrio popular republicano. Mas se a "Repblica no foi", tampouco conseguiu construir um imaginrio prprio.
O farto material iconogrfco analisado  monumentos, caricaturas de jornais, obras de arte  reflete as fraturas da Repblica brasileira, do mesmo modo que Tiradentes, 
resgatado como uma espcie de "Cristo cvico",  emblemtico da inexistncia de uma identidade republicana, do carter inconcluso de nossa Repblica.
Jos Murilo de Carvalho nasceu em Minas Gerais em 1939.  doutor em cincia poltica pela Universidade de Stanford. Foi pesquisador visitante, entre outras, nas 
universidades de Londres, Oxford, Califrnia (Irvine) e Leiden (Holanda), no Instituto de Estudos Avanados de Princeton, na cole des Hautes tudes en Sciences 
Sociales. Atualmente  professor titular do departamento de histria da UFRJ. Publicou A escola de minas de Ouro Preto: o peso da glria (1978); A construo da 
ordem: a elite poltica imperial (1980; 1996); Os bestializados: o Rio de Janeiro e a Repblica que no foi (1987); Teatro de sombras (1988; 1996) e Desenvolvimiento 
de Ia ciudadana en Brasil (Fondo de Cultura Econmica, 1995).

JOS MURILO DE CARVALHO

A FORMAO DAS ALMAS
O IMAGINRIO DA REPBLICA NO BRASIL
1 edio
14 reimpresso

So Paulo, 2004
Companhia das Letras

Copyright  1990 byJos Murilo de Carvalho

Capa:
Moema Cavalcanti
sobre A Ptria, de Pedro Bruno (primeira capa)
e A Repblica, de Dcio Villares (quarta capa)

Preparao:
Mrio Vilela

Reviso:
Ana Maria de O. M. Barbosa
Maria Eugnia Rgis

Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)
(Cmara Brasileira do Livro. .sp, Brasil)

Carvalho, Jos Murilo de, 1939
A formao das almas : o imaginrio da Repblica no Brasil /Jos Murilo de Carvalho  So Paulo: Companhia das Letras. 1990.

Bibliografia.
ISBN 85-7164-128-5

l. Brasil  Histria  Repblica. 1889  2. Brasil  Poltica e governo. 1889  l. Ttulo.
CDD-981.05
90-1387                                          -320.5098105

ndices para catalogo sistemtico:
1. Repblica : Brasil: Histria 981.05
2. Repblica : Brasil : Idias polticas : Cincia poltica
320.5098105

Todos os direitos desta edio reservados  EDITORA SCHWARCZ LTDA.
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Fax: (l l) 3707-3501
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NDICE
Agradecimentos .................................................................................................... .......  7
Introduo ....................................................................................................................   9
1. utopias Repblicanas ...................................... ................................................. ....... 17
2. As proclamaes da Repblica ................................................................................35
3. Tiradentes: um heri para a Repblica ...................................................................  55
4. Repblica-mulher: entre Maria e Marianne .............................................................. 75
5. Bandeira e hino: o peso da tradio .......................................................................109
6. Os positivistas e a manipulao do imaginrio .........................................................29
Concluso ................................................................................................................ ..141
Notas............................................................................................................................143
Fontes .........................................................................................................................155
ndice das ilustraes .................................................................................................165

AGRADECIMENTOS
Sou grato ao apoio das duas instituies que me abrigam, o Instituto Universitrio de Pesquisas do Rio de Janeiro e a Fundao Casa de Rui Barbosa. O IUPERJ recebia 
substancial apoio da Financiadora de Estudos e Projetos, Finep, e ainda o recebe da Fundao Ford.
Pelo lado intelectual, devo mencionar em primeiro lugar minha dvida com Eduardo Silva, do Setor de Histria da Fundao Casa de Rui Barbosa. Vrias das idias deste 
livro, especialmente as que foram desenvolvidas no segundo captulo, surgiram de conversas com ele. O projeto original contemplava uma autoria conjunta. Somente 
a viagem de Eduardo  Inglaterra para um programa de doutoramento impediu a cooperao. Espero que ele no se sinta excessivamente trado pelo produto final a que 
tive de chegar sozinho.
Alguns dos captulos foram apresentados em palestras no Brasil, na Frana e nos Estados Unidos, beneficiando-se dos comentrios de colegas cujos nomes todos no 
pude registrar; registro a dvida.
Na Fundao Casa de Rui Barbosa, os colegas do Setor de Histria discutiram o projeto inicial, e estou certo de ter incorporado algumas das sugestes feitas. De 
modo particular, agradeo a colaborao das estagirias Sueli Alves Henderson e Luciana Pazito Alves. Elas batalharam diligentemente em bibliotecas e arquivos em 
busca de dados escassos e ariscos; tambm forneceram idias e sugestes. Marson Jorge V. Alves ajudou a completar a pesquisado arquivos.
A parte iconogrfIca contou, para seu levantamento e reproduo, com a colaborao de vrias pessoas e instituies. Registro seus nomes, desculpando-me desde j 
caso involuntariamente omita algum, ou alguns. Na localizao e reproduo de quadros, fotos, charges, objetos, contei com o inestimvel auxlio de Angela Porto, 
da Fundao Casa de Rui Barbosa, e de Cristina Barbosa, com quem descobri o acervo da Igreja Positivista. As revistas Veja, por intermdio de Mrio Srgio Conti, 
e Cincia Hoje cederam reprodues. As seguintes instituies, graas a seus diretores e funcionrios, facilitaram a localizao e reproduo de material de seus
pg.07
acervos: Igreja Positivista do Brasil, Museu Nacional de Belas Artes, Museu da Repblica, Museu Histrico Nacional, Museu da Cidade do Rio de Janeiro.
Os captulos 4 e 5, e parte do 6, foram escritos na Universidade da Califrnia, em Irvine, onde estive como professor visitante do Departamento de Histria. Sou 
grato a Steven Topik, professor desse departamento, pelo convite inicial e pela hospitalidade e ateno com que me distinguiu.
Pg.08

INTRODUO 
Estudo anterior sobre a implantao da Repblica mostrou a nula participao popular em sua proclamao e a derrota dos esforos de participao nos anos que se 
seguiram.1 Mas permaneceram comigo algumas indagaes. Teria o novo regime se consolidado apenas com base na fora do arranjo oligrquico? No teria havido, como 
acontece quase sempre, tentativas de legitimao que o justificassem, se no perante a totalidade da populao, pelo menos diante de setores politicamente mobilizados? 
Em caso positivo, qual teria sido esse esforo, quais as armas utilizadas e qual o resultado?
O instrumento clssico de legitimao de regimes polticos no mundo moderno , naturalmente, a ideologia, a justificao racional da organizao do poder. Havia 
no Brasil pelo menos trs correntes que disputavam a definio da natureza do novo regime: o liberalismo  americana, o jacobinismo  francesa, e o positivismo. 
As trs correntes combateram-se intensamente nos anos iniciais da Repblica, at a vitria da primeira delas, por volta da virada do sculo.
Embora fundamentalmente de natureza discursiva, as justificativas ideolgicas possuam tambm elementos que extravasavam o meramente discursivo, o cientificamente 
demonstrvel. Supunham modelos de repblica, modelos de organizao da sociedade, que traziam embutidos aspectos utpicos e visionrios. No caso do jacobinismo, 
por exemplo, havia a idealizao da democracia clssica, a utopia da democracia direta, do governo por intermdio da participao direta de todos os cidados. No 
caso do liberalismo, a utopia era outra, era a de uma sociedade composta por indivduos autnomos, cujos interesses eram compatibilizados pela mo invisvel do mercado. 
Nessa verso, cabia ao governo interferir o menos possvel na vida dos cidados. O positivismo possua ingredientes utpicos ainda mais salientes. A repblica era 
ai vista dentro de uma perspectiva mais ampla que postulava uma futura idade de ouro em que os seres humanos se realizariam plenamente no seio de uma humanidade 
mitificada.
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Como discurso, as ideologias Repblicanas permaneciam enclausuradas no   fechado crculo das elites educadas. Mas seja pelo prprio contedo do discurso, seja pelos 
elementos utpicos, elas acabavam por postular a sada do fechado e restrito mundo das elites, acabavam por defender, cada uma a sua maneira, o envolvimento popular 
na vida poltica. Este era certamente o caso dos jacobinos, cuja inspirao direta era a Revoluo Francesa.  poca da proclamao da Repblica, essa revoluo 
era o exemplo mais poderoso de exploso popular na arena pblica. Era tambm, de certo modo, o caso dos positivistas ortodoxos. Embora em princpio contrrios a 
movimentos revolucionrios, tinham a Revoluo de 1789 como marco na histria da humanidade e sua viso da sociedade ideal era comunitria e incorporadora. Em menor 
escala, o modelo liberal poderia tambm incluir exigncias de ampliao da participao. Por permitirem, ou mesmo exigirem, tal transbordamento, as ideologias so 
aqui discutidas (captulo 1).
O extravasamento das vises de repblica para o mundo extra-elite, ou as tentativas de operar tal extravasamento,  que me interessaro diretamente. Ele no poderia 
ser feito por meio do discurso, inacessvel a um
pblico com baixo nvel de educao formal. Ele teria de ser feito mediante sinais mais universais, de leitura mais fcil, como as imagens, as alegorias, os smbolos, 
os mitos. De fato, um exame preliminar da ao dos jacobinos e positivistas j me tinha revelado o emprego de tais instrumentos, freqentemente sob inspirao francesa. 
As descries da poca trazem referncias ao costume dos Repblicanos brasileiros de cantarem a Marselhesa de representarem a Repblica com o barrete frgio; informam 
tambm sobre a luta dos positivistas pela nova bandeira e sobre a disputa em torno da definio do panteo cvico do novo regime. 
Aprofundando a investigao, verifiquei que, embora em escala menor do que no caso francs, tambm houve entre ns batalha de smbolos e alegorias, parte integrante 
das batalhas ideolgica e poltica. Tratava-se de uma batalha em tomo da imagem do novp regime, cuja finalidade era atingir o imaginrio popular para recri-lo dentro 
dos valores Repblicanos. A batalha pelo imaginrio popular Repblicano ser o tema central deste livro. A elaborao de um imaginrio  parte integrante da legitimao 
de qualquer regime poltico.  por meio do imaginrio que se podem atingir no s a cabea mas, de modo especial, o corao, isto , as aspiraes, os medos e as 
esperanas de um povo.  nele que as sociedades definem suas identidades e objetivos, definem seus inimigos, organizam seu passado, presente e futuro.2 O imaginrio 
social  constitudo e se expressa por ideologias e utopias, sem dvida, mas tambm  e  o que aqui me interessa  por smbolos, alegorias, rituais, mitos. Smbolos 
e mitos podem, por seu carter difuso, por sua leitura menos codificada, tornar-se elementos poderosos de projeo de interesses, aspiraes e medos coletivos. Na 
medida em que
pg.10
tenham xito em atingir o imaginrio, podem tambm plasmar vises de mundo e modelar condutas.3
A manipulao do imaginrio social  particularmente importante em momentos de mudana poltica e social, em momentos de redefinio de identidades coletivas. No 
foi por acaso que a Revoluo Francesa, em suas vrias fases, tornou-se um exemplo clssico de tentativa de manipular os sentimentos coletivos no esforo de criar 
um novo sistema poltico uma nova sociedade, um homem novo. Mirabeau disse-o com clareza: no basta mostrar a verdade,  necessrio fazer com que o povo a ame,  
necessrio apoderar-se da imaginao do povo.4 Para a Revoluo, educao pblica significava acima de tudo isto: formar as almas. Em 1792, a seo de propaganda 
do Ministrio do Interior tinha exatamente este nome: Bureau de l'Esprit.
A atuao de David, como pintor, revolucionrio e terico da arte,  o melhor exemplo do esforo de educao cvica mediante o uso de smbolos e rituais.  poca 
da Revoluo, o pintor j se tornara um dos principais representantes do classicismo, especialmente por sua tela O juramento dos Horcios. Para ele, no entanto, 
classicismo no era apenas um estilo, uma linguagem artstica. Era tambm uma viso do mundo clssico como um conjunto de valores sociais e polticos. Era a simplicidade, 
a nobreza, o esprito cvico, das antigas repblicas; era a austeridade espartana, a dedicao at o sacrifcio dos heris romanos. O artista devia usar sua arte 
para difundir tais valores.5
Em 1792, o pintor fora eleito membro da Conveno e participava da Comisso de Educao Pblica e de Belas-Artes. Envolveu-se profundamente no esforo de redefinir 
a poltica cultural, reformar os sales artsticos, produzir smbolos para o novo regime. Foi ele quem desenhou a bandeira tricolor e organizou o grande ritual da 
Festa do Ser Supremo em 1794. Presidiu ao comit escolhido pela Conveno para indicar o jri que iria atuar na exposio de 1792. Nessa condio, apresentou  Conveno 
um relatrio (se no redigido, certamente influenciado por ele) em que se estabeleciam as novas diretrizes para os artistas e as novas idias sobre a natureza e 
o papel da arte. O relatrio dizia: As artes so imitao da natureza nos aspectos mais belos e mais perfeitos; um sentimento natural no homem o atrai para o mesmo 
objetivo". Continuava afirmando que as artes deviam inspirar-se em idias grandiosas e teis. Seu fim no era apenas encantar os olhos mas, sobretudo, contribuir 
poderosamente para a educao pblica penetrando nas almas. Isso porque "os traos de herosmo, de virtudes cvicas, oferecidos aos olhos do povo, eletrificam suas 
almas e fazem surgir as paixes da glria, da devoo  felicidade de seu pas".6 O pintor da Revoluo foi talvez o primeiro a perceber a importncia do uso dos 
smbolos na construo de um novo conjunto de valores sociais e polticos.
Pg.11
A vasta produo simblica da Revoluo  por demais conhecida. Ela passa pela bandeira tricolor e pela Marselhesa, to carregadas de emoo; pelo barrete frgio, 
smbolo da liberdade; pela imagem feminina e pela rvore da liberdade; pelo tratamento por cidado, de enorme fora igualitria; pelo calendrio revolucionrio iniciado 
em 1792, esforo de marcar o incio de uma nova era; pelas grandes festas cvicas como as da Federao em 1790 e do Ser Supremo em 1794, grandes ocasies de comunho 
cvica. Poder-se-iam acrescentar ainda vrios smbolos e alegorias menores, como a balana, o nvel, o feixe, o leme, a lana, o galo gauLes, o leo etc. Com maior 
ou menor aceitao, esses smbolos foram exaustivamente utilizados, no tendo sido menos hostilizados pelos inimigos da Revoluo. Uma verdadeira batalha de smbolos, 
em busca da conquista do imaginrio social, travou-se ao longo de quase um sculo de histria, ao sabor das ondas revolucionrias de 1789, 1830, 1848 e 1871 e das 
reaes monrquicas e conservadoras.
Os Repblicanos brasileiros que se voltavam para a Frana como seu modelo tinham  disposio, portanto, um rico material em que se inspirar. O uso dessa simbologia 
revolucionria era facilitado pela falta de competio por parte da corrente liberal, cujo modelo eram os Estados Unidos. Esta no contava com a mesma riqueza simblica 
a sua disposio. Por razes que no cabe aqui discutir, talvez pela menor necessidade de conquistar o corao e a cabea de uma populao j convertida aos novos 
valores, a revoluo americana foi muito menos prolfica do que a francesa na produo de smbolos revolucionrios. Alm disso, no interessava muito  corrente 
"americana" promover uma repblica popular, expandir alm do mnimo necessrio a participao poltica. Limitava-se  batalha da ideologia; quando muito, insistia 
em sua verso do mito de origem do novo regime e nas figuras que o representavam: uma briga pelos founding fathers. Desse modo, o campo ficava quase livre para a 
atuao das correntes francesas.
Entre os propagandistas, o entusiasmo pela Frana era inegvel. A proximidade do centenrio da revoluo de 1789 s fazia aument-lo. Silva Jardim pregava abertamente 
a derrubada do Antigo Regime no Brasil, fazendo-a coincidir com o centenrio. No se esquecia de incluir o fuzilamento do conde D'Eu, o francs, a quem destinava 
o papel do infortunado Lus XVI, numa rplica tropical do drama de 1792. O entusiasmo no podia ser melhor expresso do que nas palavras de um oficial da Marinha, 
recordando em 1912 os tempos da propaganda: "Todas as nossas aspiraes, todas as preocupaes dos Repblicanos da propaganda, eram de fato copiadas das tradies 
francesas. Falvamos na Frana bem-amada, na influncia da cultura francesa, nas menores coisas das nossas lutas polticas relembrvamos a Frana. A Marselhesa era 
nosso hino de guerra, e sabamos de cor os episdios da grande revoluo. Ao nosso brado 'Viva a Repblica!'
pg.12
seguia-se quase sempre o de 'Viva a Frana!'. [...] A Frana era a nossa guiadora, dela falvamos sempre e sob qualquer pretexto'' .7
No s a Marselhesa era tomada de emprstimo. A alegoria feminina da Repblica j era utilizada mesmo antes da proclamao; o barrete frgio aparecia invariavelmente, 
isolado ou cobrindo a cabea da figura feminina; o tratamento por cidado foi adotado  cidado presidente, cidado ministro, cidado general , substituindo o solene, 
imperial e catlico "Deus guarde Vossa Excelncia" da correspondncia oficial; foi introduzido o Sade e Fraternidade''.8 Nesse esforo, salientavam-se jacobinos 
e positivistas, os ltimos com a especificidade que os marcava e que tinha a ver com a viso histrica, filosfica e religiosa de Auguste Comte, e com sua concepo 
da estratgia poltica a ser adotada no Brasil para promover as transformaes sociais. Ambos os grupos se mostraram conscientes da importncia do uso dos smbolos 
e dos mitos na batalha pela vitria de sua verso da repblica.
A tarefa que me proponho agora  discutir mais a fundo o contedo de alguns dos principais smbolos utilizados pelos Repblicanos brasileiros e, na medida do possvel, 
avaliar sua aceitao ou no pelo pblico a que se destinava, isto , sua eficcia em promover a legitimao do novo regime. A discusso dos smbolos e de seu contedo 
poder fornecer elementos preciosos para entender a viso de repblica que lhes estava por trs, ou mesmo a viso de sociedade, de histria e do prprio ser humano. 
Ela pode ser particularmente importante para revelar as divergncias e os conflitos entre as distintas concepes de repblica ento presentes. A aceitao ou rejeio 
dos smbolos propostos poder revelar as razes Repblicanas preexistentes no imaginrio popular e a capacidade dos manipuladores de smbolos de refazer esse imaginrio 
de acordo com os novos valores. Um smbolo estabelece uma relao de significado entre dois objetos, duas idias, ou entre objetos e idias, ou entre duas imagens. 
Embora o estabelecimento dessa relao possa partir de um ato de vontade, sua aceitao, sua eficcia poltica, vai depender da existncia daquilo que Baczko chamou 
de comunidade de imaginao, ou comunidade de sentido.9 Inexistindo esse terreno comum, que ter suas razes seja no imaginrio preexistente, seja em aspiraes 
coletivas em busca de um novo imaginrio, a relao de significado no se estabelece e o smbolo cai no vazio, se no no ridculo.
Entre os vrios smbolos, alegorias e mitos utilizados, foram selecionados alguns que pareceram mais evidentes e mais capazes de jogar luz sobre o fenmeno da Repblica 
e de sua implantao. Cada um ser objeto de um captulo  parte. O captulo 2 discutir o mito de origem da Repblica. A criao de um mito de origem  fenmeno 
universal que se verifica no s em regimes polticos mas tambm em naes, povos, tribos, cidades. Com freqncia disfarado de historiografia, ou talvez indissoluvelmente 
nela enredado, o mito de origem procura estabelecer uma verso dos fatos,
pg.13
real ou imaginada, que dar sentido e legitimidade  situao vencedora. No caso da criao de novos regimes, o mito estabelecer a verdade da soluo vencedora 
contra as foras do passado ou da oposio. Se no so abertamente distorcidos, os fatos adquiriro, na verso mitificada, dimenses apropriadas  transmisso da 
idia de desejabilidade e de superioridade da nova situao. A mesma distoro sofrero as personagens envolvidas.
Isso nos leva ao captulo 3, que trata do mito do heri, tambm de longa tradio na histria. Todo regime poli tico busca criar seu panteo cvico e salientar figuras 
que sirvam de imagem e modelo para os membros da comunidade. Embora heris possam ser figuras totalmente mitolgicas, nos tempos modernos so pessoas reais. Mas 
o processo de heroificao inclui necessariamente a transmutao da figura real, a fim de torn-la arqutipo de valores ou aspiraes coletivas. H tentativas 
de construo de heris que falham pela incapacidade da figura real de permitir tal transformao. H situaes em que a mesma figura pode apresentar diferentes 
imagens de heri para diferentes setores da populao, como  o caso de Abraham Lincoln nos Estados Unidos. Para a populao negra e da costa leste em geral, Lincoln 
 o heri-salvador do povo, o mrtir. Para o meio-oeste e o oeste, ele  o heri-conquistador, o desbravador, o homem da fronteira.10 Por ser parte real, parte construdo, 
por ser fruto de um processo de elaborao coletiva, o heri nos diz menos sobre si mesmo do que sobre a sociedade que o produz.
Uma das mais populares alegorias da Repblica na Frana foi a figura feminina. A inspirao foi, sem dvida, buscada na Antiguidade grega e romana, em que divindades 
femininas representavam idias, valores, sentimentos. Palas Atena era a deusa da sabedoria, na guerra ou na paz, podendo aparecer tambm como a deusa da vitria; 
Afrodite era o amor, a fertilidade, a beleza; Ceres, a deusa das colheitas e da abundncia.11 Os Repblicanos brasileiros tentaram utilizar a mesma simbologia. A 
aceitao do smbolo na Frana e sua rejeio no Brasil permitem, mediante a comparao por contraste, esclarecer aspectos das duas sociedades e das duas repblicas. 
Ser esse o tema do captulo 4.
Modernamente, alguns smbolos nacionais se tomaram de uso quase obrigatrio, como a bandeira e o hino. Tornaram-se identificao oficial de pases. Mas todos eles 
possuem uma histria, nem sempre pacfica, quase sempre ligada seja ao nascimento da nao, seja  implantao de um regime poltico. Algumas bandeiras e hinos escaparam 
mesmo s fronteiras nacionais, tal a fora do simbolismo que encarnavam. A poca da proclamao da Repblica, era esse o caso da Marselhesa, smbolo no s da Revoluo 
de 1789 mas de toda revoluo, de todo movimento libertrio no Ocidente. A histria de hinos e bandeiras constitui, assim, outro instrumento analtico para explorar 
o contedo valorativo ou mesmo ideolgico
pg.14
de regimes polticos, se no de sociedades inteiras. A discusso da bandeira e do hino ser feita no captulo 5.
Finalmente, uma vez que foram os positivistas ortodoxos os mais articulados manipuladores de smbolos do novo regime, superando na organizao e na perseverana 
os jacobinos, ser a eles dedicado um captulo  parte. Portadores de uma viso de mundo integrada, que inclua um cdigo operacional e uma ttica poltica bem definida, 
os ortodoxos foram os que melhor entenderam a importncia da manipulao simblica na reconstruo do imaginrio social. Sua inspirao numa filosofia em muitos 
pontos alheia  cultura nacional, de um lado, e sua nfase no valor da tradio, de outro, contriburam para que sua ao fosse um misto de xitos e fracassos. Tornam-se 
ntidas, a tambm, a limitao do voluntarismo na manipulao do imaginrio e a importncia da comunidade de sentido.
Pg.16

1
UTOPIAS RepblicaNAS*
A conferncia pronunciada por Benjamin Constant em 1819, no Athne Royal de Paris, pode servir de ponto de partida para a discusso dos modelos de repblica existentes 
ao final do sculo XIX. Intitula-se "Da liberdade dos antigos comparada  dos modernos". Nela o termidoriano Constant, inimigo dos jacobinos mas tambm de Napoleo, 
atribua os males da Revoluo de 1789  influncia de filsofos como Mably e Rousseau, defensores de um tipo de liberdade que no mais se adaptaria aos tempos modernos.1 
A liberdade por eles defendida, e adotada pelos jacobinos, era aquela que caracterizara as repblicas antigas de Atenas, Roma e, especialmente, Esparta. Era a liberdade 
de participar coletivamente do governo, da soberania, era a liberdade de decidir na praa pblica os negcios da repblica: era a liberdade do homem pblico. Em 
contraste, a liberdade dos modernos, a que convinha aos novos tempos, era a liberdade do homem privado, a liberdade dos direitos de ir e vir, de propriedade, de 
opinio, de religio. A liberdade moderna no exclui o direito de participao poltica, mas esta se faz agora pela representao e no pelo envolvimento
pg.17
direto. O desenvolvimento do comrcio e da indstria no permitia mais, argumenta Constant, que as pessoas dispusessem de tempo para se dedicar a deliberar em praa 
pblica, nem elas estavam nisso interessadas. Hoje, o que se busca  a felicidade pessoal, o interesse individual; a liberdade poltica tem por funo garantir a 
liberdade civil.
A oposio entre os dois tipos de liberdade, que  tambm a oposio entre duas maneiras de conceber a organizao poltica da sociedade, esteve presente tambm 
na Revoluo Americana de 1776, que optou claramente pela liberdade dos modernos. Os Repblicanos brasileiros que no final do sculo passado se viam s voltas com 
o problema de justificar o novo regime no podiam escapar de tal debate. Os temas do interesse do indivduo e de grupos, da nao, da cidadania, encarnados na idia 
de repblica, estavam no centro das preocupaes dos construtores da Repblica brasileira. Como pais exportador de matrias-primas e importador de idias e instituies, 
os modelos de repblica existentes na Europa e na Amrica, especialmente nos Estados Unidos e na Frana, serviriam de referncia constante aos brasileiros. Esse 
captulo discutir como esses modelos foram interpretados e adaptados s circunstncias locais pela elite poltica Repblicana.

AS DUAS LIBERDADES
O conceito de repblica era ambguo para os founding fathers da primeira grande repblica moderna, a dos Estados Unidos da Amrica. Como Hamilton observou, at ento 
o conceito se aplicara a formas de governo muito distintas. Aplicara-se a Esparta, que tinha senado vitalcio; a Roma, mesmo sob os reis; aos Pases Baixos, que 
tinham nobreza hereditria;  Polnia, que tinha aristocracia e monarquia.2 Repblica podia significar tanto governo livre como governo da lei e governo popular. 
De uma coisa, porm, estavam certos os fundadores, ou a grande maioria deles: a base filosfica da construo que deveriam empreender, a base do novo pacto poltico, 
tinha de ser a predominncia do interesse individual, da busca da felicidade pessoal. O utilitarismo de 

(*) Verso modificada deste captulo foi publicada sob o titulo "Entre a liberdade dos antigos e a dos modernos: a Repblica no Brasil", em Dados. Revista de Cincias 
Sociais, vol. 32, n 3 (1989), pp. 265-80.
Hume era a fonte de inspirao comum de todos. Como se sabe, para Hume todos os homens eram velhacos (knaves) e s poderiam ser motivados por meio do apelo a seus 
interesses pessoais. Tratava-se, portanto, de uma concepo de liberdade que se adaptava perfeitamente  noo de liberdade dos modernos como descrita por Benjamin 
Constant. O mundo utilitrio  o mundo das paixes, ou no mximo o mundo da razo a servio das paixes, e no o mundo da virtude no sentido antigo da palavra.
O utilitarismo, a nfase no interesse individual, colocava dificuldades para a concepo do coletivo, do pblico. A soluo mais comum foi a de simplesmente definir 
o pblico como a soma dos interesses individuais,
pg.18
como na famosa frmula de Mandeville: vcios privados, virtude pblica. Para explicar o fato inegvel de que algumas pessoas em certas circunstncias eram movidas 
por razes outras que o simples interesse material, Hamilton recorreu ainda a outra paixo: o amor da glria e da fama. Esse amor poderia combinar a promoo do 
interesse privado com o interesse pblico. De qualquer modo, o que aparece em O federalista, como observou Stourzh,  a viso de uma nao sem patriotas,  a viso 
de uma coleo de indivduos em busca de uma organizao poltica que garantisse seus interesses. No h identidade coletiva, sentimento de comunidade ou de ptria.
Sem se discutir se era correta a viso da ausncia de identidade coletiva entre os habitantes das Treze Colnias, a nfase no indivduo levou os fundadores a se 
preocupar particularmente com os aspectos organizativos da nova sociedade. Se no havia laos afetivos de solidariedade, tornava-se mais difcil, com base apenas 
no clculo do interesse, fundar a nova sociedade poltica. Como observa Hannah Arendt em On revolution, no caso americano a verdadeira revoluo j estava feita 
antes da independncia. A revoluo era a nova sociedade que se implantara na Amrica. Coube aos fundadores promover a constitutio libertatis, a organizao da liberdade, 
mais do que fazer a declarao da liberdade. Talvez por isso, ainda segundo Hannah Arendt, a Revoluo Americana tenha sido a nica que no devorou seus filhos, 
tenha sido a de maior xito em se institucionalizar. O contraste com a Revoluo Francesa  ntido. Nesta, predominou a declarao da Uberdade em prejuzo de sua 
ordenao. Nos Estados Unidos, Montesquieu era o autor mais importante; na Frana, era Rousseau. A separao dos poderes como garantia de liberdade, a duplicao 
do Legislativo como instrumento de absoro das tendncias separatistas e a fora dada  Suprema Corte como elemento de equilbrio foram inovaes institucionais 
responsveis, em boa parte, pela durabilidade do sistema americano. Veremos adiante o apelo que tais inovaes na engenharia poltica teve para alguns Repblicanos 
brasileiros.
Outro modelo bvio de repblica era o francs. As repblicas da Amrica Latina ou eram consideradas simplesmente derivaes do modelo americano, ou no se qualificavam 
como modelos devido  turbulncia poltica que as caracterizava. Dizer modelo francs  incorreto: havia mais que um modelo francs, em decorrncia das vicissitudes 
por que passara a repblica naquele pais. Pelo menos a Primeira e a Terceira Repblicas francesas constituam pontos de referncia, naturalmente para pblicos distintos.
A imagem da Primeira Repblica se confundia quase com a da Revoluo de 1789, da qual se salientava principalmente a fase jacobina, os aspectos de participao popular. 
Isto , a fase que mais se aproximava da concepo de liberdade ao estilo dos antigos, segundo Benjamin Constant. Era a repblica da interveno direta do povo no 
governo, a repblica dos
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clubes populares, das grandes manifestaes, do comit de Salvao Pblica. Era a repblica das grandes idias mobilizadoras do entusiasmo coletivo, da liberdade, 
da igualdade, dos direitos universais do cidado.
Mas havia tambm a Terceira Repblica, que j demonstrava razovel capacidade de sobrevivncia. Certos traos da Terceira Repblica tinham a ver, naturalmente, com 
a influncia da tradio liberal de critica da Revoluo de 1789, inclusive a do prprio Benjamin Constant. Esse autor, alis, j influenciara abertamente a Constituio 
Imperial brasileira quando esta adotou o Poder Moderador, que ele chamava de pouvoir royal, ou pouvoir neutre.3 Essa idia, a de um poder acima do Legislativo e 
do Executivo que pudesse servir de juiz, de ponto de equilbrio do sistema constitucional, poderia ser adaptada tanto a monarquias constitucionais como a repblicas. 
A preocupao de Benjamin Constant era com a governabilidade, com a conciliao entre a liberdade e o exerccio do poder, problema, segundo ele, no resolvido na 
Frana, nem pela Primeira Repblica, que tinha pouco governo, nem pelo Imprio, que tinha pouca liberdade. Tornar a Repblica governvel era uma das principais preocupaes 
dos homens da Terceira Repblica. Mas, para os Repblicanos brasileiros, Constant no poderia ser fonte de inspirao, pois estava por demais ligado  tradio imperial.
O modelo da Terceira Repblica, ou melhor, uma variante dele, chegou ao Brasil por intermdio principalmente dessa curiosa raa de pensadores que foram os positivistas, 
de aqum e de alm-mar. A transmisso foi facilitada pela estreita ligao que tinham os positivistas franceses com os polticos da Terceira Repblica, alguns deles 
positivistas declarados, como Gambetta e Jules Ferry, do chamado grupo dos oportunistas. A prpria expresso "oportunista" fora cunhada por Littr, o lder dos 
positivistas no-ortodoxos. Um dos pontos centrais do pensamento poltico dos positivistas, expresso na divisa * 'Ordem e Progresso'', era o mesmo de Benjamin Constam, 
isto , tornar a Repblica um sistema vivel de governo, ou, na frase de Jules Ferry: La Rpublique doit tre un gouvermement''.4
Havia divergncias quanto  maneira de tomar a Repblica um governo. Dentro do prprio positivismo, havia os ortodoxos do grupo de Laffitte, que no aceitavam o 
parlamentarismo adotado pela Constituio Francesa de 1875 e se impacientavam com a demora no rompimento das relaes entre a Igreja e o Estado e com a timidez das 
polticas educacionais. Os ortodoxos ainda adotavam a idia de ditadura Repblicana desenvolvida por Comte. O grupo de Littr aceitava o parlamentarismo, tendo ele 
prprio sido eleito senador, e admitia compromissos em torno de questes importantes, como a das relaes entre o Estado e a Igreja, em nome do oportunismo  isto 
, em termos positivistas, em nome da necessidade de aguardar o momento sociolgico adequado para intervir. De qualquer modo, ortodoxos e heterodoxos, todos se inspiravam 
politicamente no Appel aux
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conservateurs que Comte publicara em 1855. Nesse texto, o conceito de conservador provinha de sua viso particular da Revoluo, que procurava fugir, de um lado, 
ao jacobinismo robespierrista, rousseauniano, chamado de metafsico, e, de outro, ao reacionarismo do restauracionismo clerical. Era conservador, na viso de Comte, 
aquele que conseguia conciliar o progresso trazido pela Revoluo com a ordem necessria para apressar a transio para a sociedade normal, ou seja, para a sociedade 
positivista baseada na Religio da Humanidade.
O ponto importante em que a ortodoxia positivista se separava das idias de Benjamin Constant era a rejeio do governo parlamentar. A divergncia era relevante 
para os Repblicanos brasileiros. Comte tirara sua idia de ditadura Repblicana tanto da tradio romana como da experincia revolucionria de 1789, essas duas, 
alis, tambm relacionadas. A expresso implica ao mesmo tempo a idia de um governo discricionrio de salvao nacional e a idia de representao, de legitimidade. 
No se trata de despotismo. Para Comte, Danton era um ditador Repblicano e Robespierre era um dspota. Mas a idia era ambgua, na medida em que no Appel aux conservateurs 
ele apresenta o legitimista Carlos X como a melhor encarnao do ditador Repblicano.
Seja qual for o contedo preciso da expresso, suas conseqncias para a idia de representao e para a organizao da poltica Repblicana eram importantes. A 
idia de representao embutida na figura do ditador se aproxima da representao simblica, ou da representao virtual. Nessas duas acepes, o representante se 
coloca no lugar do representado, em relao ao qual possui grande independncia.5 O ditador Repblicano seria, por exemplo, vitalcio e poderia escolher seu sucessor. 
Se ele deve teoricamente representar as massas, pode na prtica delas se afastar. Na realidade, o bom ditador comtiano seria aquele que conduzisse as massas. No 
esprito do Appel aux conservateurs, a ditadura monocrtica, Repblicana, conservadora, tem o claro sentido de um governo da ordem cuja tarefa  fazer d'en haut 
a transio para a sociedade positiva. A ditadura Repblicana aparece a como algo muito prximo do conceito de modernizao conservadora difundido por Barrington 
Moore.6
O positivismo, especialmente na verso de Laffitte, possua outro trao que o tornava relevante para a discusso da situao brasileira. Vimos o ideal hamiltoniano 
de uma nao sem patriotas, ao qual se opunha a viso rousseauniana com nfase no coletivo, na idia de virtude cvica, de homem pblico. O comtismo introduziu uma 
variante nessas duas vertentes. Como  sabido, aps o encontro de Comte com Clotilde de Vaux em 1845, sua obra sofreu uma transformao profunda. Os elementos religiosos 
passaram a predominar sobre os aspectos cientficos, o sentimento foi colocado acima da razo, a comunidade foi sobreposta ao indivduo. Segundo sua prpria confisso, 
Comte passou a unir o instinto social dos romanos (a virtude cvica)
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 cultura afetiva da Idade Mdia, expressa nas tradies do catolicismo. Desse modo, fugia completam ente ao individualismo mas em seu lugar no colocava a vontade 
geral de Rousseau. Para Comte, individualismo e vontade geral eram ambos noes metafsicas. O que o comtismo introduzia eram as formas de vivncia comunitria, 
a famlia, a ptria e, como culminao do processo evolutivo, a humanidade (que Comte escrevia com h maisculo).
De especial importncia  a nfase dada por Comte  noo de ptria. A ptria  a mediao necessria entre a famlia e a humanidade,  a mediao necessria para 
o desenvolvimento do instinto social. Ela deve, para atender a tal funo, constituir verdadeira comunidade de convivncia, no podendo, portanto, possuir territrio 
excessivamente grande. A ptria perfeita deveria ter como caracterstica os dons femininos do sentimento e do amor. A boa ptria ser a mtria. Tal viso, se era 
incompatvel com a idia de nao sem patriotas, tambm fugia do comunitarismo de Rousseau, que possua elementos contratuais e, portanto, traos de individualismo. 
O cidado positivista no age na praa pblica, no delibera sobre as questes pblicas. Ele se perde nas estruturas comunitrias que o absorvem totalmente.
Havia, assim, pelo menos trs modelos de repblica  disposio dos Repblicanos brasileiros. Dois deles, o americano e o positivista, embora partindo de premissas 
totalmente distintas, acabavam dando nfase a aspectos de organizao do poder. O terceiro colocava a interveno popular como fundamento do novo regime, desdenhando 
os aspectos de institucionalizao.  verdade que a idia de ditadura Repblicana era usada pelos dois modelos franceses, mas na verso jacobina ela permanecia vaga, 
ao passo que os positivistas detalhavam o papel do ditador, do congresso, as normas eleitorais, a poltica educacional etc.
Idias e instituies norte-americanas e europias j tinham sido adaptadas por polticos imperiais. Antes mesmo da independncia do pas, rebelies coloniais tinham-se 
inspirado seja na Revoluo Americana, seja na Francesa. Importar modelos, ou inspirar-se em exemplos externos, no era, assim, exclusividade dos Repblicanos brasileiros. 
Os prprios founding fathers americanos buscaram inspirao em idias e instituies da Antiguidade, da Renascena, da Inglaterra e da Frana contemporneas. A Revoluo 
Francesa, por sua vez, tivera nos clssicos e no exemplo americano pontos de referncia. O fenmeno de buscar modelos externos  universal. Isso no significa, no 
entanto, que ele no possa ser til para entender uma sociedade particular. Que idias adotar, como adot-las, que adaptaes fazer, tudo isso pode ser revelador 
das foras polticas e dos valores que predominam na sociedade importadora.
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A HERANA IMPERIAL
O Imprio brasileiro realizara uma engenhosa combinao de elementos importados. Na organizao poltica, inspirava-se no constitucionalismo ingLes, via Benjamin 
Constant. Bem ou mal, a Monarquia brasileira ensaiou um governo de gabinete com partidos nacionais, eleies, imprensa livre. Em matria administrativa, a inspirao 
veio de Portugal e da Frana, pois eram esses os pases que mais se aproximavam da poltica centralizante do Imprio. O direito administrativo francs era particularmente 
atraente para o vis estatista dos polticos imperiais.7 Por fim, at mesmo certas frmulas anglo-americanas, como a justia de paz, o jri e uma limitada descentralizao 
provincial, serviam de referncia quando o peso centralizante provocava reaes mais fortes.
Todas essas importaes serviam  preocupao central que era a organizao do Estado em seus aspectos poltico, administrativo e judicial. Tratava-se, antes de 
tudo, de garantir a sobrevivncia da unidade poltica do pais, de organizar um governo que mantivesse a unio das provncias e a ordem social. Somente ao final do 
Imprio comearam a ser discutidas questes que tinham a ver com a formao da nao, com a redefinio da cidadania. Embora no incio da vida independente brasileira 
um dos principais polticos da poca, Jos Bonifcio, j tivesse alertado para o problema da formao da nao, mencionando particularmente as questes da escravido 
e da diversidade racial, tudo isso ficou em segundo plano, pois a tarefa mais urgente a ser cumprida era a da sobrevivncia pura e simples do pais.
Aps a consolidao da unidade poltica, conseguida em torno da metade do sculo, o tema nacional voltou a ser colocado, inicialmente na literatura. O guarani, de 
Jos de Alencar, romance publicado em 1857, buscava, dentro do estilo romntico, definir uma identidade nacional por meio da ligao simblica entre uma jovem loura 
portuguesa e um chefe indgena acobreado. A unio das duas raas num ambiente de exuberncia tropical, longe das marcas da civilizao europeia, indicava uma primeira 
tentativa de esboar o que seriam as bases de uma comunidade nacional com identidade prpria. No mbito poltico, a temtica nacional s foi retomada quando se aproximou 
o momento de enfrentar o problema da escravido e seu correlato, a imigrao estrangeira. Tais problemas implicavam tambm o da centralizao poltica, uma vez que 
afetavam de maneira distinta as vrias provncias. Os Repblicanos tinham de enfrentar esses desafios. Mais ainda, em boa parte a opo pela repblica e o modelo 
de repblica escolhido tinham a ver com a soluo que se desejava para tais problemas.
A Monarquia aboliu a escravido em 1888. Mas a medida atendeu antes a uma necessidade poltica de preservar a ordem pblica ameaada pela fuga em massa dos escravos 
e a uma necessidade econmica de atrair mo-de-obra livre para as regies cafeeiras. O problema social da escravido,
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o problema da incorporao dos ex-escravos  vida nacional e, mais ainda,  prpria identidade da nao, no foi resolvido e mal comeava a ser enfrentado. Os abolicionistas 
mais lcidos, os reformistas monrquicos, tinham proposto medidas nessa direo, como a reforma agrria e a educao dos libertos. Mas no curto perodo de um ano 
entre a Abolio e a Repblica nada foi feito, pois o governo imperial gastou quase toda sua energia resistindo aos ataques dos ex-proprietrios de escravos que 
no se conformavam com a abolio sem indenizao.
O Imprio tinha, por outro lado, enfrentado o problema da redefinio da cidadania de maneira a dificultar a incorporao dos libertos. A lei eleitoral de 1881, 
que introduzia o voto direto em um turno, sob pretexto de moralizar as eleies, reduziu drasticamente a participao eleitoral. Ao exigir dos eleitores saber ler 
e escrever, reduziu o eleitorado, que era de 10% da populao, a menos de 1% numa populao de cerca de 14 milhes. Se o governo imperial contava com simpatias populares, 
inclusive da populao negra, era isso devido antes ao simbolismo da figura paternal do rei do que  participao real dessa populao na vida poltica do pas.

A OPO RepblicaNA
Substituir um governo e construir uma nao, esta era a tarefa que os Repblicanos tinham de enfrentar. Eles a enfrentaram de maneira diversificada, de acordo com 
a viso que cada grupo Repblicano tinha da soluo desejada. Esquematicamente, podem ser distinguidas trs posies.
A primeira era a dos proprietrios rurais, especialmente a dos proprietrios paulistas. Em So Paulo existia, desde 1873, o partido Repblicano mais organizado do 
pas, formado principalmente por proprietrios. A provncia passara por grande surto de expanso do caf e sentia-se asfixiada pela centralizao monrquica. Para 
esses homens, a repblica ideal era sem dvida a do modelo americano. Convinha-lhes a definio individualista do pacto social. Ela evitava o apelo  ampla participao 
popular tanto na implantao como no governo da Repblica. Mais ainda, ao definir o pblico como a soma dos interesses individuais, ela lhes fornecia a justificativa 
para a defesa de seus interesses particulares. A verso do final do sculo XIX da postura liberal era o darwinismo social, absorvido no Brasil por intermdio de 
Spencer, o inspirador do principal terico paulista da Repblica, Alberto Sales.
Convinha-lhes tambm a nfase americana na organizao do poder, no apenas por estar na tradio do pas mas, principalmente, pela preocupao com a ordem social 
e poltica, prpria de uma classe de ex-senhores de escravos. Convinha-lhes, de modo especial, a soluo federalista americana.
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Para os Repblicanos de So Paulo, de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul, trs das principais provncias do Imprio, o federalismo era talvez o aspecto mais importante 
que buscavam no novo regime. O sistema bicameral era parte da soluo federativa.
O modelo americano, em boa parte vitorioso na Constituio de 1891, se atendia aos interesses dos proprietrios rurais, tinha sentido profundamente distinto daquele 
que teve nos Estados Unidos. L, como lembrou Hannah Arendt, a revoluo viera antes, estava na nova sociedade igualitria formada pelos colonos. A preocupao com 
a organizao do poder, como vimos, era antes consequncia da quase ausncia de hierarquias sociais. No Brasil, no houvera a revoluo prvia. Apesar da abolio 
da escravido, a sociedade caracterizava-se por desigualdades profundas e pela concentrao do poder. Nessas circunstncias, o liberalismo adquiria um carter de 
consagrao da desigualdade, de sano da lei do mais forte. Acoplado ao presidencialismo, o darwinismo Repblicano tinha em mos os instrumentos ideolgicos e polticos 
para estabelecer um regime profundamente autoritrio.
No era esse, sem dvida, o modelo que convinha a outros desafetos da Monarquia. Havia um setor da populao urbana, formado por pequenos proprietrios, profissionais 
liberais, jornalistas, professores e estudantes,
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para quem o regime imperial aparecia como limitador das oportunidades de trabalho. Digo "aparecia" porque a lentido do sistema imperial, mesmo em promover a abolio, 
a excessiva centralizao, a longevidade de alguns segmentos da elite poltica (dos senadores vitalcios, por exemplo) eram vistos como a causa dos problemas desses 
insatisfeitos, quando a causa estava em outros fatores (como a prpria escravido, que limitava o mercado de trabalho). Acontece que a prpria avaliao da Monarquia 
era condicionada pelas idias Repblicanas. A verso jacobina, em particular, tendia a projetar sobre a Monarquia brasileira os mesmos vcios do Ancien Rgime francs, 
por menos comparveis que fossem as duas realidades. Via-se no Imprio brasileiro, por exemplo, o atraso, o privilgio, a corrupo, quando o imperador era dos maiores 
promotores da arte e da cincia, quando a nobreza era apenas nominal e no hereditria, quando o ndice de moralidade pblica era talvez o mais alto da histria 
independente do Brasil. Mas as acusaes eram feitas provavelmente de boa-f, faziam parte da crena Repblicana.
Para essas pessoas, a soluo liberal ortodoxa no era atraente, pois no controlavam recursos de poder econmico e social capazes de coloc-las em vantagem num 
sistema de competio livre. Eram mais atradas pelos apelos abstratos em favor da liberdade, da igualdade, da participao, embora nem sempre fosse claro de que 
maneira tais apelos poderiam ser operacionalizados. A prpria dificuldade de visualizar sua operacionalizao fazia com que se ficasse no nvel das abstraes. A 
idia de povo era abstraa. Muitas das referncias eram quase simblicas. Os radicais da Repblica falavam em revoluo (queriam mesmo que esta viesse no centenrio 
da grande Revoluo de 1789), falavam do povo nas ruas, pediam a morte do prncipe-consorte da herdeira do trono (era um nobre francs!), cantavam a Marselhesa pelas 
ruas. Mas, caso tivesse sido tentada qualquer revoluo do tipo pretendido, o povo que em Paris saiu s ruas para tomar a Bastilha e guilhotinar reis no teria aparecido. 
As simpatias das classes perigosas do Rio de Janeiro estavam mais voltadas  Monarquia. A igualdade jacobina do cidado foi aqui logo adaptada s hierarquias locais: 
havia o cidado, o cidado-doutor e at mesmo o cidado-doutor-general.
Pela prpria implausibilidade dessa soluo, os partidrios da liberdade  antiga formavam um grupo pequeno, embora agressivo. A maior parte desse grupo de descontentes 
percebia a dificuldade, se no a impossibilidade, de se fazer a repblica na praa pblica. Era muito clara para eles a importncia do Estado. Eram contra o regime 
monrquico, no contra o Estado. O Estado era o meio mais eficaz de conseguirem seus objetivos. Como o abolicionista Joaquim Nabuco, percebiam que a escravido era 
no Brasil a sombra do Estado, mas que sem o Estado seria difcil acabar com ela. Se no lhes interessava a soluo americana, no queriam tambm a jacobina. Era 
necessrio outro tipo de sada.
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A verso positivista da repblica, em suas diversas variantes, oferecia tal sada. O arsenal terico positivista trazia armas muito teis. A comear pela condenao 
da Monarquia em nome do progresso. Pela lei dos trs estados, a Monarquia correspondia  fase teolgico-militar, que devia ser superada pela fase positiva, cuja 
melhor encarnao era a repblica. A separao entre Igreja e Estado era tambm uma demanda atraente para esse grupo, particularmente para os professores, estudantes 
e militares. Igualmente, a idia de ditadura Repblicana, o apelo a um Executivo forte e intervencionista, servia bem a seus interesses. Progresso e ditadura, o 
progresso pela ditadura, pela ao do Estado, eis a um ideal de despotismo ilustrado que tinha longas razes na tradio luso-brasileira desde os tempos pombalinos 
do sculo XVIII. Por ltimo, a proposta positivista de incorporao do proletariado  sociedade moderna, de uma poltica social a ser implementada pelo Estado, tinha 
maior credibilidade que o apelo abstrato ao povo e abria caminho para a idia Repblicana entre o operariado, especialmente o estatal.
Um grupo social que se sentiu particularmente atrado por essa viso da sociedade e da repblica foi o dos militares. O fato  extremamente irnico, de vez que, 
de acordo com as teses positivistas, um governo militar
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seria uma retrogradao social. Mas entram a as surpresas que fazem interessante o fenmeno da adaptao de idias. Acontece que os militares tinham formao tcnica, 
em oposio  formao literria da elite civil, e sentiam-se fortemente atrados pela nfase dada pelo positivismo  cincia, ao desenvolvimento industrial. Por 
outro lado, por serem parte do prprio Estado, no podiam dele prescindir como instrumento de ao poltica. A idia de ditadura Repblicana tinha para eles um forte 
apelo, embora na Amrica Latina pudesse aproximar-se perigosamente da defesa do caudilhismo militar e assim tenha sido vista por observadores estrangeiros, especialmente 
europeus, durante os dois governos militares que iniciaram a Repblica.
Por razes histricas especificas, o modelo positivista seduziu tambm os Repblicanos do Rio Grande do Sul. A tradio militar da regio, o fato de os Repblicanos 
serem l uma minoria que precisava de disciplina e coeso para impor-se, a menor complexidade da sociedade local em comparao com So Paulo e Rio de janeiro talvez, 
tenham contribudo para a adeso mais intensa s idias polticas do positivismo. Mais do que nenhuma outra, a Constituio do Estado do Rio Grande do Sul incorporou 
elementos positivistas, particularmente no que se refere  predominncia do Executivo; ao Legislativo de uma cmara e de carter oramentrio;   ausncia de
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referncia a Deus, substitudo pelo trinmio Famlia, Ptria, Humanidade;  poltica educacional e social.8

A CIDADANIA E A ESTADANIA
Com a exceo dos poucos radicais, os vrios grupos que procuravam em modelos Repblicanos uma sada para a Monarquia acabavam dando nfase ao Estado, mesmo os que 
partiam de premissas liberais. Levava a isso, em parte, a longa tradio estatista do pas, herana portuguesa reforada pela elite imperial. A sociedade escravocrata 
abria tambm poucos espaos ocupacionais, fazendo com que os deslocados acabassem por recorrer diretamente ao emprego pblico ou  interveno do Estado para abrir 
perspectivas de carreira. Bacharis desempregados, militares insatisfeitos com os baixos salrios e com minguados oramentos, operrios do Estado em busca de uma 
legislao social, migrantes urbanos em busca de emprego, todos acabavam olhando para o Estado como porto de salvao. A insero de todos eles na poltica se dava 
mais pela porta do Estado do que pela afirmao de um direito de cidado. Era y ma insero que se chamaria com maior preciso de estadania.
J foram mencionados os obstculos sociais  soluo jacobina. O ponto merece ser expandido. O exerccio da liberdade dos antigos exigia a posse da virtude Repblicana 
pelos cidados, isto , a posse da preocupao com o bem pblico. Tal preocupao era ameaada sempre que cresciam as oportunidades de enriquecimento, pois surgia 
ento a ambio e desenvolvia-se a desigualdade social. A virtude Repblicana era uma virtude espartana. J percebido por Maquiavel, esse tema foi retomado s vsperas 
da criao das repblicas modernas. Na Frana, Montesquieu e, especialmente, Mably viam como condio para a virtude cvica certa igualdade social. Mably achava 
que apenas a Sua possua tal condio, estando os Estados Unidos j corrompidos pela desigualdade. Jefferson, o mais "antigo" dos founding fathers, tinha tambm 
dvidas quanto s possibilidades da vigncia da virtude Repblicana nos Estados Unidos devido ao avano do comrcio e da indstria, fontes de corrupo. Dentro de 
tal viso, o patriota era quase incompatvel com o homem econmico, a cidadania incompatvel com a cultura.9 Era essa, alis, a posio de Benjamin Constant, para 
quem o desenvolvimento do comrcio e da indstria seria a causa fundamental da inadequao da liberdade antiga ao mundo moderno.
Ora, alm de ter surgido em uma sociedade profundamente desigual e hierarquizada, a Repblica brasileira foi proclamada em um momento de intensa especulao financeira, 
causada pelas grandes emisses de dinheiro feitas pelo governo para atender s necessidades geradas pela abolio da escravido. A febre especulativa atingiu de 
modo especial a capital do pas,
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centro dos acontecimentos que levaram  Repblica. Em vez da agitao do Terceiro Estado, a Repblica brasileira nasceu no meio da agitao dos especuladores, agitao 
que ela s fez aumentar pela continuao da poltica emissionista. O espirito de especulao, de enriquecimento pessoal a todo custo, denunciado amplamente na imprensa, 
na tribuna, nos romances, dava ao novo regime uma marca incompatvel com a virtude Repblicana. Em tais circunstncias, no se podia nem mesmo falar na definio 
utilitarista do interesse pblico como a soma dos interesses individuais. Simplesmente no havia preocupao com o pblico. Predominava a mentalidade predatria, 
o esprito do capitalismo sem a tica protestante.
Houve reao a tal situao durante o segundo governo militar, a fase jacobina da Repblica. No por acaso, esse governo se destacou pelo combate aos especuladores 
e aos banqueiros. A imagem mais popular do marechal Floriano Peixoto era a do guardio do Tesouro, uma plida verso tropical do Robespierre dos tempos do comit 
de Salvao Pblica, chamado o Incorruptvel. Mas durou pouco a reao. A corrupo e a negociata voltaram a caracterizar o novo regime, fazendo com que o antigo, 
acusado antes de corrupto, aparecesse j como smbolo de austeridade pblica. As representaes da Repblica nas caricaturas da poca mostram a rpida deteriorao 
da imagem do regime. Da clssica figura da austera matrona romana passa-se rapidamente para a cortes renascentista. No se tratava apenas da imagem. Um ministro 
da Fazenda foi acusado, na virada do sculo, de ter feito reproduzir o retraio de sua amante em uma nota do Tesouro, como representao da Repblica.
As dificuldades de implantao seja de uma repblica  antiga, seja de uma repblica moderna no Brasil, preocupavam os intelectuais da poca, especialmente os Repblicanos. 
O ponto central do debate era a relao entre o privado e o pblico, o indivduo e a comunidade. Vrios pensadores identificavam a ausncia do individualismo anglo-saxo 
como fator explicativo da incapacidade brasileira para organizar a sociedade poltica. O terico Repblicano Alberto Sales, aps se ter rapidamente desencantado 
com o novo regime, dizia que os brasileiros eram muito sociveis mas pouco solidrios, isto , conseguiam conviver em pequenos grupos mas eram incapazes de se organizar 
em sociedade. Segundo ele, era exatamente a valorizao do indivduo que dava aos americanos a capacidade de organizar-se que tanta admirao tinha causado a Tocqueville. 
Na mesma linha, Slvio Romero utilizou um autor francs, Edmond Demoulins, para caracterizar a psicologia brasileira como sendo de natureza comunitria, em oposio 
 psicologia individualista dos anglo-saxes. A conseqncia que Slvio Romero tirava dessa distino era a mesma de Alberto Sales: a ausncia entre os brasileiros 
do esprito de iniciativa, da conscincia coletiva, a excessiva dependncia do Estado, o predomnio do que Demoulins chamava de poltica alimentria.10
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At mesmo um positivista como Anbal Falco formulava a antinomia nos mesmos termos. A diferena  que Falco, como bom positivista, colocava a valorao positiva 
do lado brasileiro. A tradio brasileira, ou ibrica em geral, salientava os aspectos integrativos, participatrios, afetivos. A tradio anglo-saxnica era individualista, 
egosta, materialista, conflitiva. O futuro da humanidade estava na primeira tradio. Em poltica, segundo Falco, o individualismo levava  disperso e ao conflito, 
ao passo que o comunitarismo levava  ditadura Repblicana de natureza integrativa.11
O debate poderia ser seguido at a anualidade, bastando lembrar sua retomada recente por Richard M. Morse.12 Segundo Morse, um severo crtico da cultura anglo-saxnica, 
a cultura ibrica traria at hoje a marca da nfase na integrao, na incorporao, na predominncia do todo sobre o indivduo. Tal tradio adviria de uma opo 
feita na Espanha do limiar da Idade Moderna pela viso tomista do Estado e da sociedade, viso em que predominariam as noes de comunidade e a concepo do Estado 
como instrumento para a promoo do bem comum.
Tal concepo,  fcil de verificar, aproxima-se da de Anbal Falco e da dos positivistas ortodoxos em geral. No por acaso, Comte dizia ter-se inspirado nas tradies 
crists da Idade Mdia. As propostas concretas dos positivistas, e no apenas suas posies filosficas, iam tambm na direo de promover a integrao. A comear 
por sua demanda bsica de incorporao do proletariado  sociedade. De preferncia, essa incorporao deveria ser feita pelo reconhecimento, por parte dos ricos, 
do dever de proteger os pobres, por meio de mudana de mentalidade, e no pelo conflito de classes. Outras propostas concretas iam na mesma direo no-conflituosa: 
a abolio da escravido pelo governo, a defesa dos ndios, a oposio s leis contra a vagabundagem. At mesmo a transio Repblicana deveria ser feita de maneira 
suave: os ortodoxos queriam que o imperador tomasse a iniciativa de se proclamar ditador Repblicano.
Mas, apesar da admirvel dedicao dos ortodoxos, suas propostas tiveram efeito reduzido e passageiro. O apelo  integrao aos valores comunitrios, feito nas circunstncias 
de desigualdade social extrema, de luta intensa pelo poder, de especulao financeira desregrada, caa no vazio. Algumas propostas, como as que se referiam  exaltao 
do papel da mulher e da famlia, estavam sem dvida dentro de uma tradio cultural enraizada. Mas seus efeitos eram antes de natureza conservadora, na medida em 
que reforavam o patriarcalismo vigente. Quanto  proposta de fazer do Estado, por intermdio da ditadura Repblicana, um agente do bem comum, um promotor de polticas 
sociais, um preparador da sociedade positivista baseada na harmonia das relaes sociais, ela reforava, na melhor das hipteses, o paternalismo governamental. Na 
pior, acabava levando gua para o
pg.31
moinho do autoritarismo tecnocrtico, com ou sem os militares. Comunidade, afeto e amor tornavam-se meras palavras, se no mistificao.
A dificuldade brasileira com os dois modelos de liberdade, a dos antigos e a dos modernos, estava talvez na ausncia de um elemento que tais modelos no levavam 
em conta, mas que era na realidade parte importante, ou mesmo uma premissa, para o funcionamento deles. Para que funcionasse a repblica antiga, para que os cidados 
aceitassem a liberdade pblica em troca da liberdade individual; para que funcionasse a repblica moderna, para que os cidados renunciassem em boa parte  influncia 
sobre negcios pblicos em favor da liberdade individual  para isso, talvez fosse necessria a existncia anterior do sentimento de comunidade, de identidade coletiva, 
que antigamente podia ser o de pertencer a uma cidade e que modernamente  o de pertencer a uma nao. Pode-se perguntar se a repblica sem patriotas de Hamilton 
poderia sobreviver sem esse sentimento, apesar de todo o aparato institucional inventado pelos fundadores. Pode-se igualmente perguntar se, no caso francs, algo 
da experincia revolucionria, um fenmeno que mobilizava mas que tambm dividia a sociedade, teria podido sobreviver sem o sentimento de nao despertado pelas 
guerras externas e pela cruzada civilizatria que os soldados franceses acreditavam estar realizando na Europa. O sentido da identidade seria, nesse caso, o cimento 
comum aos dois modelos. Em si mesmo, ele no seria suficiente para fundar uma comunidade poltica, por negligenciar o fato universal da diversidade e do conflito. 
A estava, provavelmente, o equvoco da proposta do positivismo ortodoxo. Mas sem ele os dois modelos tambm se desintegrariam.
No Brasil do incio da Repblica, inexistia tal sentimento. Havia, sem dvida, alguns elementos que em geral fazem parte de uma identidade nacional, como a unidade 
da lngua, da religio e mesmo a unidade poltica. A guerra contra o Paraguai na dcada de 1860 produzira,  certo, um incio de sentimento nacional. Mas fora muito 
limitado pelas complicaes impostas pela presena da escravido. Era geral a resistncia ao recrutamento, e muitos libertavam seus escravos para lutar em seu lugar. 
J na Repblica, o jacobinismo tentou mobilizar o patriotismo no Rio de Janeiro. Mas tal mobilizao acabava levando mais  diviso do que  unio. O alvo principal 
dos ataques jacobinos eram os portugueses, que constituam 20% da populao da cidade. Eram portugueses muitos comerciantes e banqueiros, mas tambm muitos operrios 
que se viam, assim, excludos da Repblica jacobina. Um pouco mais tarde, o movimento anarquista atacou explicitamente a idia de ptria, considerada por eles instrumento 
de dominao dos patres, instrumento do controle de mercados e da diviso da classe operria.
A busca de uma identidade coletiva para o pas, de uma base para a construo da nao, seria tarefa que iria perseguir a gerao intelectual da Primeira Repblica 
(1889-1930). Tratava-se, na realidade, de uma busca
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das bases para a redefinio da Repblica, para o estabelecimento de um governo Repblicano que no fosse uma caricatura de si mesmo. Porque foi geral o desencanto 
com a obra de 1889. Os propagandistas e os principais participantes do movimento Repblicano rapidamente perceberam que no se tratava da repblica de seus sonhos. 
Em 1901, quando seu irmo exercia a presidncia da Repblica, Alberto Sales publicou um ataque virulento contra o novo regime, que considerava corrupto e mais desptico 
do que o governo monrquico. A formulao mais forte do desencanto talvez tenha vindo de Alberto Torres, j na segunda dcada do sculo: "Este Estado no  uma nacionalidade; 
este pas no  uma sociedade; esta gente no  um povo. Nossos homens no so cidados".13
pg.33

2
AS PROCLAMAES DA REPBLICA*

        A gente fica a pensar se a histria
        no ser em grande parte um
        romance de historiadores.
                                    Tobias Monteiro1

No decorrera ainda um ms da proclamao da Repblica quando o encarregado de negcios da Frana no Rio de Janeiro, Camille Blondel anotava a tentativa dos vencedores 
de 15 de novembro de construir uma verso oficial dos fatos destinada  histria. Tentava-se, segundo Blondel, ampliar ao mximo o papel dos atores principais e 
reduzir ao mnimo a parte do acaso nos acontecimentos.2 O encarregado percebera um fenmeno comum aos grandes eventos: a batalha pela construo de uma verso oficial 
dos fatos, a luta pelo estabelecimento do mito de origem. No caso da Repblica, a batalha era to importante, se no mais que a prpria proclamao, um evento inesperado, 
rpido, incruento. Estavam em jogo a definio dos papis dos vrios atores, os ttulos de propriedade que cada um julgava ter sobre o novo regime, a prpria natureza 
do regime.
O fato de ter sido a proclamao um fenmeno militar, em boa parte desvinculado do movimento Repblicano civil, significa que seu estudo no pode, por si s, explicar 
a natureza do novo regime. O advento da Repblica no pode ser reduzido  questo militar e  insurreio das unidades militares aquarteladas em So Cristvo. De 
outro lado, seria incorreto
pg.35

(*) Verso resumida deste captulo foi publicada em Cincia Hoje, 59 (novembro, 1989), pp. 26-33.
desprezar os acontecimentos de 15 de novembro como se fossem simples acidente. Embora as razes da Repblica devam ser buscadas mais longe e mais fundo, o ato de 
sua instaurao possui valor simblico inegvel. No foi por outra razo que tanto se lutou por sua definio histrica. Deodoro, Benjamin Constant,* Quintino Bocaiva, 
Floriano Peixoto: no h inocncia na briga pela delimitao do papel de cada uma dessas personagens. Por trs da luta, h disputa de poder e h vises distintas 
sobre a natureza da Repblica.

AS PROCLAMAES
No pretendo reconstituir as diferentes verses dadas pelos participantes do 15 de novembro. Basta observar que por muito tempo digladiaram-se partidrios de Deodoro, 
Benjamin Constant, Quintino Bocaiva, Floriano Peixoto. A disputa tomava s vezes carter apaixonado e girava em torno de pontos aparentemente irrelevantes. Tome-se 
como exemplo o que se poderia chamar a guerra dos vivas. Quem deu vivas a quem, ou a qu, em que momento? As verses so desencontradas. Deodoro teria dado um viva 
ao imperador ao entrar no Quartel-General? Ao sair do Quartel? Benjamin Constant deu vivas  Repblica para abafar o viva ao imperador dado por Deodoro? Teria este 
censurado os vivas  Repblica dizendo que ainda era cedo ou que fossem deixados ao povo? O que significa o famoso leo de H. Bernardelli, transformado em verso 
oficial e sagrada do momento da proclamao? Deodoro, que posou para o quadro, estaria naquele momento (sada do Quartel-General, aps a deposio do ministrio) 
dando vivas ao imperador ou  Repblica? Estaria, sem vivas, mandando dar uma salva de 21 tiros pelo xito da deposio do ministrio ou pelo xito da proclamao? 
Houve, afinal, algum momento no dia 15 em que Deodoro tenha proclamado a Repblica?
Se a guerra dos vivas tem a ver com a participao de Deodoro, outras disputas dizem respeito  participao de Benjamin Constant. Todos esto de acordo em reconhecer 
sua influncia sobre as escolas militares (a da Praia Vermelha e a Escola Superior de Guerra, criada em 1889, sediada em So Cristvo). No h, tambm, dvida sobre 
suas convices Repblicanas, mas existem srias discordncias quanto  importncia de sua atuao a 15 de novembro. Seus seguidores insistem em lhe dar o papel 
de fundador da Repblica, de responsvel pela ao dos militares; teria sido ele quem fornecera os fundamentos ideolgicos, quem convencera Deodoro e evitara que 
o episdio no passasse de quartelada. Os deodoristas retrucam dizendo
pg.36
que o prprio Benjamin reconhecia que sem Deodoro nada poderia ter sido feito, pois s o velho general teria condies de galvanizar a tropa pela liderana que sobre 
ela exercia. Benjamin, nessa verso, no passava de um professor desconhecido de boa parte da tropa aquartelada. Os Repblicanos histricos, especialmente Quintino 
Bocaiva, chefe do Partido Repblicano Brasileiro, e Francisco Glicrio, representante dos Repblicanos paulistas, repisam as hesitaes de Benjamin tanto na vspera 
da proclamao como no prprio dia 15. Segundo seu depoimento, Benjamin hesitou at o final da tarde daquele dia. Os histricos tentam preservar a figura de Deodoro, 
ao mesmo tempo em que enfatizam o prprio papel diante da reconhecida falta de convico Repblicana do marechal e das dvidas de Benjamin.
Por fim, aps a subida de Floriano ao governo, no faltaram os que atribussem  sua atuao o papel central no dia 15. Serzedelo Correia  o principal defensor 
dessa posio. A dubiedade de Floriano, apontada por muitos, ou mesmo sua hostilidade ao movimento, denunciada por deodoristas, so transformadas por Serzedelo em 
astcia destinada a facilitar o xito da revolta. A ele se deveria o fato de ter sido proclamada a Repblica de maneira to tranquila, sem derramamento de sangue.

(*) Trata-se aqui, evidentemente, do militar brasileiro, e no do terico francs mencionado no captulo 1.
Ele teria sido mesmo um Repblicano de longa data.
Deodoro, Benjamin Constant, Quintino Bocaiva, Floriano Peixoto: a briga persistiu por longo tempo e pode ser seguida nos artigos e editoriais de O Paiz, o jornal 
de Quintino Bocaiva, porta-voz do oficialismo Repblicano. A dana dos adjetivos, definidores do papel de cada um desses homens, prossegue at os dias de hoje. 
A luta maior  pela qualificao de fundador, disputada pelos partidrios de Deodoro e Benjamin Constant. Quintino  raramente fundador; com freqncia aparece como 
patriarca ou apstolo. Em torno de Floriano h mais consenso, pois veio depois: ele ser o consolidador, o salvador da Repblica. Os que tiram de Deodoro a qualidade 
de fundador lhe do, em compensao, o titulo de proclamador. A distribuio de papis  comentada com humor por Gavroche'' (pseudnimo de Arthur Azevedo), em O 
Paiz de 19/11/1895:

Retratos
O Nicromante, pelos modos,
Satisfazer procura a todos:
Traz Benjamin, que  o fundador,
Deodoro, que  o proclamador,
Floriano, o consolidador,
PRudnte, o pacificador?
Isto  que  ser engrossador!

Picuinhas, anedotrio, fofocas, petite histoire, simples disputa de poder entre os participantes dos acontecimentos? Se assim fosse, a disputa
pg.37
no teria sobrevivido aos atores envolvidos. Na luta pelo estabelecimento de uma verso oficial para o 15 de novembro, pela constituio de um panteo Repblicano, 
assim como se deu e geralmente se d em todos os momentos de transformao poltica, estava embutido o conflito pela definio do novo regime. Inicialmente apenas 
verbal, o conflito foi aos poucos sendo explicitado em lutas polticas que seria talvez prematuro considerar extintas cem anos aps o acontecimento. A anlise da 
luta pelo mito fundador pode servir para esclarecer a natureza desse conflito.

DEODORO: A REPBLICA MILITAR
Que representava o deodorismo? Ele foi defendido principalmente por setores militares desvinculados da propaganda Repblicana. Os deodoristas eram, sobretudo, os 
oficiais superiores que tinham lutado na guerra contra o Paraguai. Eram os inmeros parentes que cercavam o marechal, irmos e sobrinhos, um dos quais lhe abriu 
os portes do Quartel-General a 15 de novembro.3 Eram os jovens oficiais que fizeram a mobilizao das tropas de So Cristvo, o 1 e o 9 Regimentos de Cavalaria 
e o 2 Regimento de Artilharia, e a Escola Superior de Guerra. Salientaram-se nesse grupo o capito Mena Barreto (que sofreu uma sincope de tanto gritar vivas  
Repblica no Campo de Santana, e que acordou o visconde de Ouro Preto na priso dizendo-lhe que ia ser fuzilado), o capito Trajano Cardoso, o tenente Sebastio 
Bandeira, o alferes Joaquim Incio Batista Cardoso (que props fuzilar o imperador), o alferes Manuel Joaquim Machado, o cadete-sargento Plcido de Abreu. Estes, 
menos o ltimo, chegaram a se reunir logo aps o 15 de novembro para estabelecer o que consideravam a verdade sobre os fatos e combater o esforo dos que tentavam, 
segundo eles, deturpar a histria em proveito prprio.4 Os mais vocais do grupo foram Mena Barreto e Sebastio Bandeira. Anos depois, j feitos generais, ainda disputavam 
a verso dos fatos.
Para esse grupo, a proclamao foi ato estritamente militar, corporativo, executado sob a liderana insubstituvel de Deodoro. Os civis pouco ou nada influram. 
Eram poucos no Campo de Santana e nem mesmo organizaram adequadamente a mise-en-scne:  "[...] os chefes Repblicanos nem sequer prepararam a encenao para o momento 
psicolgico", diz Sebastio Bandeira, dando razo a Aristides Lobo em sua famosa descrio da maneira como o povo presenciou a proclamao.5 A viso desses jovens 
oficiais no-positivistas coincidia com a do prprio Deodoro e dos oficiais superiores que participaram da Guerra do Paraguai, muitos dos quais se tinham depois 
envolvido na Questo Militar. A Repblica, para esse grupo,
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era o ato final da Questo Militar, sua soluo definitiva pela eliminao de um regime que, segundo eles, era dominado por uma elite bacharelesca infensa aos interesses 
castrenses, desrespeitosa dos brios militares.
O tema corporativo foi decisivo para convencer Deodoro a participar do movimento.  conhecida sua resistncia  admisso de civis  paisanos, casacas, como dizia 
 na conspirao. Alegava tratar-se de assunto estritamente militar. Exerceram tambm influncia decisiva no desencadeamento do movimento as notcias inventadas 
no dia 14 pelo major Slon sobre a priso de Deodoro e Benjamin, e os boatos de que a tropa de So Cristvo seria atacada pela Guarda Nacional, pela Guarda Negra 
e pela polcia. De fato, Ouro Preto decidira reorganizar a Guarda Nacional e fortalecer a polcia como contrapeso  indisciplina do Exrcito, mas era certamente 
falso que pretendesse reduzir o contingente do Exrcito, ou mesmo extingui-lo, como se disse a Deodoro. A cada notcia dessas, trazida pelos jovens oficiais, Deodoro 
explodia: "No permitirei isso! Assestarei a artilharia, levarei os sete ministros  praa pblica e me entregarei depois ao povo para julgar-me!.6 At mesmo Floriano 
Peixoto pode ter sido levado a no defender a Monarquia por razes corporativas.  conhecida sua resposta a Deodoro quando este o sondou sobre o movimento: "Se a 
coisa  contra os casacas, l tenho minha espingarda velha". Deodoro menciona tambm outra manifestao de Floriano em que este, pegando num boto da farda, dissera: 
"Seu Manuel, a Monarquia  inimiga disto. Se for para derrub-la , estarei pronto''.7 
Esse grupo no tinha viso elaborada de repblica, buscava apenas posio de maior prestgio e poder, a que julgava ter o Exrcito direito aps o esforo de guerra 
contra o Paraguai. A elite poltica imperial, apesar das muitas indicaes de insatisfao militar, no abriu mo de seu civilismo, de sua crena na necessidade 
do predomnio da autoridade civil. A postura de Ouro Preto  indicativa de tal convico levada a ponto de quase cegueira poltica. Em circunstncias normais, o 
imperador, valendo-se at mesmo de suas relaes pessoais, servia de anteparo s queixas militares. Mas desde 1887 o diabetes lhe tirara a capacidade de governar. 
Durante a Questo Militar, em 1887, Pelotas j usara esse argumento para "pr as tropas na rua": o imperador no tinha mais vontade.8 Surgido o esprito de corpo, 
e tendo desaparecido a possibilidade da relao privilegiada dos chefes com o imperador, ficavam os militares diante do gabinete e do parlamento, isto , da elite 
poltica civil, que sempre se orgulhara de ter mantido o Brasil afastado do estilo caudilhista predominante nas repblicas vizinhas do Brasil, indicador de barbrie 
poltica. No dia 16 de novembro, ao receber o mensageiro de Saraiva, indicado como novo presidente do Conselho, Deodoro diz que j era tarde, que a Repblica fora 
proclamada e que os culpados eram Ouro Preto e o conde D'Eu, este por no ter impedido, com sua influncia, que os ministros oprimissem os militares.9 A posio 
do grupo pode ser
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resumida na frase de Deodoro a Ilha Moreira s vsperas do movimento: a Repblica  a salvao do Exrcito.10
O deodorismo aparece com nitidez no conhecido leo de H. Bernardelli que representa a proclamao da Repblica. O quadro  totalmente dominado pela imagem equestre 
do marechal, que ocupa todo o primeiro plano. As outras figuras aparecem ao fundo e em postura secundria. L esto Benjamin, em p de igualdade com Quintino Bocaiva, 
ambos a cavalo, e, a p, Aristides Lobo. O estilo do quadro  o da clssica exaltao do heri militar, elevado sobre os comuns mortais montando fogoso animal.  
a exaltao do grande homem vitorioso, fazedor da histria. A nfase personalista  ainda maior do que a do quadro de Pedro Amrico sobre a proclamao da Independncia. 
Ai a figura de Pedro I aparece interagindo com vrias outras. H ao coletiva no quadro de Pedro Amrico, ao que est ausente no de Bernardelli, talvez mesmo 
porque houvesse menor necessidade de afirmar o papel do primeiro imperador nos acontecimentos. S falta ao quadro de Bernardelli a espada, o smbolo da ao militar. 
Mas a falta se deve certamente ao fato de ter Deodoro posado para o quadro. A 15 de novembro, ele no levava espada, apesar de depoimentos em contrrio. Represent-lo 
erguendo a espada coruscante, como queria o major Jacques Ourique, seria violar por demais a verdade dos fatos. J bastava a dvida sobre o sentido do gesto de erguer 
o bon.

BENJAMIN CONSTANT: A REPBLICA SOCIOCRTICA
Os defensores da preponderncia de Benjamin Constant na proclamao representavam uma corrente poltica e ideolgica muito distinta. A diferena aparece j nos adjetivos 
com que Benjamin era descrito, ou endeusado. Junto da qualificao de fundador, disputa direta com Deodoro, apareciam outras que melhor descreviam o papel a ele 
atribudo. Era o catequista, o apstolo, o evangelizador, o doutrinador, a cabea pensante, o preceptor, o mestre, o dolo da juventude militar. Benjamin no aparece 
em primeiro lugar como representante da classe militar, como vingador e salvador do Exrcito. Aparece como o professor, o terico, o portador de uma viso da histria, 
de um projeto de Brasil. A ele se deveria o fato de o 15 de novembro ter ido alm de uma quartelada destinada a derrubar o ministrio de Ouro Preto, de se ter transformado 
em mudana de regime, em revoluo, em salvao da ptria.
A exposio mais elaborada dessa vertente foi feita pelos positivistas ortodoxos. Benjamin desentendera-se com Miguel Lemos, desligando-se da ento Sociedade Positivista 
em 1882, mas mantivera relao amistosa com os chefes da ortodoxia. Logo aps a proclamao, no dia 17 de novembro, foi por estes procurado, tendo mantido com eles 
contato estreito at sua
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morte, em 1891. Um ano depois, Teixeira Mendes publicava sua biografia. Nesta, Benjamin  colocado no panteo cvico do Brasil, ao lado de Tiradentes e Jos Bonifcio. 
Tiradentes na Inconfidncia, Jos Bonifcio na Independncia, Benjamin na Repblica, era essa, para os ortodoxos, a trindade cvica que simbolizava o avano da sociedade 
brasileira em direo a seu destino histrico, que era tambm a plenitude da humanidade em sua fase positiva.11
Sem dvida, o elemento corporativo foi tambm manipulado por Benjamin e seus seguidores. A exaltao dos alunos da Escola Militar e da Escola Superior de Guerra 
tinha muito de corporativa, de anticivil. Falava-se o tempo todo em desagravo aos brios militares. Mas, para Benjamin, o Exrcito era antes um instrumento do que 
o fim da ao. Da talvez suas hesitaes no dia 15. Como positivista, embora no ortodoxo, nada tinha de militarista, repugnava-lhe a idia do predomnio da fora 
na poltica. Pacifista, sonhava com o fim dos exrcitos, com o recolhimento de todas as armas ao museu da histria. No deixava de serirnico que o Exrcito fosse 
usado para atingir um estado social que o rejeitava. Silvio Romero apontou na poca essa incongruncia. Militarismo e positivismo eram, segundo ele, duas coisas 
que "hurlent de se trouver ensemble". Os ortodoxos reprovaram a Benjamin a maneira como foi feita a Repblica. Para eles, a transio deveria ter sido completada 
pela elite imperial, o imperador  frente. Mas essa convico no impediu Teixeira Mendes, no prprio dia 15, de exortar os Repblicanos aos gritos: "Proclamem a 
ditadura! Proclamem a ditadura!". Nem elimina o fato de que, por trs do apoio a Benjamin, havia uma viso elaborada de repblica.12
Tal viso conflitava no s com o deodorismo mas tambm, e principalmente, com a posio de boa parte dos histricos. Falava-se na diviso entre as correntes democrtica 
e sociocrtica, entendendo-se por democrtica a posio dos histricos no-positivistas, partidrios de uma repblica representativa  maneira americana, ou talvez 
mesmo  maneira da Terceira Repblica Francesa. Os sociocrticos, ou positivistas, eram inimigos abertos da democracia representativa, para eles caracterstica do 
estado metafsico da humanidade. Em seu lugar, deveria ser implantada a ditadura Repblicana, forma de governo inspirada tanto na tradio clssica romana como na 
figura do Danton dos tempos do Comit de Salvao Pblica da Revoluo Francesa. O Congresso, nesse modelo, cumpria apenas papel oramentrio. O ditador Repblicano 
governaria por toda a vida e escolheria seu sucessor. A finalidade de tal ditadura era promover a repblica social, isto , garantir, de um lado, todas as liberdades 
espirituais e promover, de outro, a incorporao do proletariado  sociedade, mediante a eliminao dos privilgios da burguesia.
Em sua forma pura, a vertente ligada a Benjamin Constant ficou restrita s propostas dos ortodoxos e no encontrou aplicao prtica. Mas
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contribuiu para vrias medidas dos primeiros anos da Repblica, sobretudo a separao entre Igreja e Estado, a introduo do casamento civil, a secularizao dos 
cemitrios, o incio do contato com o operariado, a reforma do ensino militar. A idia de uma repblica ditatorial, social e virtuosa, e a oposio  representao 
poltica,  elite bacharelesca, permitiram uma fuso parcial dessa corrente com o jacobinismo que surgiu durante o governo Floriano e marcou a poltica Repblicana 
at 1897. Embora Floriano fosse catlico e aborrecesse o positivismo, o estilo de governo que representou  autoritrio, anticasacas, contra o grande capital, moralista 
(ao menos na aparncia), populista  tinha vrios pontos de contato com a proposta positivista, embora essa doutrina estivesse em contradio com o militarismo.
Se a repblica dos deodoristas resumia-se  salvao do Exrcito, a repblica da vertente Benjamin Constant queria a salvao da ptria. Ela absorvia do positivismo 
uma viso integrada da histria, uma interpretao do passado e do presente e uma projeo do futuro. Incorporava, ainda, uma tendncia messinica, a convico do 
papel missionrio que cabia aos positivistas, tanto militares como civis. A histria tinha suas leis, seu movimento predeterminado em fases bem definidas, mas a 
ao humana, especialmente a dos grandes homens, poderia apressar a marcha evolutiva da humanidade. Essa marcha, no caso brasileiro, passava pelo estabelecimento 
de uma repblica que garantisse a ordem material, entendida como incorporao do proletariado  sociedade, e a liberdade espiritual, isto , a quebra dos monoplios 
da Igreja e do Estado sobre a educao, a religio, a cincia.
Os ortodoxos civis pensavam realizar tudo isso pela ao de pessoas que possussem treinamento tcnico, mdicos, engenheiros, matemticos. Uma vanguarda aguerrida 
assim composta poderia, segundo eles, operar a grande transformao. Era uma espcie de bolchevismo de classe mdia, que ser discutido adiante. Muitos positivistas 
no se conformavam, no entanto, com o uso exclusivo da ttica do convencimento. Engajaram-se na luta poltica, em conspiraes e revoltas, embora tivessem de enfrentar 
a reprovao e at a excomunho do Apostolado. Foi o caso de Silva Jardim, Benjamin Constant e outros. O mesmo se deu no positivismo militar, especialmente no das 
escolas militares, que entraram num estado quase permanente de agitao poltica, interrompido apenas em 1904, por ocasio da Revolta da Vacina. O jacobinismo civil, 
crescido em torno de Floriano, tambm no se prendia s restries dos ortodoxos.13
A vertente positivista deixou sua marca em vrios monumentos Repblicanos, salientando-se os dedicados a Benjamin Constant, localizado na praa da Repblica, no 
Rio de Janeiro; a Floriano Peixoto, na Cinelndia, tambm no Rio; e a Jlio de Castilhos, em Porto Alegre, todos obras dos artistas positivistas Eduardo de S e 
Dcio Villares. Semelhantes na concepo, os trs constituem verdadeiros discursos polticos. Obedecem no s s idias polticas e filosficas de Comte mas tambm 
a suas concepes
pg.42
estticas, segundo as quais a arte deve ser a idealizao da realidade, a exaltao do lado altrusta e afetivo do ser humano, deve promover o culto cvico da famlia, 
da ptria e da humanidade. O culto cvico, no caso brasileiro, segundo a orientao do Apostolado positivista, inclua, alm da bandeira Repblicana, desenhada por 
Dcio Villares, as figuras de Tiradentes, Jos Bonifcio e Benjamin Constant.
O monumento a Benjamin Constant, executado por Dcio Villares e inaugurado em 1925, j fora proposto por Teixeira Mendes em 1892. Proposto e concebido. Segundo Teixeira 
Mendes, Benjamin devia sem dvida ser mostrado em sua atuao de 15 de novembro, mas era preciso ficar explcito que agia "sustentado moralmente pela Famlia e impulsionado 
pela Ptria, no servio da Humanidade". A figura simblica da Repblica, representada por uma mulher, deveria dominar o monumento. Benjamin deveria aparecer tendo 
cruzada sobre o peito a bandeira Repblicana, com destaque para o lema "Ordem e Progresso". Baixos-relevos representariam cenas da vida do heri.14 A obra de Dcio 
Villares seguiu em quase tudo as indicaes de Teixeira Mendes. A nica modificao significativa, que no foge  simbologia positivista, foi a substituio da Ptria 
no alto do monumento pela Humanidade, representada tambm por uma mulher, agora com uma criana ao colo. Benjamin est voltado para o Quartel-General,
pg. 45
tendo por trs a bandeira. Nos medalhes e baixos-relevos nas quatro faces do monumento, aparecem cenas de sua vida, incluindo o momento do 15 de novembro em que 
 colocado ao lado de Deodoro, em p de igualdade, fazendo mesmo certo contraponto com a figura do marechal: enquanto este est de bon erguido, Benjamin mantm 
o seu abaixado. Aparecem nos medalhes as figuras de Tiradentes e Jos Bonifcio. Em um dos baixos-relevos, na parte posterior, h referncia  Revoluo Francesa, 
na figura de Danton. Num dos medalhes mais arrojados, Cristvo Colombo preside a uma cerimnia em que Benjamin Constant devolve ao presidente Francia os trofus 
da Guerra do Paraguai. O bronze utilizado proveio da fundio de dois canhes, um brasileiro, outro paraguaio. Por todo o monumento, h reproduo de lemas positivistas 
e frases de Benjamin Constant, tais como A religio da Humanidade  a minha religio''.
Viso semelhante est embutida no monumento a Floriano Peixoto, obra de Eduardo de S. A obra foi inaugurada em 1910, mas o edital  de 1901. A figura de Floriano 
 colocada no alto do pedestal, em composio intitulada Guarda  bandeira. Como no monumento anterior, a bandeira Repblicana forma o pano de fundo da esttua. 
Nela, em baixo-relevo, esto as cabeas de Tiradentes e Jos Bonifcio e o busto de Benjamin Constant.  esquerda, uma figura de jovem mulher estende a mo direita, 
abenoando
pg. 47
o passado e apontando para o futuro da ptria. A base do monumento tem a forma de altar cvico, referncia aos altares erguidos em Paris aps a revoluo de 1789. 
Nos nichos do altar, foram colocados quatro grupos em bronze e uma esttua. Os grupos representam as trs raas formadoras da populao brasileira e a religio catlica, 
mediante a referncia a poemas famosos de nossa literatura. L esto O Caramuru (raa branca), A cachoeira de Paulo Afonso (raa negra), Y-Juca Pirama (raa amarela) 
e Anchieta (catolicismo). A figura de mulher, com uma rosa na mo, pretende significar a raa mista surgida da fuso das trs etnias e o predomnio do sentimento 
e do amor. Painis em baixo-relevo mostram colaboradores da obra de Floriano. Eram tantas as figuras que, segundo Francisco de Assis Barbosa, se dizia  poca que 
Floriano do topo do monumento parecia gritar: "Aqui no sobe mais ningum".15
O monumento provocou larga controvrsia. Reclamava-se do carter sectrio de sua concepo, de representar a tentativa de uma corrente de pensamento, de uma faco 
poltica, de se apossar indevidamente de figura que pertencia a todos os Repblicanos. A polmica entende-se pelo fato de no ter sido Floriano um positivista, ao 
contrrio de Benjamin Constant e Jlio de Castilhos. O monumento era, de fato, uma tentativa positivista de se apropriar de sua memria. No deixa de ser significativo 
que Floriano tenha sido colocado no monumento guardando a bandeira Repblicana concebida pelos positivistas. Floriano,  sabido, no gostava da bandeira e chegou 
mesmo a encorajar, quando presidente, um projeto de lei que propunha modific-la, retirando o lema positivista, como se ver adiante.16
No difere muito na concepo o monumento a Jlio de Castilhos, inaugurado em Porto Alegre em 1913. A obra  do mesmo Dcio Villares que executou o de Benjamin Constant 
e compe-se de uma pirmide em cujo topo domina a figura da Repblica em forma de mulher, tendo aos ps um globo onde se distinguem 21 estrelas, que representam 
a Federao, e o indefectvel "Ordem e Progresso". Na base da pirmide, nos quatro lados, aparecem vrias cenas da vida de Jlio de Castilhos, alm das tradicionais 
referncias a Tiradentes, a Jos Bonifcio e  Revoluo Francesa. Lemas positivistas distribuem-se pelo monumento.17

QUINTINO BOCAIVA: A REPBLICA LIBERAL
Quintino Bocaiva representava em 1889 a propaganda Repblicana inaugurada com algum estardalhao pelo Manifesto de 1870, redigido em grande parte por ele. Em maio 
de 1889, durante o Congresso Repblicano Federal realizado em So Paulo, Quintino fora eleito chefe do Partido Repblicano Brasileiro, posio que lhe dava representao 
dos Repblicanos
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paulistas e de outras provncias. Por essa razo, embora houvesse divergncias dentro do partido quanto aos mtodos a serem empregados para a mudana do regime, 
a 15 de novembro ele representava todos os propagandistas civis.
A defesa de seu papel era mais problemtica do que a da participao das duas faces militares, pelo simples fato de que o 15 de novembro foi ao decidida e levada 
a efeito pelos militares. Os Repblicanos civis foram colocados a par da conspirao apenas quatro dias antes de seu desfecho. Mesmo assim, como vimos, contra a 
vontade de Deodoro. Para a legitimidade do movimento, no entanto, era importante que ele no aparecesse como simples ao militar. Era fundamental que a presena 
dos histricos constasse do prprio evento, a fim de evitar a ironia de uma proclamao alheia ao esforo que desenvolviam havia tantos anos.
A aliana com militares para implantar a repblica fora discutida entre os propagandistas. Quintino Bocaiva era quem mais defendia tal alternativa. Ele prprio 
confessou que no se dispunha a ir para a rua sem o "boto amarelo": "Sem a fora armada ao nosso lado, qualquer agitao de rua seria no s um ato de loucura [...] 
mas principalmente uma derrota antecipada".18 Era, por isso mesmo, chamado de militarista nos crculos Repblicanos. Outro que aceitava a colaborao era Francisco 
Glicrio, que Campos Sales enviou ao Rio ao ser avisado por Aristides Lobo dos planos conspiratrios. Havia os que discordavam da alternativa, seja por defenderem 
a implantao da repblica pela via revolucionria, pela revolta popular, caso de Silva Jardim, seja por a desejarem pela revoluo pacfica, como Amrico Brasiliense, 
Bernardino de Campos, Saldanha Marinho e talvez a maioria dos Repblicanos paulistas.  sintomtico o fato de que nem Silva Jardim nem Saldanha Marinho tenham sido 
postos a par da conspirao.
Um dos grandes problemas dos histricos era a situao do partido no Rio de Janeiro. Seu chefe tradicional e respeitado, Saldanha Marinho, no o conseguia disciplinar, 
dadas as divises entre as vrias correntes  evolucionistas, revolucionrias, civilistas, militaristas. Os paulistas inquietavam-se com a situao do Rio. Em 1887, 
Campos Sales escrevia a Saldanha Marinho: [...] o atraso da idia Repblicana no Brasil  devido quase que totalmente  falta de uma boa organizao na capital 
do Imprio".19 Ao final de 1888, incio de 1889, o partido estava em crise no Rio. Saldanha escrevia aos paulistas ameaando renunciar. Segundo ele, no Rio havia 
apenas um simulacro de partido. Disciplin-lo, acrescentava, "era tarefa superior s foras de qualquer.20 O desnimo em relao s possibilidades de uma ao eficaz 
por parte do grupo Repblicano do Rio de Janeiro era partilhado tambm pelos radicais do grupo. No congresso do partido realizado em 1888, Barata Ribeiro, o futuro 
prefeito florianista da cidade, manifestava seu ceticismo, afirmando que era das provncias que se devia esperar a vitria
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do movimento. O Rio de Janeiro poderia, no mximo, contribuir com a pirotecnia.21
Foi a pirotecnia que os deodoristas pediram aos Repblicanos no dia 15. Segundo o tenente Bandeira, nem esta foi bem organizada, valendo-lhe, para tal afirmativa, 
a observao do histrico Aristides Lobo. Essa verso dos acontecimentos era incmoda demais para os civis, mesmo para os militaristas como Quintino Bocaiva. A 
presena militar era inegvel, mas fazia-se necessrio transform-la em mero instrumento dos desgnios dos histricos. A posio de Deodoro lhes era simptica exatamente 
por ser corporativa. Deodoro representava o apoio da corporao militar sem interferncia na concepo do novo regime e mesmo em seu funcionamento. Bastava aos histricos 
salientar as hesitaes do marechal na reunio de 11 de novembro e aps a deposio do ministrio de Ouro Preto. Nos dois momentos, Quintino Bocaiva aparece, na 
verso do grupo, como a pessoa que faz Deodoro decidir-se a favor da repblica. No dia 15, Quintino teria convencido o major Slon a dizer a Deodoro que no recolocaria 
a espada na bainha enquanto a repblica no fosse inequivocamente proclamada.
Mais importante do que afirmar a posio dos histricos frente a Deodoro, era afirm-la frente a Benjamin Constant. Se a glorificao de Deodoro era compatvel com 
a proposta dos histricos, ou pelo menos de um grupo deles, a de Benjamin no o era, de vez que, representava, alm da interferncia militar, uma concepo de repblica, 
uma determinao de orientar os rumos do novo regime. Os rumos de Benjamin eram os rumos positivistas. Se havia histricos positivistas, especialmente no Rio Grande 
do Sul, eles no predominavam no Rio e muito menos em So Paulo, onde estava o peso maior do movimento. A repblica sociocrtica dos positivistas era incompatvel 
com a repblica democrtica dos paulistas, isto , com a repblica representativa  maneira norte-americana. Esta, para os positivistas, era um regime metafsico, 
uma ditadura parlamentar, uma burguesocracia. Os grandes adversrios ideolgicos dos histricos eram os positivistas e no os deodoristas.
No  de estranhar, ento, que a verso de Quintino Bocaiva e de Francisco Glicrio buscasse reduzir o papel de Benjamin, mais do que o de Deodoro. Benjamin  ai 
apresentado como um ingnuo, vitima de "indeciso natural e constante. No lugar do lder que os positivistas apresentavam como o firme antdoto s hesitaes de 
Deodoro, como aquele que, nos momentos decisivos, especialmente a 11 e 15 de novembro, garante que o movimento no seja apenas uma quartelada, aparecia um Benjamin 
quase to hesitante quanto Deodoro, se no mais. No dia 14, diante do agravamento do estado de sade do marechal, Benjamin se teria mostrado totalmente desanimado, 
propondo adiar o movimento ou j quase resignado ao fracasso da causa, preocupado com as conseqncias da represlia que certamente cairia sobre os militares.22
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Segundo Quintino, foi sua deciso, apoiada por Slon, que levou  proclamao, inventando os boatos deflagradores da movimentao dos regimentos de So Cristvo 
e, assim, definindo a situao. Diz mesmo que a Repblica se fez no dia 14, s seis da tarde, no largo de So Francisco, durante sua reunio com Slon. Sua deciso, 
o arrojo de Slon, o herosmo de Deodoro  eis, segundo ele, os ingredientes que fizeram a Repblica. A deciso  dos histricos,  do chefe do Partido Repblicano; 
os militares so os instrumentos livremente aceitos para implement-la. Quintino sugere que a prpria Questo Militar teria sido parte da ttica Repblicana de agitar 
os quartis contra o governo. Sena Madureira, "nosso companheiro", teria dado incio ao conflito com tal finalidade.
H mais. Segundo os histricos, a hesitao de Benjamin fez-se ainda maior aps a deposio do ministrio. At o final da tarde do dia 15 no tinha havido nenhuma 
manifestao formal de proclamao da Repblica por parte da liderana militar do movimento. A manifestao da Cmara Municipal, liderada por Jos do Patrocnio, 
pedia exatamente isto: a decretao inequvoca do novo regime. A uma comisso que se dirigia  casa de Deodoro para exigir tal medida, Benjamin respondera da janela 
(Deodoro achava-se de cama, atacado de nova crise de dispnia) que no se podia impor ao pas um regime novo, que era necessrio consultar a populao por meio de 
um plebiscito. Isso deu margem a que um dos sobrinhos de Deorforo, participante direto dos acontecimentos, o capito Mrio Hermes da Fonseca, se referisse a Benjamin 
Constant como o "homem do plebiscito".23
A afirmao do papel dos histricos era, portanto, importante para garantir a posio dos civis na proclamao e a perspectiva liberal da Repblica. Mas era impossvel 
negar o aspecto militar do evento e o carter inesperado de sua ecloso. Todos os jornais do Rio registraram esses dois elementos. Um compilador das notcias publicadas 
nos primeiros dias da Repblica reconhece "o sentimento de surpresa unnime, produzido pelo estabelecimento da forma Repblicana no Brasil".24 Arthur Azevedo, Repblicano 
insuspeito, diz que a expresso de Aristides Lobo  bestificado (sic)  era de uma propriedade cruel, pois "os cariocas olhavam uns para os outros, pasmados, interrogando-se 
com os olhos sem dizer palavra". Ao voltar para casa, s duas da madrugada, tudo era calmo e deserto no Rocio (praa Tiradentes). Cantando, quatro garis varriam 
a rua do Esprito Santo. Ao v-los, o teatrlogo pensou: "Esses homens no sabiam, talvez, que naquele dia houvera uma revoluo.25
O carter militar da operao era tambm por demais evidente para ser negado. O que o povo da cidade viu foi, como disse Aristides, uma parada militar liderada por 
Deodoro. Aps a deposio do ministrio no Campo de Santana, a parada seguiu pela rua da Constituio, passando pelo Rocio, pela rua do Teatro, pelo largo de So 
Francisco e pelas ruas do 
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Ouvidor e 1 de Maro, at o Arsenal de Marinha e a rua larga de So Joaquim (hoje Marechal Floriano), de onde regressou aos quartis de So Cristvo. Nesse percurso, 
a parada era seguida por grupos de populares, arengados por Lopes Trovo e Patrocnio na rua do Ouvidor. Pela rua 1 de Maro, segundo Arthur Azevedo, o cortejo 
passou em profundo silncio. Deodoro parecia um heri derrotado, mal se sustentando na sela, a cara fechada, de cor ferrosa puxando para o verde.26
Na Assemblia Constituinte, houve freqentes debates sobre a natureza militar da proclamao. Alguns civis, como Costa Jnior, queixavam-se das afirmaes quase 
dirias de que a proclamao se devera exclusivamente aos militares, verso que considerava deprimente ao carter nacional. Mas no eram s os militares constituintes, 
como o major Esprito Santo, que afirmavam a supremacia de sua classe nos eventos. Repblicanos histricos no comprometidos com a criao de uma verso "menos deprimente" 
admitiam abertamente o fato. Foi o caso do desabusado Martinho Prado Jnior, o qual dizia sem peias que "Os militares fizeram a repblica" e criticava os civis por 
se terem submetido aos desgnios dos quartis. A interferncia militar, segundo ele, tornara possvel a proclamao do novo regime quando os Repblicanos eram parte 
insignificante da populao. Dai tambm, segundo ele, a quase nenhuma diferena entre o regime antigo e o novo. No era a repblica de seus sonhos.27
Em tais circunstncias, era difcil, se no impossvel, elaborar um mito de origem baseado na predominncia civil. Como construir um monumento  proclamao em que 
Quintino, Glicrio ou Aristides Lobo aparecessem como figuras principais? Mesmo dentro da esttica positivista, em que a idealizao era a regra, tal obra careceria 
de um mnimo de credibilidade. No dia 15, os civis apareceram no fundo da cena, como atores coadjuvantes, figurantes, encarregados da pirotecnia. Seu momento de 
maior presena foi a breve e algo tumultuada cena na Cmara Municipal. Mas, alm de a cerimnia no ter sido decisiva para o desfecho da situao, seu heri no 
era convincente. Patrocnio, o vereador que promoveu o ato, ainda havia pouco criticava violentamente os Repblicanos e era por eles odiado por suas ligaes com 
a Guarda Negra. Alm de exibir um heri errado, a cerimnia ostentava tambm um smbolo errado. A bandeira que Patrocnio hasteou no prdio da Cmara era a do Clube 
Repblicano Lopes Trovo, imitao da bandeira americana, que quatro dias depois seria substituda pela verso positivista tornada oficial.
Se nenhum lder Repblicano civil teve qualquer gesto que pudesse ser imortalizado pela arte, o povo tambm esteve longe de representar um papel semelhante ao que 
lhe coube na Revoluo Francesa de que tanto falavam os Repblicanos. Apesar dos esforos de Silva Jardim, nem ele prprio foi admitido ao palco no dia 15. O povo 
seguiu curioso os acontecimentos, perguntou-se sobre o que se passava, respondeu aos vivas e seguiu a parada
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militar pelas ruas. No houve tomadas de bastilhas, marchas sobre Versalhes nem aes hericas. O povo estava fora do roteiro da proclamao, fosse este militar 
ou civil, fosse de Deodoro, Benjamin ou Quintino Bocaiva. O nico exemplo de iniciativa popular ocorreu no final da parada militar, quando as tropas do Exrcito 
deixavam o Arsenal da Marinha para regressar aos quartis. Os populares que acompanhavam a parada pediram a Lopes Trovo que lhes pagasse um trago. A conta de quarenta 
mil-ris acabou caindo nas costas do taverneiro, pois Lopes Trovo s tinha onze mil-ris no bolso. O annimo comerciante tornou-se, sem querer, o melhor smbolo 
do papel do povo no novo regime: aquele que paga a conta.28
As tentativas de construir o mito original da Repblica revelam as contradies que marcaram o incio do regime, mesmo entre os que o promoveram. Contradies que 
no desapareceram com o correr do tempo. A diviso entre as correntes militares teve longa vida. No seria despropositado, por exemplo, ver no movimento dos tenentes, 
iniciado em 1922, assim como nas agitaes nacionalistas lideradas pelo Clube Militar na dcada de 1950, ressonncia explicita da vertente positivista. Em 1930, 
falava-se abertamente na implantao de uma ditadura Repblicana. Na dcada de 1950, eram freqentes as referncias a Benjamin Constant e ao intenso envolvimento 
poltico dos militares que caracterizou o final do Imprio e o incio da Repblica. Havia at mesmo, nos anos 50, militares remanescentes do positivismo ortodoxo, 
como os generais Horta Barbosa e Rondon.
No entanto, houve entre os militares um grande esforo para eliminar a diviso. O deodorismo viu-se reforado pelas tentativas profissionalizantes levadas a cabo 
pelos oficiais treinados na Alemanha e pela Misso Francesa. Na dcada de 30, essa corrente colocou o profissionalismo a servio da interveno poltica, mediante 
a ao de Ges Monteiro.  conhecida a critica de Ges  influncia positivista no Exrcito. Ele a considerava fator de corroso do espirito e da capacitao profissionais. 
O Estado Novo levou a batalha pela unio ao campo simblico. A esttua de Benjamin Constant foi deslocada de sua posio central na praa da Repblica, em frente 
ao Quartel-General, e ficou quase escondida em meio s rvores da praa. Mas, como sinal dos tempos, nem Deodoro nem Floriano ocuparam o lugar de Benjamin. Para 
o novo projeto militar, era necessria uma figura que no dividisse, que fosse o prprio smbolo no s da unio militar mas da unio da prpria nao. O candidato 
teve de ser buscado no Imprio: Caxias. O duque passou a representar a cara nacional conservadora da Repblica.29
Se os militares conseguiram, afinal, eliminar boa parte de suas divergncias, permaneceram as divises entre os civis, e entre estes e os militares. Uma das razes 
do fracasso das comemoraes do centenrio da Repblica pode estar exatamente no embarao que elas causavam aps vinte anos de governo militar. Para os civis, sados 
de longa luta pela desmilitarizao da Repblica, era difcil voltar a falar nos generais que a implantaram
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e que a consideravam sua propriedade. Para os militares como instituio, tambm no interessava retomar as divergncias que marcaram os momentos iniciais do regime, 
que incluam no apenas conflitos dentro do Exrcito, mas tambm entre o Exrcito e a Armada.30
        O mito da origem ficou inconcluso, como inconclusa ficara a Repblica.
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3
TIRADENTES: UM HERI PARA A REPBLICA*
A luta em torno do mito de origem da Repblica mostrou a dificuldade de construir um heri para o novo regime. Heris so smbolos poderosos, encarnaes de idias 
e aspiraes, pontos de referncia, fulcros de identificao coletiva. So, por isso, instrumentos eficazes para atingir a cabea e o corao dos cidados a servio 
da legitimao de regimes polticos. No h regime que no promova o culto de seus heris e no possua seu panteo cvico. Em alguns, os heris surgiram quase espontaneamente 
das lutas que precederam a nova ordem das coisas. Em outros, de menor profundidade popular, foi necessrio maior esforo na escolha e na promoo da figura do heri. 
 exatamente nesses ltimos casos que o heri  mais importante. A falta de envolvimento real do povo na implantao do regime leva  tentativa de compensao, por 
meio da mobilizao simblica. Mas, como a criao de smbolos no  arbitrria, no se faz no vazio social,  a tambm que se colocam as maiores dificuldades na 
construo do panteo cvico. Heri que se preze tem de ter, de algum modo, a cara da nao. Tem de responder a alguma necessidade ou aspirao coletiva, refletir 
algum tipo de personalidade ou de comportamento que corresponda a um modelo coletivamente valorizado. Na ausncia de tal sintonia, o esforo 
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de mitificao de figuras polticas resultar vo. Os pretendidos heris sero, na melhor das hipteses, ignorados pela maioria e, na pior, ridicularizados.
No caso brasileiro, foi grande o esforo de transformao dos principais participantes do 15 de novembro em heris do novo regime. As virtudes de cada um foram cantadas 
em prosa e verso, em livros e jornais, em manifestaes cvicas, em monumentos, em quadros, em leis da Repblica. Seus nomes foram dados a instituies, a ruas e 
praas de cidades, a navios de guerra. Quadros como o de Henrique Bernardelli, exaltando Deodoro, foram expostos  admirao pblica.
(*) Verso resumida deste captulo foi publicada no Jornal do Brasil, 2/12/1989.
Deodoro era o candidato mais bvio ao papel de heri Repblicano. No apenas pela indisputada chefia do movimento militar que derrubou a Monarquia, mas tambm por 
certos aspectos de sua atuao na jornada de 15 de novembro. O velho militar, moribundo na vspera, mal se mantendo na sela, pondo-se  frente da tropa, entrando 
desassombradamente no Quartel-General: sem dvida, havia a ingredientes de heroicidade. Mas contra ele militavam fatores poderosos. A comear por seu incerto Repblicanismo, 
manifesto no prprio dia 15, seu jeito de general da Monarquia, sua figura fsica, que lembrava a do outro ilustre velho, o imperador. Era ainda militar demais para 
que pudesse ter penetrao mais ampla. Nas lutas que envolveram o incio da Repblica, uma figura to identificada com o Exrcito dividia tanto quanto unia.
Outro candidato era Benjamin Constant. Seu Repblicanismo era inatacvel. Mas o problema com ele  que no tinha figura de heri. No era lder militar nem lder 
popular. Na maldosa caracterizao de Eduardo Prado, era um general incruento e um sbio indito, exibindo sob a espada virgem um livro em branco".1 Por mais que 
os positivistas, hbeis fabricadores de smbolos, tentassem promov-lo a um dos componentes da trindade cvica nacional, ao lado de Tiradentes e Jos Bonifcio, 
seu apelo era ainda mais limitado que o de Deodoro. No Exrcito, atingia apenas a juventude militar, alunos das escolas e jovens oficiais; no meio civil, contava 
quase s com os positivistas.
Candidato mais srio que Benjamin era Floriano Peixoto. Apagado no incio, suspeito a monarquistas e Repblicanos, adquiriu dimenso maior a partir da Revolta da 
Armada no Rio de Janeiro e da Revolta Federalista no sul do pas. Sua resistncia s revoltas inspirou o jacobinismo Repblicano do Rio de Janeiro, movimento que 
pela primeira vez deu  Repblica tintas populares. Para os jacobinos, civis e militares, era ele sem dvida o heri Repblicano por excelncia. A fora de seu apelo, 
pelo menos no Rio de Janeiro, ainda pode ser detectada na memria popular.2 Mas, se no dividia civis e militares, dividia os militares (Exrcito contra Marinha) 
e os civis (jacobinos contra liberais). As mesmas atitudes exaltadas pelos jacobinos como reveladoras de pureza e bravura Repblicanas eram tachadas de sanguinrias
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e despticas pelos Repblicanos liberais. Floriano poderia ser o heri de um tipo de repblica, a jacobina, mas no da Repblica que aos poucos se foi construindo.
Assim, o esforo de promoo dessescandidatos a heris resultou em muito pouco. A pequena densidade histrica do 15 de novembro (uma passeata militar) no fornecia 
terreno adequado para a germinao de mitos. Era pequeno o nmero de Repblicanos convictos, foi quase nula a participao popular, e os eventos se deram na escorregadia 
fronteira entre o herico e o cmico.3 Os candidatos a heri no tinham, eles tambm, profundidade histrica, no tinham a estatura exigida para o papel. No pertenciam 
ao movimento da propaganda Repblicana, ativa desde 1870. Nem mesmo eram reconhecidos como heris militares. Sua participao na guerra contra o Paraguai era pouco 
conhecida antes da Repblica. Heris da guerra eram Caxias, Osrio, Tamandar. A promoo de Deodoro e Floriano a heris de guerra foi posterior a sua participao 
na proclamao da Repblica, j era parte do processo de mitificao das duas figuras.
A busca de um heri para a Repblica acabou tendo xito onde no o imaginavam muitos dos participantes da proclamao. Diante das dificuldades em promover os protagonistas 
do dia 15, quem aos poucos se revelou capaz de atender s exigncias da mitificao foi Tiradentes.4 No que Tiradentes fosse desconhecido dos Repblicanos. Campos 
Sales tinha um retrato do inconfidente em seu escritrio. Os clubes Repblicanos do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e, em menor escala, de outras provncias vinham 
tentando, desde a dcada de 1870, resgatar sua memria. J em 1866, quando presidente da provncia de Minas Gerais, Saldanha Marinho, futuro chefe do Partido Repblicano 
no Rio, mandou erguer-lhe um monumento em Ouro Preto. Em 1881, houve no Rio de Janeiro a primeira celebrao do 21 de abril. At mesmo em provncia distante como 
o Rio Grande do Sul, com tantos candidatos prprios a heris Repblicanos, foi apresentada em 1881 proposta de monumento, feita por jornal de Pelotas.5 Mas os lideres 
desses clubes no ocupariam o primeiro plano no dia 15 de novembro. O presidente do Clube Tiradentes do Rio de Janeiro, Sampaio Ferraz, foi posto a par dos planos 
da revolta, mas teve papel secundrio. Como veremos, ele encontraria problemas na promoo do culto a Tiradentes mesmo durante o perodo florianista. Quais foram, 
ento, as razes da adoo de Tiradentes e que contedo teria sua figura de heri?
Em torno da personagem histrica de Tiradentes houve e continua a haver intensa batalha historiogrfica. At hoje se disputa sobre seu verdadeiro papel na Inconfidncia, 
sobre sua personalidade, sobre suas convices, sobre sua aparncia fsica. No me interessa aqui tal discusso. No pretendo entrar no debate se Tiradentes era 
lder ou mero seguidor, se era um revolucionrio ou simples falastro, se era pobre ou rico, branco ou mulato, simptico ou mal-encarado. Ou melhor, essa discusso 
s me interessa
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enquanto relevante para a construo da mitologia.  certo que a preocupao com a construo do mito afeta e condiciona o debate historiogrfico. Mas ela transcende 
tal debate, desenvolve-se dentro de um campo de raciocnio que extravasa os limites e os cnones da historiografia, pelo menos da historiografia praticada neste 
caso. O domnio do mito  o imaginrio que se manifesta na tradio escrita e oral, na produo artstica, nos rituais. A formao do mito pode dar-se contra a evidncia 
documental; o imaginrio pode interpretar evidncias segundo mecanismos simblicos que lhe so prprios e que no se enquadram necessariamente na retrica da narrativa 
histrica.
Pouco se sabe sobre a memria de Tiradentes entre o povo de Minas Gerais e da cidade do Rio de Janeiro. Que devia existir tal memria  difcil negar. H documentos 
da poca que testemunham o grande abalo causado entre a populao da capitania e da cidade do Rio pelo processo dos rus e, particularmente, pela execuo de Tiradentes. 
O autor annimo da Memria do xito que teve a conjurao de Minas, por exemplo, testemunha ocular dos acontecimentos no Rio de Janeiro, refere-se constantemente 
 grande consternao dos habitantes da cidade. Obrigado a elogiar a rainha e sua justia, o autor usa o artificio de personificar a cidade para exprimir seus sentimentos 
pessoais. A "cidade", diz ele, nunca vira execuo mais medonha e de mais feia ostentao. A notcia da condenao  morte de onze rus, dada no dia 19 de abril 
de 1792, abalou "a cidade", que, "sem discrepar de seus deveres polticos (leia-se: de prestar lealdade  rainha), no pde esconder de todo a opresso que sentia". 
Muitas famlias retiraram-se para o campo, as ruas ficaram desertas, e "a consternao parece que se pintava em todos os objetos". O anncio do perdo de todos os 
rus, exceto Tiradentes, teve efeito oposto, mas no menos forte: "a cidade sentiu-se em um instante aliviada do desusado peso que a oprimia". Encheram-se as ruas, 
povoaram-se as janelas, "muitos e muitos no sustinham as lgrimas".6
Frei Raimundo de Penaforte, o confessor dos inconfidentes, fala no indizvel concurso do povo ao ato da execuo. O povo foi inmero", insiste; se no fossem 
as patrulhas militares, seria ele prprio esmagado debaixo do peso de sua imensa massa. Tal concurso poderia ter sido motivado pela curiosidade em relao ao espetculo 
do enforcamento. Mas Penaforte, testemunha insuspeita, pois era dcil instrumento da justia rgia, no deixa dvidas sobre a motivao da multido: "foi tal a compaixo 
do povo da infelicidade temporal do ru, que para lhe apressarem a eterna ofereceram voluntariamente esmolas para dizerem missas por sua alma".7
H tambm o registro de que Joaquim Silvrio dos Reis, o traidor dos inconfidentes, no pde viver em paz no Rio de Janeiro, para onde se mudara devido  rejeio 
dos mineiros. A animosidade da populao era to grande que ele alterou o nome, acrescentando-lhe Montenegro, e foi morar
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no Maranho. As pessoas no lhe falavam; quando o faziam, era para o insultar. A se acreditar nele, houve at mesmo um atentado a tiros contra sua vida e um incndio 
em sua casa.8
Quanto a Minas Gerais, no  razovel supor que a priso de tantas pessoas importantes, a devassa, a exibio da cabea de Tiradentes na praa principal de Vila 
Rica no tivessem causado profunda e duradoura impresso nas pessoas. No se tratava apenas de Vila Rica. A conjurao envolveu pessoas importantes de So Joo del 
Rei (escolhida para capital da Repblica), de Mariana, do Tejuco, da Borda do Campo. Documentos da poca afirmam que "a desolao se espalhou pela capitania", aps 
a priso dos conjurados.9 Ao visitar a provncia na metade do sculo XIX, Richard Burton anotou que se mantinha viva a memria dos acontecimentos e era corrente 
entre a populao a opinio de que a pena imposta aos inconfidentes fora excessiva e injusta.10
Tenha-se tambm em conta que vrios inconfidentes regressaram do exlio. Dois deles participaram da Assemblia Constituinte de 1823: Jos de Resende Costa, filho, 
e o padre Manuel Rodrigues da Costa. Resende Costa morreu em 1841, j no Segundo Reinado, no sem antes traduzir e anotar, a pedido do Instituto Histrico e Geogrfico, 
o captulo da Histria do Brasil de Robert Southey sobre a Inconfidncia. O padre Manuel Rodrigues fez um apelo ao governo central em favor dos revoltosos mineiros 
de 1842. O participante e historiador desse movimento, padre Jos Antnio Marinho, ao escrever que "a provncia de Minas tem a glria de haver dado os primeiros 
mrtires  independncia e liberdade do Brasil no sculo passado, certamente se referia  Inconfidncia.11 Anote-se ainda que Maria Dorotia Joaquina de Seixas, 
a musa de Gonzaga, morreu em Ouro Preto em 1853, quando j se publicavam as primeiras referncias  rebelio.
Embora fosse viva na memria popular, a Inconfidncia era tema delicado para a elite culta do Segundo Reinado. Afinal, o proclamador da independncia era neto de 
d. Maria I, contra quem se tinham rebelado os inconfidentes. O bisneto da rainha louca governava o pas. O Brasil era uma monarquia governada pela casa de Bragana, 
ao passo que os inconfidentes tinham pregado uma repblica americana. No era fcil exaltar os inconfidentes, e Tiradentes em particular, sem de alguma maneira condenar 
seus algozes e o sistema poltico vigente. No foi por acaso que as primeiras referncias  rebelio vieram de um historiador estrangeiro, Robert Southey. Sua Histria 
do Brasil foi publicada em 1810, e a traduo portuguesa saiu em 1862. Mas o captulo sobre a Inconfidncia, traduzido por Resende Costa, foi publicado na Revista 
do Instituto Histrico e Geogrfico em 1846. A fonte de que Southey dispunha era apenas a sentena da alada. Sua anlise  neutra, refere-se  Inconfidncia como 
a primeira manifestao de princpios e prticas revolucionrias no Brasil, critica a imperfeio do processo
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e a barbrie das leis da poca. Mas registra tambm ter o governo portugus merecido louvor por sua clemncia.12
No havia neutralidade alguma na segunda referncia aos inconfidentes, feita no livro de Charles Ribeyrolles, Brasil pitoresco, publicado no Brasil em 1859. Ribeyrolles 
 ao contrrio de Southey, amigo de Portugal  era um Repblicano radical das jornadas parisienses de 1848. Por sua atuao poltica, fora deportado em 1849. No 
Brasil, aonde chegara em 1858, ligara-se aos Repblicanos do Rio. Ao analisar a Inconfidncia, com base tambm apenas na sentena da alada, no esconde sua simpatia 
pelos rebeldes e as criticas ao governo portugus. Tiradentes j aparece em seu texto com as cores prprias de um heri cvico.  o mrtir que soube morrer sem trao 
de temor, pois "se sacrificava por uma idia", interpretao tpica de um revolucionrio francs. Embora elogie o clima de liberdade vigente no Imprio de d. Pedro 
II, que tornava possvel a publicao de seu livro, ele atribui tal clima ao sangue de Tiradentes, que, derramado, germinara. Sobre Tiradentes tem ainda uma frase 
que era um desafio aos Repblicanos brasileiros e uma provocao ao monarca: "Seria fraqueza no levantar esse cadver que Portugal arrastou pelas enxovias" .13
A literatura brasileira comeou a se ocupar do tema antes que a historiografia o fizesse. As Liras de Gonzaga foram publicadas ainda na dcada de 1840. Em 1848, 
apareceu o romance de Antnio Ferreira de Souza intitulado Gonzaga ou a conjurao de Tiradentes, Bernardo Guimares publicou em 1867 seu conto "A cabea de Tiradentes". 
Nesse mesmo ano. Castro Alves escreveu a pea Gonzaga ou a Revoluo de Minas, que foi representada em 1866, em So Paulo, Salvador e Rio de Janeiro. Nessa verso, 
o primeiro plano  atribudo a Gonzaga, opo que inaugura longa polmica sobre a liderana do movimento. Mas no poema que termina a pea, e que  declamado pela 
personagem Maria, Tiradentes j aparece na idealizao que aos poucos se imporia:

Ei-lo, o gigante da praa,
O Cristo da multido!
 Tiradentes quem passa...
Deixem passar o Tito.14

Ao que parece, o primeiro conflito poltico em torno da figura de Tiradentes ocorreu em 1862, por ocasio da inaugurao da esttua de d. Pedro I no ento largo 
do Rocio, ou praa da Constituio, hoje praa Tiradentes. A ocasio e o local eram a prpria materializao do conflito. No lugar onde fora enforcado Tiradentes, 
o governo erguia uma esttua ao neto da rainha que o condenara  morte infame. Tefilo Otoni, o liberal mineiro lder da revolta de 1842, chamou a esttua de mentira 
de bronze, e a expresso virou grito de guerra dos Repblicanos. Por inspirao de
Pg. 60
Otoni, o liberal fluminense Pedro Lus Pereira de Souza comps um poema a ser distribudo no dia da inaugurao da esttua. A policia apreendeu os  folhetos, mas 
o poema sobreviveu e foi Repblicado em Ouro Preto em 1888. O texto fala da expectativa popular em torno do monumento. Esperase que seja dedicado a Tiradentes, mas 
aparece a esttua de Pedro I:
Nos dias da cobardia
Festeja-se a tirania
Fazem-se esttuas aos reis.

Hoje o Brasil se ajoelha
E se ajoelha contrito
Ante a massa de granito
Do Primeiro Imperador!

Fala no bronze vil, lembrando a expresso de Otoni, e se refere a Tiradentes:

Foi ele o mrtir primeiro
Que pela ptria morreu.

Do sangue de Tiradentes
Brotou-nos a salvao.

E termina dizendo que Tiradentes no precisa de esttua, pois o vemos de p no pelourinho, cercado de uma aurola de liberdade e f.l
A luta entre a memria de Pedro I, promovida pelo governo, e a de Tiradentes, smbolo dos Repblicanos, tornou-se aos poucos emblemtica da batalha entre Monarquia 
e Repblica. O conflito continuou aps a proclamao, agora representando correntes Repblicanas distintas. Em 1893, o Clube Tiradentes tentou encobrir a esttua 
de Pedro I para as comemoraes do 21 de abril. Houve protestos, e as comemoraes acabaram sendo canceladas. Em 1902, pensou-se em erguer um monumento no local 
que se julgava ser o do enforcamento, mais ou menos onde existe hoje a Escola Tiradentes na avenida Visconde do Rio Branco. A Cmara Federal votara lei em 1892 mandando 
desapropriar o local. O monumento acabou sendo construdo em frente ao novo prdio da Cmara, inaugurado em 1926 com o nome de Palcio Tiradentes. Nesse local existira 
a Cadeia Velha, onde o inconfidente ouvira a sentena de morte e de onde partira para a execuo. D. Pedro I ficou onde estava, mas foi-lhe imposta a convivncia 
cvica com o rival: sua praa passou a chamar-se praa Tiradentes.16
Havia poderosa simbologia na luta entre Pedro I e Tiradentes. Sua expresso mais forte talvez esteja em artigo do abolicionista e Repblicano
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Lus Gama, publicado no primeiro nmero do jornal comemorativo do 21 de abril editado pelo Clube Tiradentes (1882). O ttulo do artigo, " forca o Cristo da multido", 
 uma referncia direta ao poema de Castro Alves. Lus Gama leva ainda mais longe o paralelo entre Tiradentes e Cristo. A forca  equiparada  cruz, o Rio de Janeiro 
a Jerusalm, o Calvrio ao Rocio.  transformao da forca em altar, acrescenta a transmutao do monumento a Pedro I em patbulo imperial. Em vez da forca, tornada 
altar da ptria, construram um monumento. Em vez da tragdia do martrio, exibiram a comdia da esttua. Tal como se v na ilustrao ao lado.
A luta pela construo do mito de Tiradentes teve um dos marcos mais importantes em 1873, com a publicao da obra de Joaquim Norberto de Souza Silva, Histria da 
Conjurao Mineira. Norberto, que era chefe de seo da Secretaria do Estado do Imprio, descobrira os Autos da Devassa nos arquivos da Secretaria. Chegaram-lhe 
tambm s mos a Memria de autor annimo e o depoimento de Penaforte. Era uma autntica revoluo no estudo da Inconfidncia. Norberto trabalhou treze anos nos 
documentos. Em 1860, comeou a ler partes do trabalho no Instituto Histrico, de que era scio. A publicao da obra foi apressada, segundo seu prprio testemunho, 
pelo surgimento do movimento Repblicano em 1870. Dois anos depois do Manifesto Repblicano, em 1872, foi proposta a construo de um monumento a Tiradentes no Rio 
de Janeiro. Norberto declarou-se contrrio  idia, por considerar Tiradentes figura secundria e discordar da representao do mrtir vestido de alva, barao ao 
pescoo, como se o governo colonial quisesse eternizar a sua lio de terror".17 Para justificar sua oposio, apressou a publicao do livro. 
Por revelar importantes documentos at ento desconhecidos, a obra de Norberto tornou-se ponto de referncia obrigatrio nos estudos da Inconfidncia que vieram 
posteriormente, seja para elogi-la, seja para critic-la.18 O debate sobre ela, embora disfarado de disputa Hstoriogrfica  com todos os autores pretendendo estar 
em busca da verdade histrica"  foi sempre marcado pela luta em torno do mito de Tiradentes.  esse lado da questo que me vai interessar aqui. Norberto foi logo 
acusado de estar a servio da Monarquia, de tentar amesquinhar a Inconfidncia, de denegrir a figura histrica de Tiradentes. Ele respondeu em 1881, pelas pginas 
da Revista do Instituto Histrico^ argumentando que se baseara exclusivamente nos documentos e que fizera obra de historiador e no de patriota, isto , de observador 
isento e no de partidrio apaixonado.19
Sua iseno era muito discutvel, pois era funcionrio pblico, monarquista convicto, amigo dos principais polticos do Imprio (o livro foi dedicado ao visconde 
de Bom Retiro) e vice-presidente do Instituto Histrico, instituio quase oficiosa, to estreita era sua ligao com o imperador. O prprio secretrio do Instituto, 
cnego Fernandes Pinheiro, escreveu que Norberto quis com o trabalho render sincera homenagem ao excelso prncipe
pg.62 
em cujo reinado pode fulgir a verdade em todo o seu esplendor.20 Mas, curiosamente, as revelaes de Norberto que despertaram maior irritao eram provavelmente 
verdadeiras do ponto de vista histrico. Tratava-se, principalmente, das transformaes que, segundo ele, se tinham operado na personalidade e no comportamento de 
Tiradentes por fora do prolongado perodo de recluso, dos repetidos interrogatrios e da ao dos frades franciscanos. Seu ardor patritico teria sido substitudo 
pelo fervor religioso, o patbulo de glria se teria transformado em ara de sacrifcio. Tiradentes, segundo Norberto, tinha escolhido morrer com o credo nos lbios 
em vez de o fazer com o brado de revolta  viva a liberdade!  que explodira do peito dos mrtires pernambucanos de 1817 e 1824. Norberto resumiu assim as razes 
de seu desapontamento: Prenderam um patriota; executaram um frade.21
Os Repblicanos protestaram. Negavam ter Tiradentes beijado as mos e os ps do carrasco; no aceitavam a verso de que teria caminhado para a forca em solilquios 
com o crucifixo; no acreditavam que o condenado, ao recusar-se a vestir roupa por baixo da alva, tivesse dito que Nosso Senhor tambm morrera nu por seus pecados.22 
Reagia-se, em suma,  idia de que Tiradentes, durante o perodo de priso, se tivesse transformado em um mstico, tivesse perdido o impulso de rebeldia patritica 
que fizera dele
pg.63
a principal figura da conjurao. Ao desqualificar Tiradentes como rebelde, Norberto tambm deslocava a liderana da Inconfidncia para o ouvidor e poeta Toms Antnio 
Gonzaga. Assim fazendo, o heri deixava de ser uma pessoa do povo para se encarnar num representante da elite, deixava de ser um enforcado para se tornar um simples 
exilado. Um monumento a Gonzaga no teria a conotao (que tanto chocou Norberto) de glorificar um enforcado, um decapitado, um esquartejado. E seria muito mais 
palatvel para a dinastia reinante.
A posio de Norberto estava bem alicerada nos depoimentos de Penaforte e do autor da Memria. Segundo sua denncia, teria havido mesmo tentativa de adulterar o 
texto da Memria, depositado no Instituto Histrico. Algum teria coberto com tinta a expresso  "lhe beijou os ps" relativa  reao de Tiradentes diante do carrasco 
Capitania.  perfeitamente possvel que o inconfidente tivesse sido realmente transformado em um mstico por fora da experincia traumtica da priso e da verdadeira 
lavagem cerebral que lhe aplicaram os frades franciscanos. Nesse caso, no seriam de surpreender a meno  morte de Cristo, a quem queria imitar, o beijo nos ps 
do carrasco, tambm referncia clara ao perdo de Cristo a seus algozes, e a marcha para a forca em solilquios com o crucifixo que os frades lhe tinham colocado 
entre as mos atadas.
Mas tanto estava Norberto equivocado como o estavam seus crticos ao acharem que o misticismo final de Tiradentes destrua seu apelo patritico, tirava sua credencial 
de heri cvico. A partir das revelaes de Norberto e, quem sabe, da prpria tradio oral, as representaes plsticas e literrias de Tiradentes, e mesmo as exaltaes 
polticas, passaram a utilizar cada vez mais a simbologia religiosa e a aproxim-lo da figura de Cristo. Se Ribeyrolles s via o patriota, o soldado, o heri cvico 
que se sacrificara por amor a uma idia, Castro Alves j falava no Cristo da multido. No farto material constante das coletneas que todos os anos, a partir de 
1882, o Clube Tiradentes do Rio de Janeiro fazia publicar por ocasio do 21 de abril, as referncias religiosas so freqentes. J foi mencionado o artigo de Lus 
Gama, publicado em 1882, sob o ttulo "A forca o Cristo da multido". Artigo de 1888, escrito por Repblicanos mineiros, chegava a atribuir a Tiradentes maior fortaleza 
moral do que a de Cristo. Ele teria recebido com maior serenidade a sentena: Cristo suara sangue.23
Aps a proclamao da Repblica, intensificou-se o culto cvico a Tiradentes. O 21 de abril foi declarado feriado nacional j em 1890, juntamente com o 15 de novembro. 
As aluses a Cristo tambm continuaram. Artigo de O Paiz de 21 de abril de 1891 fala na "vaporosa e difana figura do mrtir da Inconfidncia, plida e aureolada, 
serena e doce como a de Jesus Nazareno". O desfile que passou a fazer parte das comemoraes do 21 de abril lembrava a procisso do enterro de sexta-feira santa. 
As analogias apareceram j no primeiro desfile realizado em 1890. O prstito saiu
pg.64
dos arredores da Cadeia Velha, em que Tiradentes estivera preso, prosseguiu at a praa Tiradentes e dai at o Itamaraty, onde Deodoro saudou os manifestantes. Acompanharam 
o desfile representantes dos clubes abolicionistas e Repblicanos, estudantes, militares, o Centro do Partido Operrio  e, em destaque, os positivistas, levando 
em andor um busto do mrtir esculpido por Almeida Reis. Presente tambm estava um misterioso Clube dos Filhos de Thalma. Era a celebrao da paixo (Cadeia Velha), 
morte (praa Tiradentes) e ressurreio (Itamaraty) do novo Cristo. Em celebraes posteriores, acrescentou-se ao final do desfile uma carreta para lembrar a que, 
em 1792, servira para transportar o corpo da "santa vitima" aps o enforcamento. Era o enterro da nova via-sacra.
Durante o desfile de 1890, Dcio Villares, pintor positivista, distribuiu uma litogravura em que aparecia o busto de Tiradentes, corda ao pescoo, ornado com a palma 
do martrio e os louros da vitria. Barba e cabelos longos, ar sereno, olhar no infinito, era a prpria imagem de Cristo. O Paiz, referindo-se  obra, disse representar 
o grande mrtir "tal como o desenhou a sua [de Villares] fantasia de poeta e a sua alma de patriota.24 Tratava-se sem dvida de uma idealizao, e isso no apenas 
por fazer parte da esttica positivista idealizar as figuras representadas. 
No existia nenhum retraio de Tiradentes feito por quem o tivesse conhecido pessoalmente. O que predominava quando Dcio Villares fez sua litogravura era a descrio 
tendenciosa retirada do livro de Joaquim Norberto. Baseando-se em declarao de Alvarenga Peixoto, tirada dos Autos, Norberto descrevera Tiradentes como "feio e 
espantado acrescentando por conta prpria que nada tinha de simptico, que era repelente. Os desmentidos dessa descrio s vieram mais tarde. Da adquirir maior 
importncia a interpretao de Villares, que contestava abertamente a verso tida como verdadeira. Mais tarde, em 1928, Villares voltou a retratar o inconfidente, 
dessa vez em um leo. Na nova obra, claramente um desenvolvimento da  primeira, a fora das cores e a maior estilizao da figura  cabelos e barba menos revoltos 
 acentuavam ainda mais a semelhana com Cristo, pelo menos com o Cristo adocicado da maioria das representaes.25
A simbologia crist apareceu em vrias outras obras de arte da poca. No quadro Martrio de Tiradentes, de Aurlio de Figueiredo, o mrtir  visto de baixo para 
cima, como um crucificado, tendo aos ps um frade, que lhe apresenta o crucifixo, e o carrasco Capitania, joelho dobrado, cobrindo o rosto com a mo.  uma cena 
de p-da-cruz. Mesmo na representao quase chocante de Pedro Amrico, a aluso a Cristo  inescapvel. Seu Tiradentes  esquartejado, de 1893, mostra os pedaos 
do corpo sobre o cadafalso, como sobre um altar. A cabea, com longas barbas ruivas, est colocada em posio mais alta, tendo ao lado o crucifixo, numa clara sugesto 
da semelhana entre os dois dramas. Um dos braos pende para fora do cadafalso, citao explicita da Piet de Michelangelo.
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        Alm do bvio apelo  tradio crist do povo, que facilitava a transmisso da imagem de um Cristo cvico, poder-se-ia perguntar por outras razes do xito 
de Tiradentes como heri Repblicano. Pois no foi sem resistncia que ele atingiu tal posio. Tiradentes tinha competidores histricos ao titulo de heri do novo 
regime, alm dos rivais do dia 15 de novembro. Para mencionar os mais bvios, havia no sul os lderes da repblica farroupilha. No norte, a figura respeitvel de 
frei Caneca. No consta que se tenha tentado transformar Bento Gonalves, presidente da repblica sul-rio-grandense, em heri Repblicano nacional. O fato talvez 
se deva  posio peculiar do Rio Grande do Sul no cenrio brasileiro e  suspeita de separatismo dirigida  revolta farroupilha. Faltava aos heris gachos a caracterstica 
nacional, indispensvel  imagem de um heri Repblicano.
Frei Caneca era um competidor mais srio. Heri de duas revoltas, uma pela independncia, a outra contra o absolutismo do primeiro imperador, morrera tambm como 
mrtir, fuzilado, pois nenhum carrasco se dispusera a enforc-lo. Joaquim Norberto censurava a Tiradentes exatamente o no ter morrido como os mrtires de 1817 e 
1824, desafiadores, o grito de liberdade na garganta, autnticos heris cvicos. Em vrios discursos no Clube Tiradentes, mencionava-se o fato de no ter sido o 
heri mineiro o nico mrtir Repblicano, nem o primeiro. Frei Caneca era s vezes mencionado como merecedor de respeito.
Um dos fatores que podem ter levado  vitria de Tiradentes , sem dvida, o geogrfico. Tiradentes era o heri de uma rea que, a partir da metade do sculo XIX, 
j podia ser considerada o centro poltico do pas  Minas Gerais, Rio de Janeiro e So Paulo, as trs capitanias que ele buscou, num primeiro momento, tornar independentes. 
A foi tambm mais forte o Repblicanismo e mais difundidos os clubes Tiradentes. O Nordeste, ao final do sculo XIX, era uma regio em decadncia econmica e poltica 
e no se distinguia pela pujana do movimento Repblicano. Alm do mais, a Confederao do Equador tambm apresentara tintas separatistas que a maculavam como movimento 
nacional. Se  verdade que a Inconfidncia tinha em vista a libertao de apenas trs capitanias, isso no se devia a qualquer idia separatista, mas a um clculo 
ttico. Libertadas as trs, as outras seguiriam com maior facilidade.
Parece-me, no entanto, que h ainda outro elemento importante na preferncia por Tiradentes.  possvel que sua vantagem estivesse exatamente no ponto que Joaquim 
Norberto lhe criticava. Frei Caneca e seus companheiros tinham-se envolvido em duas lutas reais, em que houvera sangue e morte. Morreu como heri desafiador, quase 
arrogante, num ritual seco de fuzilamento. Foi um mrtir rebelde, acusador, agressivo. No morreu como vitima, como portador das dores de um povo. Morreu como lder 
cvico e no como mrtir religioso, embora, ironicamente, se tratasse de um frade.
Pg. 67
Tiradentes foi exatamente o contrrio. O patriota virou mstico. A coragem que demonstrou  era coraudo, como dele disse o frade Penaforte  vinha, ao final, do 
fervor religioso e no do fervor cvico. Assumiu explicitamente a postura de mrtir, identificou-se abertamente com Cristo. O cerimonial do enforcamento, o cadafalso, 
a forca erguida a altura incomum, os soldados em volta, a multido expectante  tudo contribua para aproximar os dois eventos e as duas figuras, a crucificao 
e o enforcamento, Cristo e Tiradentes. O esquartejamento posterior, o sangue derramado, a distribuio das partes pelos caminhos que antes percorrera tambm serviram 
ao simbolismo da semeadura do sangue do mrtir, que, como dissera Tertuliano, era semente de cristos.
Talvez esteja a um dos principais segredos do xito de Tiradentes. O fato de no ter a conjurao passado  ao concreta poupou-lhe ter derramado sangue, ter exercido 
violncia contra outras pessoas, ter criado inimigos. A violncia revolucionria permaneceu potencial. Tiradentes era "o mrtir ideal e imaculado na brancura de 
sua tnica de condenado".26 A violncia real pertenceu aos carrascos. Ele foi a vtima de um sonho, de um ideal, dos "loucos desejos de uma sonhada liberdade", na 
expresso do autor da Memria. Foi vtima no s do governo portugus e de seus representantes, mas at mesmo de seus amigos. Vtima da traio de Joaquim Silvrio, 
amigo pessoal, o novo Judas. E vtima tambm dos outros companheiros da conspirao, que, como novos Pedros, se acovardaram, procuraram lanar sobre ele toda a culpa. 
Culpa que ele assumiu de boa vontade. Congratulou-se com os companheiros quando foi comunicada a
suspenso da sentena de morte, satisfeito por ir sozinho ao cadafalso. Explicitamente, como Cristo, a quem quis imitar na nudez e no perdo ao carrasco, incorporou 
as culpas, as dores e os sonhos dos companheiros e dos compatriotas. Operava pelo sacrifcio, no domnio mstico, a salvao que no pudera operar no domnio cvico.
Tudo isso calava profundamente no sentimento popular, marcado pela religiosidade crist. Na figura de Tiradentes todos podiam identificar-se, ele operava a unidade 
mstica dos cidados, o sentimento de participao, de unio em torno de um ideal, fosse ele a liberdade, a independncia ou a repblica. Era o totem cvico. No 
antagonizava ningum, no dividia as pessoas e as classes sociais, no dividia o pas, no separava o presente do passado nem do futuro. Pelo contrrio, ligava a 
repblica  independncia e a projetava para o ideal de crescente liberdade futura. A liberdade ainda que tardia.
O mais forte antagonismo despertado pela mitificao de Tiradentes, como vimos, veio dos monarquistas defensores de Pedro I. O ponto merece ateno adicional, pois 
indica certas nuanas at agora no apontadas na anlise. Ou, antes, indica as fases por que passou a construo do mito, e a
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manuteno de certa ambiguidade em seu contedo. De incio, Tiradentes era apresentado como o heri Repblicano, o que certamente antagonizava os monarquistas, dividia 
os cidados. Mais ainda, era o heri dos propagandistas da repblica, dos clubes Repblicanos, de natureza popular. No era apenas um heri Repblicano, era um heri 
do jacobinismo, dos setores mais radicais do partido.  poca da proclamao da Repblica, o Clube Tiradentes do Rio de Janeiro, organizador principal de seu culto, 
era dirigido por Sampaio Ferraz, ligado aos radicais da propaganda. Apontava-se em Tiradentes o Repblicanismo, mas tambm seu carter plebeu, humilde, popular, 
em contraste com os companheiros que faziam parte da elite econmica e cultural de Minas Gerais. Tiradentes era sinnimo de radicalismo Repblicano. Como tal, sua 
figura opunha-se com fora ao smbolo monrquico representado na esttua de Pedro I e se aproximava do florianismo.
O conflito de 1893 foi o divisor de guas. Significou ao mesmo tempo uma guinada na Repblica e uma mudana na imagem do heri. Foi tanto mais significativo pelo 
fato de se ter dado durante o perodo florianista, quando ocupava a prefeitura da capital um outro jacobino, o mdico Barata Ribeiro. O incidente ops dois jacobinos, 
antes aliados: Sampaio Ferraz no Clube Tiradentes, e Barata Ribeiro na prefeitura. O prefeito havia autorizado os planos do Clube de cobrir a esttua de Pedro I, 
mas voltou atrs diante da forte resistncia provocada pela idia. A reao veio no s do que poderia ser chamado grande imprensa conservadora da poca, o Jornal 
do Commrcio, mas at mesmo do rgo oficioso dos Repblicanos, O Paiz de Quintino Bocaiva. O redator de O Paiz atribua a idia do Clube ao esprito demaggico, 
 intolerncia,  exaltao. Os melhores Repblicanos, dizia, eram no momento os que contribuam para o congraamento dos espritos e no para a diviso. Barata 
Ribeiro acabou por aceitar as ponderaes e mandou demolir o coreto que cobria a esttua. O Clube, em protesto, cancelou as comemoraes, e Sampaio Ferraz deixou 
a direo.
Durante a Revolta da Armada, ao final de 1893, formou-se o Batalho Tiradentes, de carter florianista e jacobino. O Batalho foi dissolvido em 1897, em meio  reao 
governamental contra as agitaes jacobinas que tinham culminado na tentativa de assassinato do presidente da Repblica. Sua reorganizao s foi permitida em 1902, 
no governo Campos Sales, quando j se tinham acalmado os nimos. Nesse ano, comearam tambm oficialmente os planos para a construo do monumento a Tiradentes, 
que, como vimos, acabaria sendo erigido em outro local para evitar o confronto com Pedro I.27
O episdio de 1893 de algum modo indicava as condies de aceitao do heri Repblicano como heri nacional: a eliminao da imagem jacobina, radical. A eliminao 
da verso frei Caneca, ou mesmo da verso florianista. Para consolidar-se como governo, a Repblica precisava eliminar
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as arestas, conciliar-se com o passado monarquista, incorporar distintas vertentes do Repblicanismo. Tiradentes no deveria ser visto como heri Repblicano radical, 
mas sim como heri cvico-religioso, como mrtir, integrador, portador da imagem do povo inteiro.
Esta j era a intuio dos artistas que o tinham representado como Cristo. O ideal de representao universal da nao j vinha antes da Repblica. Em um poema escrito 
por um operrio em 1884, j se dizia:

Que o dever dos brasileiros,
Sem de opinio saber,
 neste dia se unirem
Para preito te render.
Portanto, vs monarquistas,
E vs outros anarquistas,
Juntai aos positivistas
Os coraes a bater.28

O mesmo poema  escrito, lembre-se, antes da Abolio  termina vinculando Tiradentes  luta contra a escravido: "Dos escravos as algemas/ quebradas, sero poemas/ 
a esse gnio imortal". A interpretao da Inconfidncia como movimento abolicionista, alm de libertador e Repblicano, ligava Tiradentes s trs principais transformaes 
por que passara o pais: Independncia, Abolio, Repblica. Da trindade cvica dos positivistas, Tiradentes era- o nico a poder resumir e representar os trs momentos. 
Podia ser aceito pelos monarquistas, desde que no se exclusse Pedro I; pelos abolicionistas (Repblicanos ou monarquistas); e pelos Repblicanos.
O operrio do poema sugeria ainda a aceitao de Tiradentes pelos anarquistas, tese que o movimento anarquista do incio do sculo talvez no endossasse. Mas o movimento 
operrio organizado no-anarquista, mesmo o socialista, poderia facilmente aceitar o culto a Tiradentes. Lembre-se que, na primeira celebrao pblica do 21 de abril 
aps a proclamao da Repblica, entre os componentes do prstito estavam os representantes do Centro do Partido Operrio. Vicente de Souza, o socialista com tintas 
positivistas, ativo na organizao de partidos operrios e na redao de jornais operrios como o Echo Popular, mais tarde um dos principais batalhadores da revolta 
contra a vacinao obrigatria quando dirigia o Centro das Classes Operrias, aparece entre os oradores das celebraes promovidas pelo Clube Tiradentes.
Ao final do Imprio, incio da Repblica, at mesmo os monarquistas comearam a reivindicar para si a herana de Tiradentes. Escrevendo aps a proclamao, o visconde 
de Taunay reclamava contra o monoplio que os
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Repblicanos, especialmente os jacobinos, queriam manter sobre a memria do heri. Ao libertar o pais, o Imprio, alegava, realizou o sonho de Tiradentes. Por essa 
razo, "tambm ele nos pertence''.29
A aceitao de Tiradentes veio, assim, acompanhada de sua transformao em heri nacional, mais do que em heri Repblicano. Unia o pas atravs do espao, do tempo, 
das classes. Para isso, sua imagem precisava ser idealizada, como de fato o foi. O processo foi facilitado por no ter a histria registrado nenhum retraio, nenhuma 
descrio sua. Restaram apenas algumas indicaes nos autos. A idealizao de seu rosto passou a ser feita no s pelos artistas positivistas, como Villares e Eduardo 
de S, mas tambm pelos caricaturistas das revistas ilustradas da poca. Para os positivistas, a idealizao dos heris era regra da esttica comtiana; para os outros, 
era apenas parte da tentativa geral de criar o mito e o culto do heri.
Esse esforo foi agudamente percebido por Ubaldino do Amaral Fontoura, orador oficial das celebraes do Clube Tiradentes em 1894. Ubaldino admite a existncia de 
competidores ao posto de precursor da nacionalidade e da Repblica. Mas a Repblica, diz ele, desafia quem pretenda derrocar a lenda que o trabalho de um sculo 
vem construindo. No se preocupa tambm com os traos fisionmicos de Tiradentes. "Foi talvez uma felicidade que esse Cristo no deixasse na terra um sudrio. Cada 
artista lhe tem dado diferente feio." J foi representado, acrescenta, com a doura de Jesus, com os traos dos heris antigos, e at mesmo como caboclo. Na esttua 
que o governo Repblicano de Minas lhe ergueu em Ouro Preto, ele tem o porte de um profeta ou semideus. E conclui sobre os artistas: "Nenhum teve razo, todos tiveram 
razo, porque  assim que as lendas se fazem.30
A tentativa de transformar Tiradentes em heri nacional, adequado a todos os gostos, no eliminou totalmente a ambiguidade do smbolo. O governo Repblicano tentou 
dele se apropriar, declarando o 21 de abril feriado nacional e, em 1926, construindo a esttua em frente ao prdio da Cmara. Os governos militares recentes foram 
mais longe. Lei de 1965 declarou Tiradentes patrono cvico da nao brasileira e mandou colocar retratos seus em todas as reparties pblicas. Durante o Estado 
Novo, foram representadas peas de teatro, com apoio oficial, exaltando a figura do heri.31 Foi tambm dessa poca (1940) a primeira tentativa de modificar a representao 
tradicional, estilo nazareno. Jos Walsht Rodrigues, especialista em uniformes militares, colaborador do integralista Gustavo Barroso, pintou Tiradentes como alferes 
da 6a Companhia do Regimento dos Drages. O heri cvico  ai um militar de carreira.32
Mas a esquerda tambm dele no abriu mo, desde os jacobinos at os movimentos guerrilheiros da dcada de 70, um dos quais adotou seu nome. Portinari o pintou na 
dcada de 40, mantendo a aproximao com a simbologia religiosa. Seu Os despojos de Tiradentes no caminho novo das Minas
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mostra os pedaos do corpo pendendo de postes e mulheres ajoelhadas que lembram a cena do Calvrio. Na dcada de 60, o Teatro de Arena tambm reviveu a imagem subversiva 
do inconfidente.33
O segredo da vitalidade do heri talvez esteja, afinal, nessa ambigidade, em sua resistncia aos continuados esforos de esquartejamento de sua memria.
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4
REPBLICA-MULHER: 
ENTRE MARIA E MARIANNE
Um dos elementos marcantes do imaginrio Repblicano francs foi o uso da alegoria feminina para representar a Repblica. A Monarquia representava-se naturalmente 
pela figura do rei, que, eventualmente, simbolizava a prpria nao. Derrubada a Monarquia, decapitado o rei, novos smbolos faziam-se necessrios para preencher 
o vazio, para representar as novas idias e ideais, como a revoluo, a liberdade, a repblica, a prpria ptria. Entre os muitos smbolos e alegorias utilizados, 
em geral inspirados na tradio clssica, salienta-se o da figura feminina. Da Primeira  Terceira Repblica, a alegoria feminina domina a simbologia cvica francesa, 
representando seja a liberdade, seja a revoluo, seja a repblica.
A figura feminina passou a ser utilizada assim que foi proclamada a Repblica, em 1792. A inspirao veio de Roma, onde a mulher j era smbolo da liberdade. O primeiro 
selo da Repblica trazia a efgie de uma mulher de p, vestida  moda romana, segurando na mo direita uma lana, de cuja ponta pendia um barrete frgio. A mo esquerda 
segurava um feixe de armas. Um leme completava a simbologia. O barrete frgio identificava os libertos na antiga Roma; o feixe de armas indicava a unidade, ou fraternidade; 
o leme, o governo; a lana, arma popular por excelncia, era a presena do povo no regime que se inaugurava. A mulher tambm apareceu em alegorias vivas, como na 
Festa do Ser Supremo, em 1794, em que a
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liberdade foi representada por uma jovem. Na praa da Revoluo, uma esttua da liberdade em forma de mulher presidia s execues na guilhotina. Era uma figura 
em p, barrete frgio na cabea, lana na mo direita. A ela sem dvida se dirigiu Manon Roland quando, pouco antes de ser executado, exclamou: " liberdade, quantos 
crimes se cometem em teu nome!.1
As jornadas de 1830 entraram para a histria por vrias razes. Uma delas foi, sem dvida, o quadro de Delacroix intitulado A Liberdade guiando o povo. Obra-prima 
da pintura universal, o quadro mostra a liberdade representada por uma figura de mulher de traos populares. O barrete frgio cobre-lhe os cabelos apanhados para 
cima. Na mo direita, outro smbolo Repblicano, a bandeira tricolor, que tinha sido abandonada durante a Restaurao e que Lus Filipe adotou, recebendo-a de Lafayette, 
o mesmo que a oficializara em 1790. Na mo esquerda, um fuzil com baioneta calada. Destacam-se os seios, nus e agressivos, e o gesto enrgico de comando em meio 
aos mortos e feridos das barricadas de Paris. Sem dvida alguma, ela canta a Marselhesa. A fora do quadro est no fato de combinar elementos de idealizao, como 
a nudez dos seios e dos ps, com traos de grande verossimilhana. Sabe-se que Delacroix se inspirou numa combatente real, Marie Deschamps, que se salientara na 
luta em uma das barricadas de julho de 1830. O fato de ser o quadro, ao mesmo tempo, uma das principais, se no a principal, obra do romantismo contribuiu tambm 
para o impacto que causou.
Pouco depois de Delacroix, Rud deixou gravado em um dos pilares do Arco do Triunfo da Place de l'toile uma cena de grande expresso, em que uma figura idealizada 
e beligerante de mulher lidera combatentes para a guerra. O quadro, originalmente chamado A partida dos voluntrios, passou a ser conhecido, pela fora da figura 
central, como A marselhesa. Embora mais estilizado que a obra de Delacroix, o baixo-relevo de Rud tem um mesmo sentido: uma figura de mulher, realidade ou smbolo, 
realidade e smbolo, representando as lutas e os ideais da revoluo, da repblica, da ptria.
A proclamao da Segunda Repblica, em 1848, renovou o interesse pelos smbolos Repblicanos. Em concurso realizado para escolher o smbolo da Repblica, a grande 
maioria dos pintores e escultores escolheu a figura feminina.2 Embora a qualidade artstica do concurso tenha sido desapontadora, salvaram-se algumas obras, como 
a de Daumier, em que a Repblica  representada como uma mulher amamentando duas crianas. No  mais a figura belicosa de Delacroix e Rud: Daumier pinta uma Repblica-mulher 
maternal, protetora, segura e slida. Est sentada, segura a tricolor na mo direita, com a mo esquerda ampara uma das crianas que lhe sugam os vastos e generosos 
seios. Segundo Agulhon, j se v uma ciso na representao feminina que dai em diante s faria crescer. J se distinguem
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uma Repblica burguesa e uma Repblica socialista. Embora mantendo a figura feminina, a distino comea a se fazer seja pela maneira de representar a mulher (sentada 
ou de p, maternal ou combativa, cabelos penteados ou revoltos, seios cobertos ou nus), seja pelos atributos que a rodeiam. Quanto a estes, a distino mais marcante 
 a presena ou a ausncia do barrete frgio. Sempre de cor vermelha, o barrete passa a ser uma das principais indicaes do radicalismo,  medida que a bandeira 
tricolor vai aos poucos se tornando marca de moderao, da Repblica respeitvel. Note-se, no quadro de Daumier, a postura sentada, a presena da tricolor e a ausncia 
do barrete. A Segunda Repblica introduziu a figura feminina como smbolo tambm nas moedas, nas armas e nos selos postais. Em nenhum desses casos o barrete frgio 
est presente. Nas armas, ele  substitudo por uma aurola em forma de raios de sol, imagem mais tarde imortalizada por Bartholdi na esttua oferecida  cidade 
de Nova York.
Foi no perodo que precedeu a Terceira Repblica, no entanto, que a figura de mulher se popularizou como representao da Repblica em oposio ao Imprio de Napoleo 
III. A popularizao veio com a figura de Marianne, nome popular de mulher. Marianne passou a personificar a Repblica, unificando as formas anteriores de representao. 
Estatuetas, bustos, gravuras de Marianne espalharam-se pelo pas, especialmente no sul. Como reao, o governo incentivou o culto da Virgem Maria. Houve uma batalha 
de cultos, que Agulhon com felicidade chama de mariolatria contra marianolatria. O culto a Marianne encontrou sua expresso mais exacerbada na Lettre a Marianne 
de Flix Pyat, publicada em Londres em 1856. A certa altura, exclama Pyat: "Para ns, Repblicanos proscritos, [...] tu s tudo, refgio, cidade, lar, nossa famlia, 
nossa me, nosso amor, nossa f, nossa esperana, dolo ao qual sacrificamos at nossa memria, ideal para o qual vivemos e morremos felizes". A Lettre termina com 
uma Ave Maria, ou melhor, com uma Ave Marianne: "Ave, Marianne, cheia de fora, o povo  contigo, bendito  o fruto de teu ventre, a Repblica etc.".3
Com a Comuna e a Terceira Repblica, o que era culto clandestino e perseguido se tornou aberto e oficial. Consolidada a Repblica, apareceram grandes monumentos 
com a figura feminina. Mas a ciso esboada em 1848 tornou-se agora cada vez mais ntida, na medida em que as relaes entre Repblica e socialismo se complicaram. 
Novos smbolos revolucionrios apareceram: o operrio de torso nu, a Internacional.4 A prpria Marianne sofreu deslizamento de sentido. De smbolo da Repblica libertria 
passou a smbolo da nao ou da Frana. Moveu-se para a direita. Finalmente, a figura feminina deixou de ser usada como smbolo da Repblica. A prpria Repblica 
no teve mais monumentos.
Os Repblicanos brasileiros de orientao francesa tinham, portanto, grande riqueza de imagens e smbolos em que se inspirar. Interessa-me,
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no momento, apenas o uso que fizeram da alegoria feminina. Estavam,  certo, em pequena desvantagem se comparados aos franceses. Enquanto na Frana a Monarquia era 
masculina, aqui a herdeira do trono, eventual regente, era mulher. Mas a desvantagem foi diminuda por meio da tentativa de anular a figura de Isabel, mostrando-a 
como simples joguete nas mos do conde D'Eu. Ao mesmo tempo, uma campanha sistemtica foi montada para desmoralizar o conde. Em So Paulo, um jornal humorstico 
Repblicano foi fundado com essa finalidade. Silva Jardim seguiu o conde na viagem ao norte do pas, buscando neutralizar sua campanha em favor do terceiro reinado. 
O fato de o conde ser francs s facilitava a tarefa de identific-lo com o Antigo Regime. Silva Jardim no hesitou mesmo em propor para ele o mesmo destino que 
a Revoluo reservara para Lus XVI. Abria-se, assim, o caminho para a apropriao Repblicana da imagem feminina.5
O esforo inicial foi feito pelos caricaturistas da imprensa peridica, a grande maioria simptica  Repblica. J antes mesmo da proclamao, apareceram representaes 
femininas, como se pode verificar na charge de Angelo Agostini na Revista Illustrada de 9 de junho de 1888. A mesma alegoria pode ser vista no nmero de 16 de novembro 
de 1889, agora desenhada por Pereira Neto6 (ver reproduo no captulo 5). Pereira Neto continuou por vrios anos a reproduzir essa imagem feminina, vestida  romana,
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descala ou de sandlias, barrete frgio, geralmente com a nova bandeira em uma das mos. Veja-se, por exemplo, o nmero de 14 de dezembro de 1889. Nele, a Repblica 
brasileira confraterniza com sua irm argentina. As duas repblicas so representadas por mulheres em tudo semelhantes, exceto pelas bandeiras.
s vezes, a figura feminina adquiria aspecto belicoso. Exemplo curioso  o da figura que aparece em O Mequetrefe de 17 de novembro de 1889. No  preciso esforo 
para ver nela uma cpia da Marselhesa de Rud. Mas, em geral, a belicosidade era indicada apenas por uma espada, como na charge do nmero 729 de 1897 da Revista 
Illustrada, em que a Repblica-mulher sada os mortos na campanha de Canudos. Tudo permanecia dentro do modelo clssico: Atena assumia sua feio guerreira original, 
abandonando por algum tempo seu lado de protetora da paz. O exemplo mais completo de uma viso guerreira da Repblica pode ser visto em O Malho de 26 de novembro 
de 1904. A Repblica ai aparece com a armadura blica de Atena, esmagando a revolta que acabara de eclodir no Rio.
A mesma representao foi por longo tempo mantida em O Paiz, o jornal semi-oficial, dirigido por Quintino Bocaiva. Julio Machado a conservou a figura estilizada 
 antiga, mesmo quando, a partir do incio do sculo, a maioria de seus colegas de imprensa j comeava a ridicularizar o novo regime, pela caricaturizao da representao 
feminina. At o final do sculo, jornais e revistas no se afastaram do modelo estabelecido pela Revista Illustrada.                              
Os pintores, excetuando-se o positivista Dcio Villares, praticamente ignoraram o simbolismo feminino na representao do novo regime. O nico quadro que talvez 
merea referncia  o do baiano Manuel Lopes Rodrigues, intitulado Alegoria da Repblica. A obra  de 1896 e foi executada em Roma, onde se achava o pintor desde 
antes da proclamao da Repblica. O autor sem dvida baseou-se em modelo vivo mas, pelo resto, no foge muito  estilizao dos caricaturistas. As vestes, tnica 
e manto, so clssicas, assim como o so as sandlias. Tambm so clssicos alguns smbolos: as palmas, os louros (no caso, ramos de caf), a espada, a cabea de 
Medusa no medalho (usada por Atena no escudo ou na couraa).  uma representao tpica da Repblica de 1848, quando o governo pediu que ela fosse representada 
sentada, transmitindo a impresso de tranqilidade, fora e segurana. Para representar assim a Repblica brasileira em 1896, era mesmo necessrio que o autor vivesse 
fora do pas.7  exceo desse quadro, de autor pouco conhecido, no parece existir outros de valor. A repblica brasileira no inspirou nenhum David, nenhum Delacroix, 
nenhum Daumier. Nem a escultura produziu Ruds. Existem bustos de mulher representando a Repblica, alguns dos quais guardados no Museu da Repblica. So obras mais 
criativas, menos estilizadas, em que a figura feminina aparece sempre com o barrete frgio e varia entre o cvico, s vezes belicoso,
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e o sensual. Seu efeito sobre o imaginrio coletivo ter sido mnimo, pois so obras refinadas de exibio domstica, peas de escritrio. Podero lembrar os bustos 
de Marianne, com a diferena de que estes, antes de 1870, s tinham sua exibio pblica inibida pela censura. Sempre que possvel, eram levados em procisso pelas 
ruas ou expostos nas janelas das casas.
Os artistas positivistas merecem referncia  parte. Entre eles o uso da alegoria feminina se baseava em um sistema de interpretao do mundo do qual a repblica 
era apenas parte, embora importante. Na escala dos valores positivistas, em primeiro lugar vinha a humanidade, seguida pela ptria e pela famlia. A repblica era 
a forma ideal de organizao da ptria. A mulher representava idealmente a humanidade. Comte julgava que somente o altrusmo (palavra por ele criada) poderia fornecer 
a base para a convivncia social na nova sociedade sem Deus. A mulher era quem melhor representava esse sentimento, da ser ela o smbolo ideal para a humanidade. 
O smbolo perfeito seria a virgem-me, por sugerir uma humanidade capaz de se reproduzir sem a interferncia externa. Comte chegou ao ponto de especificar o tipo 
feminino que deveria representar a humanidade: uma mulher de trinta anos, sustentando um filho nos braos. Manifestou mesmo o desejo de que o rosto de sua adorada 
Clotilde de Vaux fosse utilizado como modelo e aparecesse em todas as bandeiras ocidentais.8
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Os artistas positivistas brasileiros, especialmente Dcio Villares e Eduardo de S, foram os nicos politicamente militantes no mundo das artes plsticas. A eles 
se devem vrias obras, entre pinturas, esculturas e monumentos. A figura da mulher  ai onipresente, embora, como referido, represente antes a humanidade, s vezes 
a ptria, do que a repblica. Mas, mesmo na Frana, houve freqente deslizamento no significado da figura feminina. A repblica, a revoluo, a liberdade, a ptria 
freqentemente se intercambiavam. Dai no ser fora de propsito incluir a humanidade na lista.9
Em 1890, Dcio Villares ps em prtica os desejos de Comte, pintando a humanidade com o rosto de Clotilde de Vaux para o Estandarte da humanidade, que saiu no cortejo 
dedicado  memria de Tiradentes. Atitude protetora, filho ao colo, a mulher  ai, como o desejava Comte, totalmente me.10 A mesma caracterizao aparece nos monumentos 
de inspirao positivista do Rio de Janeiro e de Porto Alegre, discutidos no captulo 2. No de Benjamin Constant, obra de Dcio Villares, a figura feminina segue 
as especificaes de Comte e domina a construo. A figura do heri est ainda sob a proteo de outra figura feminina que o envolve com a bandeira Repblicana. 
 a ptria. Medalhes de Eduardo de S, em baixo-relevo, mostram ainda a mulher de Benjamin, Clotilde e Beatriz. Benjamin  um bendito entre as mulheres.
O monumento a Floriano, obra de Eduardo de S, exibe tambm duas figuras salientes de mulher, embora com simbologia mais flexvel. Eduardo de S optou por um uso 
menos ortodoxo da figura feminina, seja no simbolismo que deveriam conter, seja nas prprias formas fsicas. Uma das jovens, ao lado de Floriano,  o futuro da ptria: 
a outra, dominando todo um lado do monumento,  o amor, a integrao das raas na ptria brasileira. Ambas, embora vestidas, como queria Comte, deixam transparecer 
a exuberncia da forma fsica, especialmente dos seios. No monumento a Jlio de Castilhos, Dcio Villares colocou novamente a figura feminina no topo, agora diretamente 
como alegoria da Repblica.
Os pintores positivistas no se prendiam aos modelos clssicos, ainda que suas idias estticas estivessem prximas das de David. Nisso levavam vantagem sobre os 
caricaturistas. Mas, se escapavam de Palas Atena, caam nas malhas de Clotilde de Vaux. Suas alegorias femininas tambm se afastavam de modelos brasileiros. O fato 
 tanto mais decepcionante se nos lembrarmos da importncia que os positivistas davam  raa negra, por eles considerada superior  branca, e  incorporao dos 
ndios e dos proletrios  nao brasileira. Dcio Villares, numa exceo indiscutvel, foi o nico pintor da poca a exaltar a raa negra, em sua Epopia africana 
no Brasil. Mas, quando se tratava de representar a humanidade ou a repblica, no apareciam ndias, nem negras, nem mulatas, nem proletrias, mesmo idealizadas. 
Era Clotilde, mesmo quando de barrete frgio.
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Os pintores positivistas foram os nicos a levar a srio a tentativa de utilizar a figura feminina como alegoria cvica. Com a ressalva, ainda, de que a alegoria 
se referia preferencialmente  humanidade. Pode-se dizer que a tentativa de copiar o esforo francs de vender o novo regime por meio da imagem feminina foi pequeno 
e redundou em estrondoso fracasso. Nem a transformao da Academia Imperial de Belas Artes em Escola Nacional de Belas Artes, sob a direo de H. Bernardelli, com 
a conseqente excluso de artistas identificados com o antigo regime, parece ter mudado muito as coisas. A Repblica no produziu uma esttica prpria, nem buscou 
redefinir politicamente o uso da esttica j existente, como o fez David. Os positivistas foram caso isolado. A pintura histrica continuou a ser feita, quando o 
foi, nos mesmos moldes utilizados por Pedro Amrico e Vtor Meireles.  sintomtico, por exemplo, que nos sales de arte promovidos aps a Repblica, j criada a 
Escola Nacional de Belas Artes, quase nada apareceu que refletisse o uso da alegoria feminina ou a exaltao cvica do novo regime por outros meios. De modo geral, 
a pintura histrica perdeu terreno aps a proclamao do novo regime. Os poucos quadros cvicos produzidos limitavam-se  tentativa de criar heris Repblicanos, 
como no caso de Deodoro e Tiradentes, ou de celebrar as novas instituies, como a Constituio de 1891.11
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De fato, bem depressa os caricaturistas passaram a usar a figura feminina para ridicularizar a Repblica.  certo que os inimigos da Repblica fizeram o mesmo na 
Frana. A virgem ou a mulher herica dos Repblicanos era facilmente transformada em mulher da vida, em prostituta. A diferena  que no Brasil essa representao 
foi a dominante, sendo usada mesmo pelos que inicialmente tinham apoiado o novo regime. O desapontamento refletido na conhecida frase "Esta no  a repblica dos 
meus sonhos'' rapidamente invadiu o mundo dos caricaturistas, ao mesmo tempo em que atingia os polticos da propaganda e os escritores.
Timidamente, j na primeira dcada comeam as crticas. Em o D. Quixote de 25 de novembro de 1895, A. A. mostra a Repblica representada por uma mulher abatida montada 
num burrico, voltada para trs, enquanto as outras repblicas americanas galopam para o progresso (ver reproduo no captulo 5). A partir da virada do sculo, especialmente 
em O Malho, a crtica se torna geral e impiedosa. C. do Amaral, em O Malho de 15 de novembro de 1902, mostra o contraste entre a Repblica dos sonhos de 1889 e a 
de 1902. A primeira  representada por uma jovem inocente; a segunda, por uma mulher madura, de olhar debochado, soprando a fumaa de um cigarro. No ano seguinte, 
Raul, tambm em O Malho, representa a Repblica como uma mulher retida no leito, cujo marido, ao lado,
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comenta que j se vo treze anos e ela ainda no se levantou. J. Carlos, em O Filhote de 11 de novembro de 1909 (as datas prximas ao 15 de novembro eram as preferidas 
para as criticas), exibe uma Repblica abertamente prostituda envolvida numa orgia com os polticos da poca, enquanto a sombra de Benjamin Constant se admira de 
que aos vinte anos ela j esteja to debochada. K. Lixto, em o Fon-Fon de 13 de novembro de 1913, tambm retraa uma Repblica precocemente envelhecida e decadente, 
para a surpresa da velha Monarquia. Finalmente, para no estender demasiadamente os exemplos, o que seria fcil, Vasco Lima, em O Gato de 22 de maro de 1913, apresenta 
uma Repblica que  a verso brasileira do quadro de Daumier. A Repblica-me, protetora, alimentadora, de Daumier, mantm na caricatura de Vasco Lima os seios exageradamente 
vastos, mas, diante da estranheza do marechal Hermes, o artista justifica o detalhe dizendo: " a nudez crua da verdade. A Repblica d de mamar a tanta gente!". 
Em vez de me, a Repblica  a ama-de-leite, a vaca leiteira, que tem de alimentar polticos e funcionrios que vivem dela e no para ela.
O exemplo mais escandaloso de desmoralizao da Repblica por meio da representao feminina veio de um ministro do governo Campos Sales. Em 1900, o deputado Fausto 
Cardoso denunciou na Cmara dos Deputados o ministro da Fazenda, Joaquim Murtinho, por ser "um homem
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que manda reproduzir nas notas do Tesouro, nos dinheiros do Estado, como smbolo da Repblica, o retraio de meretrizes". Segundo a denncia, que provocou tumulto 
na Cmara e levou  suspenso da sesso, mas que no foi contestada, a foto seria de uma tal sra. Prates, uma das meretrizes mais conhecidas da capital. Segundo 
outras verses, seria de Laurinda Santos Lobo, sobrinha e amante de Murtinho. No reverso da nota, a Repblica era representada por uma clssica Palas Atena, de capacete, 
escudo e lana. A nota  um resumo precioso. A Repblica, quando no se representava pela abstrao, clssica ou romntica, s encontrava seu rosto na verso da 
mulher corrompida, era uma res publica, no sentido em que a prostituta era uma mulher pblica.12
As referncias ao novo regime encontradas na literatura freqentemente caminham na mesma direo. O bomio Neiva, de Fogo ftuo, de Coelho Neto, no se conforma 
com a proclamao da Repblica e com as medidas do governo provisrio. Tudo lhe parece falso e ridculo. Particularmente, no gosta do regime presidencialista. A 
ptria, diz,  senhora honesta, que no troca de marido. Apenas casa de novo quando fica viva. No pode viver em mancebia, hoje com um, amanh com outro.13
A viso da Repblica como prostituta  evidente na Histria do Brasil pelo mtodo confuso, de Mendes Fradique. Nessa verso ao mesmo tempo hilariante e lcida da 
histria ptria, a Repblica, pobre donzela oprimida pela tirania,  salva por Dom Quixote, que invade o quartel-general a sua procura. Para surpresa do fidalgo, 
defronta-se com uma cena orgistica, em meio a qual se destaca "uma mulher seminua, de cigarro no canto da boca, tipo caracterstico dedivette de Montmartre". Escandalizado, 
fica sabendo por intermdio de Oliveira Lima que a dita senhora  a Repblica. Apesar do desapontamento, Dom Quixote a apresenta ao povo brasileiro, declarando cumprida 
sua misso. Lamenta apenas no a ter podido entregar como pretendia: Salva e virgem!.14
Por que o fracasso da representao positiva da Repblica como mulher? A busca de explicao poder ir em vrias direes. Mas o centro da questo talvez esteja 
na observao j referida de Baczko de que o imaginrio, apesar de manipulvel, necessita, para criar razes, de uma comunidade de imaginao, de uma comunidade 
de sentido. Smbolos, alegorias, mitos s criam razes quando h terreno social e cultural no qual se alimentarem. Na ausncia de tal base, a tentativa de cri-los, 
de manipul-los, de utiliz-los como elementos de legitimao, cai no vazio, quando no no ridculo. Parece-me que na Frana havia tal comunidade de imaginao. 
No Brasil, no havia.
Para comear, na Frana as mulheres representaram papel real na Revoluo, ou melhor, nas revolues, incluindo as de 1789, 1830, 1848, 1871. Elas eram numerosas 
entre a multido que tomou a Bastilha de assalto em 1789. Foram elas, em torno de 4 mil, que marcharam poucos
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meses depois a Versalhes para levar o rei de volta a Paris. Algumas se distinguiram por aes hericas e se tornaram os primeiros smbolos vivos da Revoluo, como 
a herona annima de Saint-Milhier, como a cidad Bourgougnoux e Marie Charpentier. Pouco depois surgiram Olympe de Gouges, que acabou guilhotinada em 1793, Pauline 
Lon e Claire Lacombe. Essa ltima organizou o Clube das Mulheres Repblicanas Revolucionrias. Na verdade, to revolucionrias que o clube no foi aceito pela Conveno, 
dominada por homens. Throigne de Mericourt organizou batalhes de amazonas para lutar ao lado dos homens. O radicalismo de Claire Lacombe e Pauline Lon acabou 
levando ambas  priso em 1794. Ao fim, as sociedades de mulheres foram proibidas e os direitos polticos lhes foram negados, contra as promessas da Declarao dos 
Direitos. Ou talvez no, pois se tratava dos direitos do homem e do cidado.15
Pode-se mesmo argumentar, em vista da resistncia dos homens  participao efetiva das mulheres na Revoluo, que o uso simblico da imagem feminina seria uma compensao 
para sua excluso real. O argumento  plausvel. Mas permanece o fato de que as mulheres estavam de fato presentes nas manifestaes polticas. Eram elas, como argumenta 
Hobsbawm, que (por serem as mais diretamente afetadas) compunham as multides que protestavam contra a escassez de alimentos. Sua ao reapareceu nas barricadas 
de 1830, como atesta a valente Marie Deschamps imortalizada por Delacroix. Em 1848-51, houve o exemplo de madame Perrier, que liderou uma coluna Repblicana no Var, 
empunhando a bandeira tricolor. E, apesar das disputas em torno da origem da figura de Marianne, ela certamente tem a ver com a mulher do povo que se envolve nas 
lutas polticas. O uso da alegoria tinha uma base de sustentao, o significante no se isolava do significado .16
Entre ns, se o povo masculino esteve ausente da proclamao, que dizer do povo feminino? Se no havia povo poltico masculino, como pensar em povo poltico feminino? 
Havia uma elite poltica de homens, que eram chamados pblicos. A mulher, se pblica, era prostituta. Mesmo na fase jacobina da Repblica, durante o governo de Floriano, 
a participao era exclusivamente masculina. No s as mulheres no participavam, como no era considerado prprio que elas participassem. Poltica era coisa de 
homem. Um testemunho do dia 15 de novembro  revelador. O marechal Rondon conta em suas memrias que nesse dia pela madrugada saiu de uma festa em que estava com 
a namorada, Chiquita, sem lhe dizer o que iria fazer. Mesmo para o positivista ortodoxo que ele j era, defensor da idia da superioridade da mulher sobre o homem, 
poltica no era coisa que dissesse respeito ao sexo feminino. A um amigo que, ignorando os acontecimentos, levava pela manh as filhas  Escola Normal, passando 
em frente ao Quartel-General, um oficial alertou: "Onde vai, Xavier? No  momento de passear com as filhas''.17
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Ao considerar a poltica fora do campo de ao da mulher, Rondon na verdade no se afastava da ortodoxia positivista. Apesar da grande nfase no papel feminino, 
apesar da declarao da superioridade da mulher sobre o homem, Comte acabava por lhe atribuir o papel tradicional de me e esposa, de guardi do lar, pois era assim 
que a mulher garantia a reproduo da espcie e a sade moral da humanidade. A poltica era tarefa menor que cabia aos homens. No por acaso, as nicas mulheres 
que surgem no episdio da implantao da Repblica so as filhas de Benjamin Constant. Elas aparecem no papel clssico das mulheres: bordando a primeira bandeira 
Repblicana, idealizada pelos positivistas e desenhada por Dcio Villares.
Observando mais de perto, talvez seja possvel vislumbrar algumas mulheres na proclamao e nas lutas que se seguiram. Rondon anota que ao sarem as tropas dos quartis, 
na madrugada do dia 15, vrias mulheres de soldados seguiram os maridos parte do caminho. Em 1896, quando as tropas partiram para Canudos, supostamente em defesa 
da Repblica, vrias mulheres, esposas ou vivandeiras, acompanharam a expedio. Em nenhum dos casos a participao feminina indicava qualquer adeso  Repblica. 
Pelo contrrio, em 1904, durante a revolta contra a vacina, os jornais registraram a participao de prostitutas ao lado dos rebeldes. Outras fontes indicam tambm 
as simpatias monrquicas das meretrizes.18 Nesse caso, a representao da Repblica como prostituta talvez fosse to insultuosa para elas como o era para o novo 
regime.
Gilberto Freyre sugere alguns fatores que teriam favorecido a representao da Repblica como mulher. Um deles era o repdio ao patriarcalismo de d. Pedro II, que 
por tanto tempo marcara a vida poltica do pas. Outro seria a mariolatria catlica.19 Quanto ao primeiro, havia a dificuldade j apontada de existir uma sucessora 
feminina ao trono. No mximo, a crtica Repblicana poderia t-la neutralizado entre a elite. Quanto ao segundo, existia sem dvida no pas uma mariolatria, e nela 
se apoiaram os positivistas para insistir no uso da representao feminina da humanidade. Mas nesse caso se buscava substituir Maria por Clotilde. Na Frana, Marianne 
podia representar uma oposio respeitvel a Maria. No Brasil, Clotilde no chegava sequer a arranhar a mariolatria. A separao entre Igreja e Estado efetivada 
pela Repblica gerou animosidade entre a populao, como o atesta a revolta de Canudos. O uso de um smbolo catlico para representar a Repblica poderia soar como 
profanao.
De fato, assim como na Frana do Segundo Imprio, tambm no Brasil da Primeira Repblica Maria foi utilizada como arma anti-Repblicana. Houve um esforo deliberado 
dos bispos para incentivar o culto mariano, sobretudo por meio de Nossa Senhora Aparecida. A partir do incio do sculo, comearam as romarias oficiais. Em 8 de 
setembro de 1904, Nossa Senhora Aparecida foi coroada rainha do Brasil. Observem-se a data e o ttulo: um dia aps a comemorao da independncia, uma designao
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monrquica. No havia como ocultar a competio entre a Igreja e o novo regime pela representao da nao. O processo culminou na dcada de 30. Em 1930, Pio IX 
declarou Nossa Senhora Aparecida padroeira do Brasil. No ano seguinte, D. Sebastio Leme, perante uma multido congregada no Rio de Janeiro, a consagrou rainha e 
padroeira do pas.
Por problemtica que tambm seja a capacidade da Aparecida de representar a nao, ela sem dvida supera em muito a de qualquer outra figura feminina, ou mesmo de 
quase todos os smbolos cvicos. Alm de deitar razes na profunda tradio catlica e mariana, apresenta a vantagem adicional de ser brasileira e negra, a lguas 
de distncia da francesa e branca Clotilde. Nem mesmo a princesa Isabel lhe poderia fazer frente. A batalha pela alegoria feminina terminou em derrota Repblicana. 
Mais ainda, em derrota do cvico perante o religioso.20

A representao artstica da mulher pelos pintores brasileiros passava muito longe da mulher do povo. Praticamente todos eles ingressavam na Academia Imperial de 
Belas Artes, fruto da Misso Francesa e baluarte da pintura acadmica neoclssica. A partir da dcada de 40, instituiu-se na Academia o prmio de viagem  Europa. 
O imperador participava diretamente do apoio aos artistas, financiando do prprio bolso estgios na Europa. Bom nmero dos mais conhecidos pintores da poca permaneceu 
na Europa por longos anos, geralmente na Frana e na Itlia, s custas do governo ou do imperador. Alguns chegaram a entender sua estada por dez anos. Vtor Meireles 
passou oito anos. Pedro Amrico ficou inicialmente cinco anos, retomando depois vrias vezes, inclusive para executar obras como A batalha do Ava e Independncia 
ou morte. Acabou morrendo em Florena. Rodolfo Amoedo, Belmiro de Almeida, Dcio Villares, Antnio Parreiras, Joo Timteo da Costa, Eliseu Visconti, dos neoclssicos 
aos romnticos e impressionistas, todos se embeberam nas fontes europias. L produziram boa parte de sua obra.21
A figura da mulher era freqente em sua produo artstica, na forma de retraio ou de figuras histricas ou simblicas. Os retratos eram de mulheres de classe alta, 
que naturalmente os encomendavam. No h mulatas ou negras, ou ndias. Nem mesmo Almeida Jnior (que, apesar do treinamento na Academia e da estada na Europa, se 
manteve afastado do Rio e fiel s tradies rurais) produziu retratos de mulheres do povo. Sua tela feminina mais conhecida. O descanso do modelo, foi pintada no 
melhor estilo europeu. O melhor pintor negro da poca, Estvo da Silva, que no foi  Europa, dedicou-se a pintar naturezas-mortas.22
Mulheres ndias apareciam nas telas dos pintores. Vtor Meireles e Dcio Vilares pintaram Moema; Jos Maria de Medeiros, Lindia e Iracema. Pelos prprios nomes, 
v-se que no so ndias de verdade, so
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vises, recriaes romnticas da figura feminina indgena. So quadros que se inserem no indianismo romntico da poca. Mas mesmo dentro da viso romntica no ocorreu 
aos escritores nem aos pintores representar o Brasil, |- ou a ptria, como mulher  ou seja, como ndia. O Brasil, no Imprio, foi, | sim, representado como ndio, 
reflexo do nativismo romntico. As ndias [ de nossos pintores nada tinham a ver com a nao. Seria isso devido  presena de um monarca  frente do governo, ao 
patriarcalismo predominante na sociedade? O Imprio, sistema centralizador, interventor, estatista, seria masculino? O Brasil feminino estaria limitado  Igreja, 
e s igrejas? Ficam as perguntas.23
A maioria das representaes femininas,  poca da proclamao, j tinha traos fin-de-sicle. Salientava a sensualidade, a beleza, a fragilidade da mulher. Era 
a mulher da sociedade urbana carioca, se no parisiense, tornada objeto de consumo. No era mulher agente, ou gente, como ainda se podia observar em retratos como 
os de Dcio Villares. Se aparecem algumas mulheres cvicas'', elas vm da Bblia ou da histria de outros povos. Pedro Amrico pintou Judite e Joana d'Arc; no 
pintou Joana Anglica nem Anita Garibaldi. Talvez a tela mais representativa da mulher-elegncia, da mulher belle-poque, seja a Dame  Ia rose de Belmiro de Almeida. 
At o nome  francs. A mulher como sensualidade perpassa a obra de quase todos os pintores,  exceo dos positivistas que no pintavam nus. Vtor Meireles tem 
sua Bacante; Amoedo pintou Salom e vrios nus, alguns considerados imorais pela critica da poca; Almeida Jnior, O descanso do modelo. Honra seja feita aqui a 
Belmiro de Almeida, que, ao decidir pintar um nu, o fez utilizando um modelo visto de costas, pele murcha e cheia de celulite, negao dos padres de esttica feminina 
da poca. A tela foi rejeitada como imoral num salo de Paris.
O exemplo mais tpico talvez seja o do quadro A carioca, de Pedro Amrico. Esse paraibano que passou a vida entre a Corte brasileira, Paris e Florena pintou batalhas 
encomendadas pelo governo, pintou as heronas Joana d'Arc e Judite. Quando lhe ocorreu representar a mulher brasileira, produziu um nu e lhe deu o nome das habitantes 
da Corte. Poderia ter escrito embaixo A francesa. A tela foi, alis, pintada na Frana, em sua primeira estada de cinco anos na Europa. Ofertada a Pedro II, este 
a devolveu por no se ajustar aos padres morais palacianos.
A mulher que os melhores pintores da poca representavam no tinha lugar no mundo da poltica, no tinha lugar fora de casa, a no ser nos sales e nos teatros elegantes, 
ou nas butiques da rua do Ouvidor.24 Quando ela se aproximava da alegoria  uma figura bblica ou a ndia , a referncia no era cvica. No h A Liberdade de Delacroix, 
nem mesmo As mulheres sabinas de David, em que o pintor faz uso poltico alegrico de um tema clssico. A pergunta que pode ser feita aqui : se copiavam os europeus 
em tantas coisas, por que no podiam os pintores brasileiros copiar
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tambm a tradio francesa de representar a Repblica como mulher, independentemente de haver base social, comunidade de sentido, para tal cpia? Ou, indo mais alm: 
por que, como artistas, no se libertaram do condicionamento externo e no tentaram criar a alegoria feminina da Repblica?
A resposta talvez esteja no fato de que tambm os artistas estavam longe da Repblica. Apesar das inevitveis queixas de protecionismo oficial surgidas nos anos 
finais da Monarquia, permanece verdade que o mundo artstico do Imprio, em boa parte concentrado no Rio de Janeiro, era dominado pelo patrocnio imperial, por intermdio 
da Academia e do empenho pessoal do imperador. A Repblica tentou inovar, mas a gerao de pintores que a representou fora formada na tradio imperial. A isso agregue-se 
a falta de dramaticidade do evento da proclamao, a falta de densidade popular, capaz de despertar a inspirao artstica.
Os obstculos ao uso da alegoria feminina eram aparentemente intransponveis. Ela falhava dos dois lados  do significado, no qual a Repblica se mostrava longe 
dos sonhos de seus idealizadores, e do significante, no qual inexistia a mulher cvica, tanto na realidade como em sua representao artstica. Nessas circunstncias, 
a nica maneira em que fazia sentido utilizar a alegoria era aproximar uma repblica considerada falsificada da viso de mulher que a poca considerava corrompida, 
ou pervertida, a prostituta. Ironicamente, a Repblica, coisa pblica, acabou sendo alegorizada pela mulher pblica da poca, embora essa mulher, como pblica no 
sentido cvico, talvez fosse monarquista.
A alegoria se dissolvia na falta de uma comunidade de imaginao. Ou se fragmentava em sentidos contraditrios e invertidos. Exemplo de dissoluo surgiu em 1902 
num episdio da praia do Flamengo, relatado em O Paiz.25 Uma jovem bonita apareceu na praia em roupa de banho usando um barrete frgio. Sua beleza e o inusitado 
do barrete provocaram grande ajuntamento de povo. A moa foi aplaudida. Deram-se vivas  Repblica. O sentido dos vivas ficou claro quando um rapaz observou que 
se a Repblica fosse assim no haveria monarquistas. Outro curioso, referindo-se sem dvida  conhecida frase de desapontamento dos Repblicanos da propaganda, suspirou: 
"Esta  a repblica de meus sonhos". No havia relao possvel, nem alegrica, entre a moa e a Repblica. A Repblica no era bela, no era desejvel, no era 
a liberdade, a nao. Da parte da moa, o barrete era apenas uma pea de vestimenta, moda, no muito diferente do traje de banho que usava. E os curiosos certamente 
se perguntavam ao olh-la: ser ela de famlia (privada) ou pblica, Maria ou cocotte? Marianne no era.
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BANDEIRA E HINO: O PESO DA TRADIO
A batalha em torno da simbologia Repblicana deu-se tambm em relao  bandeira e ao hino. No podia ser de outra maneira, de vez que so esses tradicionalmente 
os smbolos nacionais mais evidentes, de uso quase obrigatrio. A luta pelo mito de origem, pela figura do heri, pela alegoria feminina, era parte importante na 
legitimao do novo regime e talvez mais reveladora por no se tratar de exigncia legal. Mas era luta de resultado menos conclusivo, pois no decidia da representao 
simblica oficial da Repblica. Era batalha de contornos indefinidos, de frentes mveis, de durao imprecisa. No foi assim com a bandeira e o hino. De adoo e 
uso obrigatrios, esses dois smbolos tinham de ser estabelecidos por legislao, com data certa. Era batalha decisiva.
No h surpresa, portanto, no fato de que a disputa em torno desses dois smbolos tenha sido mais intensa, embora de menor durao. Ela revela com nitidez algumas 
das clivagens existentes entre os Repblicanos e tambm permite enriquecer a discusso anterior sobre as condies que facilitam ou dificultam a manipulao do imaginrio 
coletivo. No caso da bandeira, a vitria pertenceu a uma faco, os positivistas, mas ela se deveu certamente ao fato de que o novo smbolo incorporou elementos 
da tradio imperial. No caso do hino, a vitria da tradio foi total: permaneceu o hino
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antigo. Foi tambm a nica vitria popular no novo regime, ganha  revelia da liderana Repblicana.

A BANDEIRA MARCA COMETA"
O inesperado do 15 de novembro fez com que os participantes no dispusessem de um smbolo prprio para desfilar nas ruas. As tropas insurretas no tinham bandeira. 
Um sargento do 2 Regimento de Artilharia de So Cristvo jogou fora a bandeira imperial quando as tropas marchavam para o campo de Santana, no tendo com que a 
substituir.1 O movimento Repblicano, como um todo, no adotara bandeira prpria. Como hino, usava simplesmente a Marselhesa. Poder-se-ia perguntar: se a Marselhesa, 
por que tambm no a tricolor, a bandeira da revoluo e das repblicas francesas?  que a Marselhesa era smbolo que extrapolava as fronteiras nacionais, era smbolo 
universal da revoluo, ao passo que a tricolor mantinha as caractersticas nacionais. A Marselhesa era a revoluo, a repblica radical; a tricolor era a Frana.
Sem dvida, os Repblicanos no ignoravam que a tricolor fora tambm objeto de intensa luta na Frana ps-revolucionria. Sua prpria origem era controversa. Diziam 
alguns ter surgido da unio das cores de Paris, o vermelho e o azul, com o branco, a cor real; diziam outros representar as trs ordens, o vermelho para a nobreza, 
o branco para o clero, o azul para o terceiro estado; diziam ainda outros ter sido criao de Lafayette, comandante da Guarda Nacional, que uniu o branco da Guarda 
ao azul e ao vermelho das milcias parisienses. Seja como for, a tricolor foi consagrada na Festa da Federao em 1790, quando toda Paris adotara suas cores. Ela 
precedera a Repblica, fora quase smbolo de conciliao, como o indica a verso de que representava as trs ordens. Talvez por isso tenha sobrevivido aos anos iniciais 
de incerteza, inclusive quanto a seu desenho e  posio das trs cores, e tenha sido adotada oficialmente pela Conveno em 1794, quando j passara pelo batismo 
de sangue nas guerras contra os invasores da ptria. David, o pintor oficial da Revoluo, amigo dos jacobinos, desenhou o modelo final, colocando as faixas em posio 
vertical e as cores na ordem azul-branco-vermelho.2
A Restaurao abandonou-a em troca da bandeira branca, que se tornara smbolo da Monarquia e da reao. Mas a tricolor j se tornara smbolo nacional, e no foi 
por acaso que Lus Filipe decidiu readot-la em 1830, aps a queda de Carlos X. Recebeu-a, em cena de forte simbolismo, das mos do mesmo Lafayette que a consagrara 
em 1790. Em 1848, a tricolor comeou a sofrer nova concorrncia, dessa vez no da bandeira branca dos monarquistas, mas da bandeira vermelha dos socialistas. Foi 
Lamartine, membro do governo revolucionrio, que a salvou, acusando a bandeira
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vermelha de representar um partido e no a Frana. A Comuna adotou a bandeira vermelha, mas a Terceira Repblica voltou ao smbolo j tradicional. Em 1880, na primeira 
celebrao do 14 de julho na Terceira Repblica, Paris enfeitou-se de azul, branco e vermelho, como na Festa da Federao de 1790. A Repblica j era a Frana e 
perdera a conotao revolucionria; a tricolor era seu smbolo.
Entende-se a dificuldade que encontravam os Repblicanos em adotar a tricolor. No seria brasileiro nem revolucionrio. A escolha da bandeira deixou-os divididos, 
indecisos. No  que no existissem tentativas de criar ou adotar nova bandeira. Havia, em primeiro lugar, a bandeira dos inconfidentes, de conhecimento dos vrios 
clubes Tiradentes que se formavam pelo pas. Havia, tambm, pelo menos duas verses de bandeira que se inspiravam no modelo americano. Uma delas foi levada pelos 
Repblicanos civis s ruas no dia 15, de maneira algo improvisada.
A histria dessa bandeira, que pode ser considerada a bandeira da proclamao, pois foi hasteada por Jos do Patrocnio na Cmara Municipal e l permaneceu at o 
dia 19,  esclarecedora das dvidas dos Repblicanos. Ela era cpia da bandeira norte-americana. Segundo vrios depoimentos ao jornal O Paiz em novembro de 1912, 
especialmente o do capito Maximiano de Souza Barros, pode-se inferir que fora feita pelos scios do Clube Repblicano Lopes Trovo para a recepo desse lder Repblicano, 
quando regressou da Europa, em 1888. Em novembro de 1889, estava guardada no Clube Tiradentes, que se reunia no mesmo local que o Clube Lopes Trovo.3 Nela se conservaram, 
nas faixas horizontais, as cores verde e amarela da bandeira imperial. O quadriltero, por sugesto de Fvila Nunes, era de fundo negro, para homenagear a raa negra. 
As estrelas foram bordadas em miangas brancas. Foi confeccionada em uma alfaiataria de propriedade do prprio capito Souza Barros.
O capito v-se em dificuldades para explicar a opo pelo modelo americano. Houve, segundo ele, relutncia de parte dos scios do clube em aceitar a escolha. Havia 
entusiasmo pela repblica da Amrica do Norte, mas confessa que toda a orientao dos revolucionrios era francesa. Cantavam a Marselhesa  cantaram-na no prprio 
dia 15  e s tinham a Frana como modelo. Da apressar-se ele a dizer que a escolha no significava submisso aos processos americanos. De fato, a opo foi algo 
surpreendente. Com toda a probabilidade, o clube era formado de uma maioria de jacobinos e positivistas, e no de "democrticos" ao estilo dos paulistas. A escolha 
mais lgica seria uma adaptao da bandeira dos inconfidentes. Uma dessas adaptaes j fora usada em 1881, na primeira celebrao pblica da morte de Tiradentes. 
Ela conservava o desenho original, ao qual acrescentava as cores verde e amarela da bandeira imperial. Por longo tempo figurou na Gazeta da Noite.4  possvel que 
o argumento decisivo tenha sido a convenincia de adotar um emblema que fosse aceitvel tambm pelos paulistas,
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pelos Repblicanos liberais. Seja como for, foi a bandeira "americana que foi levada em desfile por Patrocnio e outros at a Cmara Municipal e l hasteada.
Um grupo pequeno mas entusiasta de empregados do comrcio, liderados pelo fotgrafo Augusto Malta, confeccionou rapidamente, para uso prprio, outra bandeira, copiada 
da do Clube Lopes Trovo. Cada um deu cinco mil-ris, compraram o material, fizeram a bandeira e a desfilaram  tarde pela rua do Ouvidor, contornando o largo do 
Pao e dando vivas  Repblica, algo receosos por ser ainda perigoso levantar tais vivas no dia 15, segundo assegura Malta.5
Independentemente, ao que parece, um oficial da Marinha, Gabriel Cruz, estacionado em Pernambuco, fez em 1888 uma bandeira tambm inspirada na americana e a enviou 
a Quintino Bocaiva e a Jos do Patrocnio. Mantinha as faixas horizontais em verde e amarelo. Mas no quadriltero, de fundo azul, colocava o Cruzeiro do Sul, circulado 
por vinte estrelas. As estrelas em circulo, representando os estados, eram inspiradas na bandeira imperial. No se sabe o destino que teve essa bandeira.6 Outra 
bandeira ao estilo americano foi iada a bordo do navio Alagoas, que levou a famlia imperial para o exlio (retirada quando o navio passava por So Vicente). Essa 
bandeira, que Tobias Monteiro julgava ser a que fora hasteada na Cmara, era na verdade cpia dela. No podia ser a mesma, porque o navio partiu antes que a outra 
fosse retirada. Alm disso, segundo a descrio de Tobias Monteiro, o quadriltero era de cor azul e no negra.7 Com toda a probabilidade,  a bandeira que esteve 
no Museu Naval e hoje se encontra no Museu da Repblica. Malta no d informao sobre a cor do quadriltero de sua bandeira. A do Alagoas j era azul, e vrias 
testemunhas do dia 15, anos depois, julgavam ser tambm azul o quadriltero da bandeira do Clube Lopes Trovo.8 Essa bandeira se encontra hoje no Museu da Cidade: 
a cor  preta. Das duas, uma: ou os observadores no prestaram ateno  cor, ou resolveram no prestar ateno. A ltima hiptese  mais provvel para os que a 
copiaram. Nesse caso, cabe ainda a dvida: conheceriam o significado dado  cor negra pelo Clube Lopes Trovo? Desse conhecimento dependeria saber se mudaram a cor 
por razes estticas ou racistas. Talvez o fizessem pelas duas razes.
Seja como for, foi imediata a reao dos positivistas ortodoxos  bandeira do Clube Lopes Trovo. Rapidamente conceberam outro modelo, que Dcio Villares desenhou, 
e o enviaram ao governo provisrio por intermdio de Benjamin Constant.9 Na concepo da bandeira positivista, como em quase tudo, os ortodoxos seguiram as indicaes 
de Comte. Segundo este, na primeira fase da transio orgnica da humanidade deveriam ser mantidas as bandeiras vigentes, com o acrscimo da divisa poltica "Ordem 
e Progresso. Tomaram ento a bandeira imperial, conservaram o fundo verde, o losango amarelo e a esfera azul. Retiraram da calota os emblemas
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imperiais: a cruz, a esfera armilar, a coroa, os ramos de caf e tabaco. As estrelas que circulavam a esfera foram transferidas para dentro da calota. A principal 
inovao, a que gerou maior polmica, a que ainda causa resistncia, foi a introduo da divisa "Ordem e Progresso" em uma faixa que, representando o zodaco, cruzava 
a esfera em sentido descendente da esquerda para a direita.
Rui Barbosa, um convicto liberal, deve ter sentido a dificuldade de vender a idia de colocar uma divisa to claramente positivista na bandeira nacional. Sem querer 
polemizar com seu colega Benjamin Constant, que fora o verdadeiro idelogo da repblica entre os militares, aceitou a idia mas pediu a Teixeira Mendes que justificasse 
publicamente o novo emblema. O decreto do governo provisrio que adotava a bandeira positivista saiu no dia 19 de novembro, quatro dias aps a proclamao, numa 
demonstrao da eficcia da ao dos ortodoxos. A justificao de Teixeira Mendes saiu no Dirio Oficial de 24 de novembro, e inaugurou uma polmica em que os dois 
principais apstolos da ortodoxia estiveram envolvidos at o fim de suas vidas.10
Em sua primeira defesa, Teixeira Mendes no menciona a bandeira que circulou no dia 15. Apenas justifica a nova bandeira.11 Sempre de acordo com princpios positivistas, 
alega que o emblema nacional deve ser smbolo de fraternidade e ligar o passado ao presente e ao futuro. A ligao com o passado se dava na conservao de parte 
da bandeira imperial, segundo ele obra de Jos Bonifcio (o desenho era de Debret, discpulo de David, o pintor da tricolor francesa). Conservavam-se o desenho imperial 
e as cores, representaes de nossa natureza e nossas riquezas. At mesmo a cruz permaneceu no Cruzeiro do Sul, uma cruz leiga que podia ser vista com simpatia pelos 
catlicos. Reconhecia-se, desse modo, o passado, a tradio, tanto poltica como religiosa, pois a Monarquia e o catolicismo eram fases da evoluo da humanidade, 
a ser superadas, mas necessrias e portadoras de aspectos positivos.
A bandeira, continua Teixeira Mendes, tinha de representar tambm o presente, o novo regime, e o futuro. A divisa "Ordem e Progresso" cumpria esse papel. De um mundo 
at ento dividido entre as duas tendncias, com excessos de ordem sendo substitudos por excessos de progresso, passava-se, em consequncia das descobertas cientficas 
da dinmica social do Mestre, a uma concepo que unia os dois plos. Tal concepo era a base da nova dinmica de confraternizao universal, prenncio da fase 
final de evoluo da humanidade. A conciliao seria, segundo Teixeira Mendes, aspirao atual de todo o povo brasileiro. Descreve, a seguir, a colocao das estrelas 
e a escolha das constelaes. Por fim, num autntico tour de force, tenta ligar o verde da bandeira  nossa filiao com a Frana, "o centro do Ocidente", prendendo-nos 
por esse lado "a toda a evoluo humana passada, e ao mais remoto futuro". O verde representaria a esperana
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e a paz inauguradas pela Revoluo Francesa. Os atacantes da Bastilha levaram como emblema folhas verdes arrancadas s rvores do Palais Royal. Por a a bandeira 
tambm lembraria Tiradentes, cuja rebelio foi denunciada no mesmo ano da Revoluo Francesa.
A oposio  nova bandeira foi tambm imediata. O Dirio do Commercio do mesmo dia 24 acusou o governo de adotar um smbolo que se prestava ao ridculo e que refletia 
a posio de uma seita religiosa, no convindo, portanto, como smbolo nacional. Teixeira Mendes retrucou pelo Dirio Oficial do dia 26, num artigo irritado e dogmtico.12 
Insiste em que a divisa Ordem e Progresso" no implica adeso ao positivismo. Trata-se de aspirao universal, de aspirao de todo o povo brasileiro. Poder o 
jornalista que criticou a divisa dizer que o povo brasileiro no deseja a ordem e o progresso? Comte, como outros gnios da humanidade, Aristteles, Confcio, Descartes 
etc., apenas resumiu a aspirao de sua poca. Por outro lado, argumenta, a "seita" positivista nada quer da Repblica, nem mesmo cargos polticos. Quer apenas a 
ditadura Repblicana para garantir a ordem e o progresso. Finalmente, justifica a introduo da legenda: as imagens so mais efetivas se acompanhadas de sinais. 
A bandeira inconfidente possua legenda. No foi adotada porque no convinha aos novos tempos. A liberdade no era mais um fim em si mesma  era condio para a 
ordem e o progresso. Ela de fato se tornara, por assim dizer, tardia.
A crtica voltou-se tambm para a disposio das estrelas, argumentando que havia equvoco cientfico, que o novo regime pretendia levar a revoluo ao cu e  astronomia. 
Consultando um astrnomo europeu, um jornalista enviara de Paris um artigo para a Gazeta de Notcias em que argumentava que a posio das constelaes estava invertida, 
que a dimenso do Cruzeiro estava exagerada, que a posio de vrias estrelas estava incorreta.13 Teixeira Mendes voltou  carga em publicao do Apostolado de 3 
de junho de 1890.14 Acusa o jornalista da Gazeta de falta de patriotismo por ridicularizar um smbolo nacional? A seguir, faz um jogo ambguo. De um lado, menciona 
a opinio do astrnomo Manuel Pereira Reis, consultor cientfico da nova bandeira, segundo a qual a disposio das estrelas refletia o aspecto do cu do Rio de Janeiro 
na manh do dia 15 de novembro de 1889. De outro lado, em vista das bvias incorrees, argumenta que bandeira  idealizao,  smbolo,  emblema, no se deve prender 
 rigorosa representao da realidade. Certa ou no a posio das estrelas, ela lembra o cu brasileiro, o que no faziam as estrelas da bandeira imperial, nem as 
estrelas da bandeira norte-americana em relao ao cu daquele pas. A emblematizao permite atingir o corao dos brasileiros, finalidade precpua de uma bandeira.
No mesmo ano de 1890, Eduardo Prado, o inimigo irreconcilivel do novo regime, publicou um livro com o ttulo A bandeira nacional, em que, entre outras crticas, 
insiste na incorreo astronmica da disposio das
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constelaes.15 Eduardo Prado entra em longos detalhes para mostrar a incorreo. Nos anos seguintes, a luta adquire aspectos mais agressivos, particularmente durante 
o perodo jacobino. Tudo indica que o prprio Deodoro no ficara satisfeito com a nova bandeira. Aps a morte de Benjamin Constant, ele teria procurado reform-la, 
provocando novamente a ira de Teixeira Mendes, que ameaa o marechal com o fantasma de Benjamin, para ele o verdadeiro fundador da Repblica, a garantia contra as 
reaes metafsicas, clericais e sebastianistas.
Nem mesmo Floriano ficou livre da vigilncia positivista. A 7 de setembro de 1892, um incidente agitou a cidade. Um comerciante da rua da Assemblia, um portugus, 
certamente monarquista, exibiu uma tabuleta que representava a bandeira positivista, na qual a divisa "Ordem e Progresso fora substituda por um "dstico infamante, 
segundo o Dirio de Noticias. No se diz qual era o dstico. Provavelmente era a "Marca Cometa, nome dado pelos opositores  nova bandeira, por se parecer com a 
propaganda de um produto com aquele nome, a faixa da divisa podendo ser confundida com o rastro de um cometa. Uma personagem de Fogo ftuo, de Coelho Neto, refere-se, 
poucos dias aps a proclamao,  bandeira "Marca Cometa".16 De qualquer modo, naquele dia 7, data da Independncia, algumas pessoas se irritaram com a irreverncia 
do comerciante, invadiram a loja, arrancaram todas as tabuletas e foram em procisso levar uma bandeira at o Itamaraty, ento palcio presidencial, entre vivas 
 Repblica e a Floriano. No palcio, houve discursos exaltados, tendo-se ajuntado uma pequena multido. Uma comisso entrou com a bandeira para entreg-la  guarda 
de Floriano. Este, como de costume, pronunciou algumas palavras ambguas relativas a defender a bandeira nacional, mas que todos interpretaram como uma posio clara 
contra sua modificao. Miguel Lemos no perdeu tempo: no dia 9, telegrafou aos governadores dizendo que o presidente era contrrio  mudana.
O deputado Valado, militar prximo de Floriano, engajado num projeto de mudana da bandeira, certamente com o apoio do marechal, telegrafou a seguir aos governadores 
negando a interpretao dada por Miguel Lemos. Alguns governadores positivistas manifestaram-se. Os alunos da Escola Superior de Guerra lanaram um manifesto virulento, 
em nome de Benjamin Constant, contra a idia de mudar a bandeira. O manifesto era positivista, antipoltico e profundamente autoritrio. A razo da reao contra 
a bandeira, argumentava, era clara: pretende-se profanar a memria de Benjamin Constant "mascarando, por uma imitao emprica e servil, a verdadeira filiao histrica 
de nossa nacionalidade". Leia-se: querem adotar o modelo da bandeira americana, querem uma repblica liberal-democrtica, em vez da ditadura Repblicana pregada 
pelo positivismo, ligada s tradies polticas francesas. O manifesto falava ainda na "politicagem indecente e corruptora", na "parlamentarice de nossos charlates
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polticos". Enfim, negava ao Congresso e ao chefe do governo autoridade para modificar a bandeira. S Benjamin, o chefe da revoluo de 15 de novembro, tinha representatividade 
para instituir a bandeira, o smbolo que resumia as aspiraes coletivas do momento. O Clube Repblicano Sul-Rio-grandense, outra fortaleza positivista, manifestou-se 
no mesmo sentido.17
O projeto apresentado ao Congresso por Valado e outros deputados pretendia retirar da bandeira a divisa positivista e substituir as estrelas pelas armas da Repblica. 
Antes do episdio do 7 de setembro, ele j telefonara aos governadores pedindo sua opinio. De pblico, j dissera que Floriano era favorvel  mudana. Depois da 
manifestao dos alunos da Escola Superior de Guerra, consultou os comandantes de batalhes e chefes de guarnies sobre o assunto. A resposta, segundo Miguel Lemos, 
teria sido desfavorvel  modificao. A Cmara decidiu que se consultassem as assemblias estaduais e intendncias municipais sobre a supresso, na bandeira, do 
"smbolo de qualquer seita". A consulta, aparentemente, no foi feita, e a Cmara, ao reiniciar os trabalhos, no voltou ao assunto. Como parte dos incidentes, note-se 
ainda a recusa do bispo do Rio de Janeiro em abenoar a nova bandeira, como lhe pedira um comandante da Guarda Nacional. A justificativa era a presena na bandeira 
da divisa da seita religiosa positivista.18
A ao dos ortodoxos foi extremamente hbil e eficaz. Ainda que minoria, conseguiram mobilizar setores jacobinos da populao e, principalmente, o radicalismo militar. 
A mudana barrada por um veto desses setores. Floriano, embora contra a bandeira  no era positivista , tinha neles sua base de apoio. Participava de muitos de 
seus preconceitos, especialmente da ojeriza aos polticos e ao Congresso. No podia enfrent-los abertamente em assunto to delicado. Uma comisso da Escola Militar 
chegou a visit-lo para protestar contra a mudana. Ao final de 1893, sua situao tornou-se ainda mais precria, com o rompimento da guerra civil. O assunto da 
bandeira morreu. Os positivistas ainda tripudiaram sobre sua memria, erguendo-lhe um monumento em que o quadro principal se chamava Guarda  bandeira, O marechal 
aparece descoberto em respeito ao pavilho, espada na mo direita, pronto para a luta. Por trs dele, enorme bandeira com as figuras de Tiradentes, Jos Bonifcio 
e Benjamin Constant. Bem visvel, a divisa "Ordem e Progresso".
Apesar da resistncia  divisa positivista, que talvez persista at os dias de hoje, a bandeira Repblicana teve maior aceitao do que a mitificao dos heris 
do 15 de novembro e certamente despertou maior respeito do que a figurao feminina da Repblica. Os cartunistas logo a adotaram nas representaes alegricas do 
novo regime. H mesmo uma charge da Revista Illustrada do dia 16 de novembro de 1889, de Pereira Neto, que constitui um enigma. Foi a primeira representao da Repblica 
em forma de mulher no novo regime.
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A figura feminina no foge ao esteretipo que j examinamos. O modelo  Atena em sua verso guerreira, indicada pela espada e pelo escudo. O que surpreende  a bandeira 
que sustm na mo esquerda. Trata-se, sem dvida, da nova bandeira: observe-se a calota azul atravessada pela faixa do zodaco, descendente da esquerda para a direta. 
O problema  a data. Como foi possvel publicar tal charge j no dia seguinte  proclamao? Alvarus sugere que a revista j estava no prelo, como que aguardando 
o acontecimento.19 Mas isso no resolve o problema da bandeira. Segundo informao dos positivistas, somente aps ver a bandeira "americana" no dia 15  que se mobilizaram 
para apresentar outro modelo. Havia, ento, o trabalho de conceb-lo, consultar o astrnomo Pereira Reis, chamar Dcio Viliares para desenh-lo. Alm disso, segundo 
Teixeira Mendes, a primeira sugesto por ele feita ao governo provisrio (leia-se Benjamin Constant) fora de adotar a bandeira que Comte propunha para a terceira 
fase da transio orgnica: fundo verde orlado pelas cores de cada nacionalidade. Miguel Lemos lembrou-lhe que o Brasil estava na primeira fase e que o novo emblema 
deveria conservar o imperial, acrescentando a divisa. S ento foi desenhada a nova bandeira. No relato do encontro dos positivistas com Benjamin Constant no dia 
17 no h meno  bandeira, embora haja referncia  introduo da divisa. J estava ento decidido o novo modelo? Nesse caso, Teixeira Mendes j deveria ter falado 
a Benjamin Constant sobre o assunto no encontro que teve com os membros do governo provisrio no dia 15.20
Mas naquele momento certamente ainda no falara com Miguel Lemos e, se sugeriu uma bandeira, foi a da terceira fase da transio e no a que acabou sendo adotada.
Fica a dificuldade: a charge  do dia 16. Embora certamente desenhada aps a proclamao, como o indica a figura de Deodoro com o bon na mo, em pose quase idntica 
 do quadro de Bernardelli, s o poderia ter sido no prprio dia 15, para permitir a impresso e distribuio no dia 16. Como ento j continha a nova bandeira? 
O mistrio fica mais intrincado se lembrarmos que O Mequetrefe do dia 17 traz a alegoria feminina da Repblica e Jos do Patrocnio empunhando a bandeira "americana'' 
que foi por ele hasteada na Cmara Municipal.
Como resolver? Trata-se de coincidncia? Pereira Neto teria tomado a bandeira imperial, eliminado os smbolos do velho regime e colocado o Cruzeiro (smbolo tambm 
conhecido, havia uma Ordem do Cruzeiro) na calota azul?  curioso que no consta de sua bandeira a divisa "Ordem e Progresso". Mas por que ento a faixa do zodaco, 
exatamente como na bandeira positivista? Outra possibilidade  que, apesar da data de publicao, a revista no tenha circulado no dia 16, mas um ou dois dias depois, 
quando o desenhista j teria tido tempo de entrar em contato com os positivistas, rejeitando, no entanto, sua divisa.
Seja como for, os cartunistas passaram a usar sistematicamente a nova
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bandeira, com a divisa, a partir de dezembro de 1889. A mesma Revista Illustrada a apresenta com a divisa em seu nmero de 21 de junho de 1890, que sada o reconhecimento 
pela Repblica Francesa. Apesar de se prestar facilmente ao ridculo, como o atesta a Marca Cometa", o novo smbolo foi poupado, mesmo a partir do inicio das crticas 
ferinas  Repblica que se utilizavam do uso da figura da mulher. Uma das razes poderia ter sido o medo de represlia. Mas tal receio era mais real no incio do 
novo regime, particularmente na fase jacobina. A partir do governo Rodrigues Alves, aps a derrota dos militares positivistas em 1904, esse temor no se justificava. 
Pode-se supor, ento, que a bandeira foi respeitada e aceita ou porque era o smbolo oficial, ou porque, de alguma maneira, possua legitimidade. Um dos poucos exemplos 
de alterao da divisa, mais em tom crtico que debochado,  uma charge de Angelo Agostini no D. Quixote de 25 de novembro de 1895. A Repblica, como mulher, aparece 
cavalgando na direo oposta ao progresso, em contraste com os Estados Unidos e as outras repblicas latino-amricanas. Em lugar de "Ordem e Progresso", a bandeira 
traz inscrito "Desordem e Retrocesso". Uma das razes do regressismo est claramente expressa no cartaz levado por Prudente de Morais, que diz: Poltica positivista''.
A bandeira aparece menos na arquitetura e na pintura. Os monumentos positivistas, como j vimos, a colocam sempre em posio de destaque, representando a ptria 
e a Repblica. Ela envolve as figuras de Benjamin Constant e Floriano Peixoto no Rio de Janeiro. No monumento a Jlio de Castilhos, ela domina o quadro principal 
 frente da pirmide. Na pintura, h o quadro de Pedro Bruno, talvez o mais importante sobre o tema.  de execuo um tanto tardia, 1919, e talvez por isso busque 
conciliar as posies que se digladiaram no incio da Repblica. O quadro apresenta traos claramente positivistas. Embora seu objeto seja a bandeira, o ttulo  
Ptria", ao gosto dos ortodoxos. O contedo tambm poderia ser endossado por Miguel Lemos: um grupo de mulheres de todas as idades, filhas, mes, avs, confecciona 
a bandeira.  uma exaltao tanto  bandeira e  ptria quanto ao papel moral da mulher na educao dos filhos e no culto dos valores morais da famlia e da ptria. 
O smbolo materno  tambm bvio na mulher que amamenta e na outra que abraa e beija uma criana. A presena masculina limita-se a um velho quase escondido no canto 
direito. O quadro refere-se provavelmente ao fato de terem as filhas de Benjamin Constant bordado uma bandeira positivista, que foi oferecida  Escola Militar. Ainda 
como trao positivista, h um retrato de Tiradentes pregado na parede.
Mas h tambm elementos no positivistas. Em primeiro lugar, a figura de Deodoro, que jamais seria aceita pelos ortodoxos, particularmente na ausncia de Benjamin 
Constant. Em segundo lugar, como na bandeira da Revista Illustrada do dia 16, no aparece a divisa 0rdem e Progresso".
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O artista, usando o truque de apresentar uma bandeira incompleta, exclui a divisa, embora registre a faixa branca. Por fim, h uma imagem de Nossa Senhora sobre 
a mesa, numa clara opo pelo smbolo catlico sobre o positivista de Clotilde. Salientando as ligaes com o passado, tanto na bandeira como na figura de Tiradentes, 
e com a cultura popular predominante, por meio da figura da Virgem catlica, e ainda conciliando na figura de Deodoro as correntes Repblicanas, o quadro, que valeu 
ao pintor um prmio de viagem  Europa, bem representa as razes do xito relativo da nova bandeira. Ela no se desvinculava da tradio cultural e cvica do pas, 
e nisso os ortodoxos acertaram. O losango amarelo em fundo verde tremulara nos navios de guerra e nos campos de batalha durante a Guerra do Paraguai. No Rio de Janeiro, 
as notcias de vitria eram comemoradas pelo povo que passeava pelas ruas as cores nacionais, como atestam abundantemente as charges da Semana Illustrada de Henrique 
Fleiuss. O verde-amarelo presidira a quase um sculo de vida independente do pas e fora imortalizado nos versos candentes de um Repblicano como Castro Alves. A 
bandeira Repblicana era ainda o auriverde pendo", apesar da Marca Cometa".
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O TA-RA-TA-TA-TCHIN: VITRIA DO POVO
Mais do que a batalha da bandeira, a do hino nacional significou uma vitria da tradio, pode-se mesmo dizer uma vitria popular, talvez a nica interveno vitoriosa 
do povo na implantao do novo regime.
Os repblicanos da propaganda no tinham hino prprio. Seu hino era a Marselhesa, cantada em todas as manifestaes, como atesta Medeiros e Albuquerque.21 A data 
do 14 de julho era, alis, uma dor de cabea para o representante francs, pois os Repblicanos dela se aproveitavam para cantar livremente o hino libertrio e combater 
a Monarquia. O diplomata ficava no dilema de fazer a festa e arriscar um conflito com o governo, ou no a fazer e desagradar a seus compatriotas.22
Aparecia ai com clareza a ambigidade do hino francs. A Marselhesa, at o final do sculo passado, era tanto o hino francs como o hino dos revolucionrios de todos 
os pases. Na prpria Frana, ela teve uma carreira atribulada. Foi composta em abril de 1792 por Rouget de Lisle como o "Canto de guerra para o exrcito do Reno", 
ainda antes da proclamao da Repblica, quando a Frana acabara de declarar guerra ao rei da Hungria e Bomia. Difundiu-se rapidamente, competindo com outras canes 
populares e patriticas como o a ira e La carmagnole .23 Em julho
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de 1792, quando os federados marselheses partiram para Paris, cada um levava um exemplar da cano. Cantaram-na ao longo do percurso e ao chegar a Paris. Cantaram-na 
principalmente a 10 de agosto, quando ajudaram a invadir as Tulherias, a depor a Monarquia, a proclamar a Repblica. O nome consagrou-se: era a cano dos marselheses, 
A marselhesa. Composio guerreira por excelncia, foi levada aos campos de batalha, despertando entusiasmo sempre que era executada. Um general escreveu ao governo: 
Enviem-me mil homens ou uma edio da Marselhesa.24
A Conveno adotou-a como hino oficial da Repblica em 1794. A partir da, teve uma histria conturbada, ao sabor das reviravoltas polticas. Olhada com suspeio 
sob o Imprio, rejeitada durante a Restaurao, voltou triunfante nas barricadas de 1830. A Liberdade de Delacroix conduz o povo  luta cantando-a.  tambm ela 
que explode da garganta da Vitria na escultura de Rud. Mas tornou-se de novo subversiva no governo de Lus Filipe. Em 1848, estava de volta nas barricadas e na 
Segunda Repblica. No ano seguinte, Pils pintou o quadro famoso, embora historicamente incorreto, em que representa Rouget de Liste cantando sua composio perante 
o prefeito de Estrasburgo. No Segundo Imprio, voltou  clandestinidade, para ser recuperada durante a guerra de 1870 e a Comuna.
 s em 1879 que Gambetta lhe restitui o carter de hino nacional,
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procurando, ao mesmo tempo, reduzir seu aspecto belicoso e revolucionrio para adapt-la s condies polticas da Terceira Repblica. Como anota Vovelle, a oficializao 
significou um deslizamento de sentido, uma domesticao do antigo grito guerreiro. O presidente do Conselho afirmou em 1882: a Marselhesa no  um canto de guerra, 
a Repblica  um governo de concrdia e tolerncia.25 A partir da virada do sculo, ela se viu desafiada entre os operrios pela Internacional, composta em 1888.
Se na Frana tentava-se fazer da Marselhesa o hino da ptria e no da revoluo, em outros pases ela ainda representava um grito de guerra e de revolta. Dai as 
dificuldades do representante francs no Rio. Para os republicanos brasileiros, ela era o prprio esprito da revoluo. Mas tambm para eles se colocava a necessidade 
de dar um toque brasileiro ao movimento. Em uma sesso espirita no Rio, o esprito de Rouget de Lisle chegou a ditar uma Marselhesa brasileira, letra e msica. A 
letra era atroz:
[...]
Livre ser!
Livre feito
Clame nosso peito!
Clame nosso peito!
Como um trovo desfeito!
Vivam, vivam, vivam os marciais,
Fortes, leais!
Vivam, vivam, os marciais!26
Silva Jardim buscara uma letra brasileira para a Marselhesa. Isso ao final de 1888, comeo de 1889. Mas Olavo Bilac e Lus Murat, a quem se dirigira, se recusaram 
a colaborar, por influncia de Patrocnio, que estava em plena fase isabelista. Foi ento que Medeiros e Albuquerque lhe props fazer a letra, que foi adotada como 
hino oficial do Partido Repblicano, a ser cantada com a msica da Marselhesa. Houve mesmo, pouco antes da proclamao, um concurso para musicar esse texto, tendo 
ganho a composio de Ernesto de Sousa, um farmacutico.27
No dia 15 de novembro, no entanto, foi ainda a Marselhesa que se ouviu pelas ruas, letra e msica de Rouget de Lisle. O governo provisrio decidiu em 22 de novembro 
de 1889 promover outro concurso para musicar a letra de Medeiros e Albuquerque. Nesse meio tempo, no entanto, ocorreu um episdio que mudou a direo dos acontecimentos. 
O major Serzedelo Correia preparara uma manifestao militar a Deodoro no dia 15 de janeiro de 1890, com o fim no declarado de promover por aclamao os membros 
do governo provisrio. Povo e tropas da Marinha ajuntaram-se em frente ao palcio do Itamaraty. Proclamados Deodoro generalssimo, Wandenkolk, vice-almirante, e 
o ministro da Guerra, Benjamin Constant, general-de-brigada, as bandas tocaram a Marselhesa e marchas militares, sem despertar o entusiasmo da pequena multido que 
se aglomerava em frente
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ao palcio. Estabeleceu-se um clima de expectativa. No se sabe se preparado de antemo ou espontneo, veio o pedido para que fosse tocado o velho hino de Francisco 
Manuel da Silva. Serzedelo levou o apelo a Benjamin, este consultou Deodoro. Decidiu-se na hora que fosse tocado o hino e que ele continuasse como hino nacional. 
As bandas militares, como se esperassem pelo resultado, irromperam com o popular Ta-ra-ta-ta-tchin, para delrio da assistncia, segundo depoimentos de testemunhas 
oculares. Houve quem chorasse ao ouvir de novo os acordes do velho hino, caro sem dvida tambm aos militares que tinham lutado no Paraguai ao som de suas notas 
geis e alegres. Finda a cerimnia, as bandas saram pelas ruas tocando o hino, acompanhadas pela populao.28
No h registro de reao negativa  deciso de manter o hino monrquico. Se houve alguma manobra por parte de Serzedelo, ela sem dvida correspondia ao desejo popular 
e ao de boa parte dos militares, certamente dos da Marinha, que nunca foram entusiastas da Repblica. Jornalistas ligados ao governo j tinham insistido na necessidade 
de no trocar o hino, lembrando que a msica de Francisco Manuel j se enraizara na tradio popular, j se tornara smbolo da nao antes que de um regime poltico. 
Raul Pompia era dessa opinio. No acreditava em hinos de encomenda, desligados das alegrias e desespero de um povo.29
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Alm da consagrao popular, a msica de Francisco Manuel fora ainda referendada nos meios eruditos pela fantasia que sobre ela compusera Louis Moreau Gottschalk. 
O pianista de Nova Orleans chegara ao Rio em maio de 1869, depois de longo percurso pela Amrica do Sul. Precedido da fama de um virtuoso do piano, reconhecido na 
Europa, onde estudara durante onze anos, foi recebido com honras pelo imperador. Seus concertos, segundo suas prprias palavras, faziam furor na Corte. Comps logo 
uma fantasia sobre o hino brasileiro, que executava em todas as apresentaes, para delrio da platia. Lembre-se, para melhor entender a reao do pblico, que 
a guerra contra o Paraguai estava em seu ltimo ano e o esprito patritico se achava particularmente excitado.
Gottschalk, um Fitzcarraldo avant Ia lettre, planejou um concerto gigantesco com 650 msicos, nove bandas da Guarda Nacional, quatro da Marinha, duas do Exrcito, 
uma de professores de msica. Eram 55 cordas, 65 clarinetes, 60 trompetes, 60 trombones, 55 saxhorns, 50 tubas, 11 picolos etc. A cidade jamais vira algo igual. 
O pianista esgotava-se no esforo de ensaiar essa pequena multido: "Sou uma pilha voltaica sinfnica; uma mquina a vapor que virou homem. [...] Meu corao  um 
vulco, minha cabea um caos!", escreveu a amigos. A estria foi no dia 24 de novembro, em ambiente de mil-e-uma-noites, segundo um reprter. Depois de vrias obras 
de Gottschalk e outros compositores, o programa terminou com uma Marcha solene brasileira, fantasia sobre o hino nacional, acompanhada de uma salva de canho nos 
bastidores. Foi a apoteose, que teve de ser bisada. No dia seguinte,,Gottschalk quase desmaiou de esgotamento no palco e precisou ser levado para a casa. No se 
recuperou mais e morreu a 18 de dezembro, espalhando o luto pela cidade. Foi um meteoro musical que cruzou o Rio, deixando no rastro, entre outras lembranas, a 
consagrao erudita do hino de Francisco Manuel da Silva.30
O concurso do governo transformou-se ento em competio para escolher a msica do hino da proclamao da Repblica e no mais do hino nacional. A deciso foi no 
dia 20 de janeiro de 1890, no Teatro Lrico, presentes os membros do governo provisrio e uma plateia que lotava totalmente a sala. Competiam alguns dos mais importantes 
msicos da poca, como Francisco Braga, Jernimo de Queiroz, Alberto Nepomuceno e Leopoldo Miguez. Esse ltimo era diretor do Instituto Nacional de Msica.
Segundo Medeiros e Albuquerque, Rodrigues Barbosa, funcionrio do Ministrio do Interior e colaborador de Miguez na reorganizao do Instituto, providenciou uma 
claque para aplaudir a msica do diretor: encheu o teatro com amigos de Miguez. O esforo foi em parte contrabalanado pelos alunos do Instituto Profissional, onde 
ensinava Francisco Braga. Sabedores da mutreta, resolveram executar desastradamente o hino de Miguez. As duas composies foram as favoritas. O jri deu a vitria 
a Miguez, cuja composio tinha na frase inicial um compasso da Marselhesa. O governo declarou,
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ento, que a msica de Miguez seria do Hino da proclamao da Repblica (para os que no se lembram: "Liberdade, liberdade! Abre as asas sobre ns!"). Tocado novamente 
o hino vitorioso, a platia pediu o hino antigo, j agora novamente hino nacional. Segundo o reprter insuspeito de O Paiz, "A impresso que a composio de Francisco 
Manuel produziu no nosso pblico no se descreve. Foi um delrio! Se no dia 15 do corrente no se tivesse escolhido este hino, o hino nacional dos Estados Unidos 
do Brasil, seria talvez aclamado e escolhido ontem" .31
No havia como tentar mudar o velho hino sem incorrer em grande desagrado e possvel resistncia popular. A Repblica ganhou cedendo lugar  tradio. Ao hino de 
Francisco Manuel foi dada a letra de Osrio Duque Estrada, pois a letra original j estava em desuso mesmo durante a Monarquia.
A histria posterior da Repblica confirmou as razes populares do hino imperial, agora com a nova letra, popularizada como o Virundum. Em momentos de oposio aos 
governos militares, o hino serviu muitas vezes de canal para extravasar a emoo cvica de multides na praa pblica. No  outra coisa que se pede de um smbolo 
nacional: a capacidade de traduzir o sentimento coletivo, de expressar a emoo cvica dos membros de uma comunidade nacional.
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Os dois episdios aqui comentados reforam as anlises anteriores do mito do heri e da representao feminina. A Repblica brasileira,  diferena de seu modelo 
francs, e tambm do modelo americano, no possua suficiente densidade popular para refazer o imaginrio nacional. Suas razes eram escassas, profundas apenas em 
setores reduzidos da populao, nas camadas educadas e urbanas. O grosso da nao era-lhe alheio, se no hostil. Sua proclamao por iniciativa militar tambm no 
contribuiu para populariz-la. O esforo de recriar o imaginrio caa no vazio, quando no encontrava resistncia ou se prestava ao ridculo.
S quando se voltou para tradies culturais mais profundas, s vezes alheias  sua imagem,  que conseguiu algum xito no esforo de se popularizar. Foi quando 
apelou  Independncia e  religio, no caso de Tiradentes; aos smbolos monrquicos, no caso da bandeira;  tradio cvica, no caso do hino. Eram freqentes as 
queixas dos Repblicanos em relao  falta de capacidade do novo regime de gerar entusiasmos. Em maio de 1890, um deles escrevia na Revista Illustrada que, seis 
meses passados desde a proclamao, no havia moeda Republicana, no se ouvia a Marselhesa nem o hino da proclamao, quase no se via a nova bandeira. Os smbolos 
monrquicos, continuava, ainda se viam em quase todos os edifcios pblicos. O articulista apelava ao governo para que se esforasse mais por despertar o entusiasmo 
nas almas, por meio desses poderosos instrumentos de propaganda.32
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OS POSITIVISTAS E A MANIPULAO DO IMAGINRIO
Ao longo dos captulos precedentes, a presena dos positivistas ortodoxos foi constante e notria. Eles se envolveram intensamente em todas as batalhas simblicas 
aqui discutidas: as do mito de origem, do heri, da alegoria feminina, da bandeira. S no se manifestaram no caso do hino, talvez por concordarem com a soluo 
adotada. Constituram, sem dvida, o grupo mais ativo, mais beligerante, no que diz respeito  tentativa de tornar a Repblica um regime no s aceito como tambm 
amado pela populao. Suas armas foram a palavra escrita e os smbolos cvicos. Por eles e com eles lutaram com dedicao apostlica (seus inimigos diriam com obsesso 
de fanticos). Da merecerem ateno especial.
H pelo menos dois pontos que podem ajudar a entender sua atuao. O primeiro e mais bvio  a prpria doutrina comtista; o segundo  a concepo dos ortodoxos sobre 
a ttica poltica que deveria ser adotada no Brasil para levar adiante as reformas indicadas por Comte. Comearei pelo primeiro.

O IMAGINRIO COMTISTA
Mesmo antes do episdio do encontro com Clotilde de Vaux, em 1844, responsvel por sua "regenerao moral", o pensamento de Comte 
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j exibia elementos que no provinham simplesmente de fontes cientificas, ou positivistas, no sentido estrito do termo. A influncia de Saint-Simon, dos elementos 
utpicos de seu pensamento, no deveria ser alheia a esta tendncia que se manifestava sobretudo nas vises grandiosas de Comte sobre a evoluo da humanidade e, 
talvez, j na ambio de substituir a utopia catlica da Idade Mdia pela utopia leiga da Idade Positiva.1
Mas foi sobretudo a partir do encontro com Clotilde que Comte desenvolveu os elementos utpicos e religiosos de seu pensamento. O sentimento foi colocado em primeiro 
plano, deslocando a razo, base de sua obra anterior, para uma posio subordinada. Em vez de uma simples filosofia ou uma filosofia da histria, o positivismo comtiano 
evoluiu na direo de uma religio da humanidade, com sua teologia, seus rituais, sua hagiografia. Pretendendo ser uma concepo laica, fundia o religioso com o 
cvico, ou melhor, o cvico se tornava religioso. Os santos da nova religio eram os grandes homens da humanidade, os rituais eram festas cvicas, a teologia era 
sua filosofia e sua poltica, os novos sacerdotes eram os positivistas. Na base da nova humanidade, Comte colocou o sentimento do altrusmo, substituto da caridade 
catlica. Ainda na esteira do comunitarismo catlico, salientou as instituies de solidariedade, hierarquizando-as. Na base, ficava a famlia, seguida da ptria 
e, como culminao do processo, a humanidade.2
A guinada "clotildeana" foi indiscutvel na elaborada viso da mulher e de seu papel na evoluo social. No Cours dephilosophie, sua posio em relao  mulher 
no discrepava da viso tradicional de inferioridade em relao ao homem. Agora, misturando descobertas da biologia e vises catlico-feudais, ele terminou por afirmar 
a superioridade social e moral da mulher sobre o homem. Tal superioridade se basearia no fato de a mulher representar o lado afetivo e altrustico da natureza humana, 
ao passo que o homem seria o lado ativo e egosta. A mulher, como o demonstraria a biologia, seria o principal responsvel pela reproduo da espcie, enquanto o 
homem se prestaria mais  transformao do ambiente,  atividade industrial. Na preservao da espcie, o papel da mulher no se limitaria  reproduo, mas se daria 
especialmente na famlia, em que, como me, ela teria a responsabilidade da formao moral do futuro cidado.
Da  alegorizao da figura feminina era apenas um passo. A Virgem catlica, alegoria da Igreja, tornou-se no positivismo a Virgem-Me, alegoria da humanidade. 
Como disse o prprio Comte, "o culto ocidental da Virgem-Me [tornou-se] o prembulo espontneo da adorao universal da Humanidade. Porque o Gro-Ser realiza a 
utopia feminina fecundando-se sem assistncia alguma estranha a sua prpria constituio".3 A utopia feminina, no caso, seria a partenognese, a capacidade que teria 
a mulher de gerar filhos sem a interferncia masculina, uma evoluo que Comte acreditava poder deduzir dos avanos dos conhecimentos biolgicos de seu tempo. O 
passo seguinte foi especificar o tipo de mulher que deveria representar
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a humanidade e manifestar o desejo de que a figura de Clotilde fosse gravada nas bandeiras ocidentais. 
O dogma da superioridade do sentimento e do amor sobre a razo e a atividade aplicava-se tambm s raas e s culturas. A raa negra seria superior  branca por 
se caracterizar, como as mulheres, pelo predomnio do sentimento, ao passo que a raa branca era marcada pela razo. Os pases latinos estavam na mesma posio vantajosa 
em relao aos anglo-saxes. Representariam o lado feminino da humanidade, seriam os portadores do progresso moral, enquanto os anglo-saxes seriam o lado masculino, 
o progresso material, as cincias menos nobres. Apesar da grande importncia do progresso material, seu papel seria secundrio na evoluo da humanidade, que se 
baseava sobretudo na moral, na expanso do altrusmo. Entre os pases latinos, ainda  Comte quem fala, a Frana seria le pays central, e Paris, a cidade central. 
Os templos positivistas deveriam ser construdos voltados para Paris, assim como os templos muulmanos se voltavam para Meca.
A Repblica entrava nessa concepo como fator essencial da transio orgnica para a fase final. Ela marcaria o inicio da transio, por superar a fase metafsica 
em que elementos externos (monarquias hereditrias com base no direito divino dos reis) ainda perturbavam a evoluo humana. Repblicas deveriam ser verdadeiras 
comunidades, extenses da famlia. Comte, na esteira de Rousseau, queria repblicas que no excedessem 3 milhes de habitantes e se aproximassem do tamanho da Blgica. 
A prpria Frana deveria ser dividida em dezessete repblicas diferentes. Na fase final, o mundo contaria com quinhentas repblicas. Estas seriam as "ptrias normais", 
que o filsofo preferia chamar de "mtrias", para salientar os aspectos comunitrios e afetivos, voltando, ao mesmo tempo, ao imaginrio feminino. Da tambm a possibilidade 
de representar a ptria republicana por meio da figura da mulher.
Tendo-se afastado de Saint-Simon por criticar nele a tendncia a construir uma pardia do catolicismo, Comte acabou por fazer exatamente isso. O volume IV do Systme 
de politique positive dedica-se a descrever o novo culto. H um calendrio positivista, com treze meses, cada ms com quatro semanas, cada semana com sete dias. 
Cada ms e cada dia so dedicados a uma figura considerada importante na evoluo da humanidade. H tambm um "quadro socioltrico", em que so prescritas 81 festas 
cvicas, incluindo naturalmente uma dedicada s mulheres. O templo positivista deveria exibir a esttua da humanidade em posio central. Haveria tambm altares 
laterais, um deles dedicado s santas mulheres.
Conseqncia de tudo isso era a grande importncia atribuda aos sentimentos e  maneira de atingi-los, isto ,  expresso artstica. A esttica foi outra rea 
desenvolvida pelo comtismo aps a "renascena" clotildeana. O primeiro volume do Systme propunha-se a estabelecer, num capitulo intitulado "Aptido esttica do 
positivismo", uma teoria geral da 
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arte. Segundo a esttica positivista, a imaginao artstica deve ter por inspirao o sentimento, por base a razo, e por fim a ao. Isso significa que ela no 
poderia afastar-se da realidade definida pela cincia, ao mesmo tempo em que devia buscar afetar a poltica, mediante a idealizao dos valores e das pessoas consideradas 
modelos para a humanidade. Em suas prprias palavras, "A arte consiste sempre em uma representao ideal do que , ela se destina a cultivar nosso instinto de perfeio".4 
Trata-se de uma esttica naturalista, em que o belo se subordina a uma noo de verdade e se pe a servio do bem. Como j foi observado,  uma concepo de arte 
que no se afasta muito da de David, se deixarmos de lado questes de estilo. O estilo neoclssico revolucionrio podia dar lugar ao romntico, sem com isso quebrar 
a viso da natureza e finalidade da arte.
A TTICA BOLCHEVISTA DOS ORTODOXOS*
Os ortodoxos brasileiros basearam-se principalmente nos ensinamentos finais de Comte, salientando os aspectos religiosos e ritualsticos. Por
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essa razo, foram acusados pelos adversrios de excesso de ortodoxia, de fanatismo religioso, at mesmo de lunatismo. Ridicularizava-se, sobretudo, sua clotildolatria.5 
O que os adversrios nem sempre compreendiam era que a ortodoxia no constitua um fim em si mesmo, ela tinha uma finalidade poltica. E foi exatamente no fim poltico 
a que visavam que os brasileiros se mostraram ao mesmo tempo menos ortodoxos e mais enfticos no uso do imaginrio. To convencidos estavam de sua misso poltica 
que no seria despropositado cham-los de bolchevistas de classe mdia. A expresso faz justia  admirao que Comte manifestava pelos jacobinos, nos quais provavelmente 
via uma antecipao do sacerdcio positivista.
Com efeito, Miguel Lemos e Teixeira Mendes, os dois reconhecidos chefes da ortodoxia positivista, efetuaram uma reorientao do movimento no Brasil. Anteriormente 
a seu ingresso, dominava a corrente mais prxima de Littr, o discpulo de Comte que no aceitava a fase ps-Clotilde do mestre. Tal era a orientao de Pereira 
Barreto e da Sociedade Positivista do Rio de Janeiro. Era tambm a orientao de ambos os lderes antes de sua converso em Paris, aps contato com Pierre Laffitte, 
o chefe da corrente ortodoxa. Ao regressar ao Brasil, em 1881, Lemos buscou imediatamente assumir a direo da Sociedade, convencendo Laffitte a indic-lo para o 
posto. Sua atitude no refletia mera disputa pelo poder, era tambm uma questo de princpios. Lemos no aceitava que o chefe anterior, J. R. de
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Mendona, pudesse ser, ao mesmo tempo, positivista e senhor de escravos. Tambm no admitia que outro candidato  chefia, lvaro de Oliveira, ocupasse cargo de professor 
na Escola Politcnica, contrariando as indicaes de Comte.6
Dois anos mais tarde, em 1883, deu-se a ruptura com o prprio Lafftte, acusado pelos brasileiros de ser infiel aos ensinamentos de Comte, especialmente no que concernia 
 ocupao de cargos pblicos por positivistas. De acordo com Lafftte, a proibio s se aplicava ao sacerdcio; ela era apenas um conselho para os outros positivistas, 
isto , para os prticos. Lemos, citando o Apelo aos conservadores, respondia que a proibio se aplicava a todos os positivistas, tanto tericos quanto prticos. 
Vrios positivistas franceses, como Robinet e Dubuisson  este ltimo um amigo pessoal de Lemos , colocaram-se ao lado de Lafftte. A posio dos ortodoxos brasileiros 
parecia-lhes uma demonstrao de puritanismo, de f exagerada. De Londres, Harrison acusou os brasileiros de carolice pueril.
Aparentemente, tratava-se de fato de um excesso de rigor, de uma preocupao exagerada em seguir ao p da letra as recomendaes de Comte. A leitura da correspondncia 
de Miguel Lemos com Lafftte, depositada na Maison d' Auguste Comte em Paris, permite, no entanto, outra interpretao.7 As cartas revelam com clareza a justificativa 
poltica de sua atuao  
Pg. 134

(*) Algumas das idias desenvolvidas nesta seo foram expostas em trabalho publicado na Revista do Brasil, ano IV, n 8 (1989), pp. 50-6, intitulado A ortodoxia 
positivista no Brasil: um bolchevismo de classe mdia".

 frente dos positivistas. Miguel Lemos interpretava a realidade brasileira de maneira nada ortodoxa, e um dos resultados dessa interpretao era a maior nfase 
nana urgncia da ao poltica. Por se tratar de ponto central, cito com alguma extenso o trecho de uma das cartas, datada de 22 de agosto de 1881 (minha traduo):

Aqui [no Brasil], so as classes liberais e instrudas que faro a transformao. No temos um proletariado propriamente dito, nossa indstria  exclusivamente agrcola, 
e o trabalhador rural  o negro escravo. Isso modifica muito a situao dos positivistas brasileiros e torna-a muito diferente do que ela  em Paris e em Londres. 
L, vossa ao ainda  latente; ainda estais como que perdidos no meio dessas grandes cidades, onde procurais vos apoiar na elite do proletariado. Aqui, pelo contrrio, 
estamos em plena evidncia, pertencendo ns mesmos s classes liberais, sobre as quais agimos diretamente, todos os olhares esto voltados para ns, todos os nossos 
atos e palavras se tornam imediatamente os acontecimentos do dia. Os mundos cientifico e oficial, longe de ser como o vosso, cidadelas da reao, so aqui, ao contrrio, 
os elementos mais modificveis, e neles obtemos todos os dias adeses e simpatias. Tudo isso exige do Positivismo uma atividade extraordinria, a fim de estar preparado 
para atender s necessidades do pblico. Amanh teremos sbios, estadistas, indivduos altamente colocados, aceitando uma parte das nossas concepes, ou mesmo totalmente 
convertidos ao Positivismo. Deveremos nos mostrar  altura das circunstncias. Mas para chegar l, considerando as circunstncias indicadas acima, no precisaremos 
apenas de devotamento e atividade, mas tambm de uma organizao e uma disciplina suficientemente desenvolvidas.

Trata-se, em primeiro lugar, de uma anlise pouco ortodoxa. Comte jamais viu nas classes liberais um elemento de transformao. Alm do prprio sacerdcio, os grupos 
ou classes dos quais esperava uma ao regeneradora eram os proletrios, o patriciado e as mulheres. A nfase em um desses grupos variava de acordo com a recepo 
que encontrava. No perodo que precedeu a revoluo de 1848, o contato com alguns operrios que assistiam a seu curso sobre astronomia levou-o a ver neles os principais 
mensageiros do positivismo. Um desses operrios, Magnin, foi por ele apontado como modelo de estadista e indicado como membro do triunvirato que deveria governar 
a Frana na fase final. Os acontecimentos de 1848 demonstraram, segundo ele, que os proletrios estavam ainda por demais presos  utopia revolucionria. Voltou-se, 
ento, para o patriciado, para quem escreveu o Apelo aos conservadores (1855). Por fim, pareceu-lhe que o pblico mais receptivo seriam as mulheres catlicas. Para 
elas, principalmente,
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fora escrito O catecismo positivista.  As classes liberais (classes mdias) no tinham lugar na sociedade futura, e na Frana de sua poca lhe pareciam por demais 
atradas ou para o liberalismo ou para a esquerda revolucionria, dois exemplos de metafsica que ele abominava.
Lemos percebia que no Brasil o proletariado rural no existia politicamente e o urbano apenas comeava a formar-se. Percebia tambm que os conservadores estavam 
presos socialmente  escravido e politicamente aos princpios do liberalismo e da Monarquia representativa. As mulheres constituam um elemento acessvel, mas o 
trabalho entre elas s poderia ser de longa durao, dada a fora das tradies catlicas e patriarcais. Restavam-lhe, ento, as classes mdias, em que via elementos 
passveis de se transformar em foras do progresso. Nessas classes, salientavam-se os profissionais liberais de formao cientifica  engenheiros, mdicos, matemticos, 
professores em geral. As escolas de medicina, de engenharia e mesmo de direito eram os principais focos de contestao intelectual e poltica e de resistncia ao 
escravismo.
A posio social dos ortodoxos ajustava-se a tal interpretao. Lemos era filho de um oficial reformado da Marinha que no tinha sido capaz de pagar a educao do 
filho. Teixeira Mendes, seu alter ego, era filho de engenheiro. Os dados sobre a ocupao das 24 pessoas que assinaram a circular coletiva de 3 de dezembro de 1883, 
na qual Lemos formalizava a ruptura com Laffitte, reforam a tese.
Miguel Lemos foi excludo do clculo por estar naquele momento completamente dedicado ao sacerdcio. Depois da ruptura com Laffitte, teve de procurar emprego, tendo-o 
encontrado na Biblioteca Nacional. V-se facilmente nos dados que se tratava de indivduos muito especiais  a comear pelo fato de todos terem ocupaes urbanas. 
No havia entre eles camponeses nem proprietrios rurais. Depois, pertenciam s camadas mdias, ningum era proprietrio urbano, banqueiro ou comerciante. Finalmente
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nenhum deles fazia parte da elite poltica. Os signatrios empregados pblicos eram professores de liceu ou ocupavam cargos secundrios na administrao. Havia apenas 
dois representantes da formao tradicional da elite poltica imperial  a saber, um advogado e um juiz. O advogado no exercia a profisso, ganhava a vida como 
professor de portugus num liceu.
Deduz-se dai que os ortodoxos no eram apenas pessoas pertencentes s classes mdias. Representavam um setor especfico dessas camadas, o setor tcnico e cientfico, 
composto por mdicos, engenheiros, matemticos. Os prprios empregados pblicos eram quase todos ex-alunos das escolas de medicina e da Escola Politcnica. A elite 
poltica do Imprio, ao contrrio, era naquele momento dominada por advogados e juizes, seguidos a alguma distncia pelos proprietrios rurais.
No deixava de haver a ironia, se no contradio. A base poltica com que Miguel Lemos julgava poder contar tinha mais afinidade com o littrismo do que com o 
comtismo, ou seja, era mais prxima do Cours de philosophie do que do Systme de politique positive. Tratava-se de uma contra-elite que baseava seu poder no saber 
tcnico, no cientificismo. Lemos procurava mobiliz-la empregando os instrumentos do segundo Comte, inclusive as prticas religiosas, por lhe parecerem mais adequadas 
para formar um ncleo de ativistas homogneo e disciplinado. Os choques gerados pela contradio no se fizeram esperar. Vrios membros da Sociedade Positivista 
se afastaram, por no aceitarem a nova orientao. Entre eles, estavam lderes republicanos importantes, como Benjamin Constant e Silva Jardim.
Os atritos no se limitavam ao aspecto religioso. Tinham tambm a ver com a dificuldade de convencer os tcnicos a no aceitar as benesses do Estado. A posio de 
Comte era clara quanto a esse ponto. Ele dissera no Apelo aos conservadores que, durante a fase de transio para a sociedade normal, tanto os positivistas tericos 
quanto os prticos deveriam limitar-se  influncia consultora "mesmo quando postos de direo lhes fossem oferecidos.9 Lemos pisava aqui em terreno slido. Num 
pas em que a visibilidade do governo era grande, em que a procura do emprego pblico era intensa, em que o favor e a proteo dos amigos determinavam a ascenso 
poltica, no aceitar posies de poder era quase um ato de herosmo cvico, era a rejeio de uma prtica universal embora muito criticada. Era grande a autoridade 
moral da resultante. Os ortodoxos talvez no estivessem errados ao pensar que no Brasil o aspecto moral, isto , o fato de sua ao corresponder a suas palavras, 
a ausncia de hipocrisia, pesava muito na propaganda. Mais ainda, a aceitao de cargos pblicos, segundo Lemos, poderia tambm comprometer os positivistas, exp-los 
s bajulaes e s sedues do poder e, por conseqncia, afast-los do objetivo supremo de sua ao, que era a incorporao do proletariado  civilizao (Carta 
de 24 de maro de 1883 a Laffitte).10
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As dificuldades, no entanto, s levavam ao redobrar de esforos por parte dos ortodoxos para ganhar a adeso dos grupos mdios e o respeito do grande pblico. Est 
tambm fora de dvida que a nfase na religio tinha a ver com a percepo da fora da tradio catlica no Brasil e com a concepo de Comte de que entre os catlicos 
se encontravam os ouvintes mais receptivos. Os ortodoxos foram sempre cuidadosos em no agredir o catolicismo, em no criar incompatibilidades, se bem que no fossem 
tratados com a mesma gentileza pelos catlicos. Havia ainda o pblico feminino, que, falhando a estratgia da transformao rpida pela classe mdia, poderia tomar-se 
elemento importante. No faltaram tambm esforos de aproximao com o proletariado urbano.
Os ortodoxos no Brasil mais pareciam um grupo poltico com idias muito precisas sobre a tarefa a realizar e os meios a utilizar do que um bando de fanticos religiosos 
e loucos. Poder-se-ia mesmo dizer, forando um pouco a comparao, que propunham um bolchevismo de classe mdia, isto , um voluntarismo poltico que acreditava 
poder forar a marcha da histria pela ao de uma vanguarda poltica bem organizada, homognea, disciplinada ou, na expresso de Comte, pela ao de um ncleo fortemente 
organizado. Como no bolchevismo leninista, no havia contradio com a filosofia da histria que lhes servia de fundamento. Para o marxismo tanto quanto para o positivismo, 
a histria  governada por leis que os homens no podem modificar. Mas isso no impede que eles a possam fazer caminhar mais rpido. Nos dois casos, era na verdade 
a crena nas leis que dava aos militantes a certeza e a fortaleza de que tanto necessitavam.

MANIPULADORES DE SMBOLOS
A juno da doutrina comtista com a viso estratgica dos ortodoxos fez desses positivistas os principais manipuladores de smbolos da Repblica. Se a doutrina lhes 
dava o contedo da simbologia, a concepo estratgica impulsionava-os para a ao com maior urgncia do que a sentida pelos positivistas franceses, ou europeus 
em geral, mesmo os de convico comtiana. O Brasil se lhes apresentava como s portas de grandes transformaes, talvez mesmo de verdadeiro salto na sequncia das 
fases evolutivas. Alm disso, viam-se em posio privilegiada para apressar a marcha da histria. Da se terem lanado  doutrinao poltica com convico e energia 
de apstolos.
Se a ao tinha de se basear no convencimento, impunha-se o uso dos smbolos. Em primeiro lugar, sem dvida, a palavra escrita e falada. Dela fizeram uso abundante 
em livros, jornais, publicaes da Igreja, conferncias pblicas. Era sua arma principal de convencimento dos setores mdios. Mas empregaram tambm o simbolismo 
das imagens e dos rituais, especialmente
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tendo em vista dois pblicos estratgicos, as mulheres e os proletrios, menos afetos, ao menos no Brasil,  palavra escrita. Atingir esses dois pblicos, convenc-los 
da verdade da doutrina, era condio indispensvel ao xito final da tarefa que se impunham. A briga pelas imagens adquiria importncia central.
A presena de um positivista como Benjamin entre os proclamadores da Repblica fora um golpe de sorte, mas cairia no vazio se a propaganda no levasse adiante a 
tarefa do convencimento. Da a luta incansvel dos ortodoxos pelo corao e pela cabea dos cidados, por meio da batalha dos smbolos. Da sua luta pelos monumentos, 
pelo mito de Tiradentes, pela bandeira republicana, pela figura feminina. Sua ao lembrava a de todos os revolucionrios modernos, desde David at o realismo socialista.
As mesmas condies sociais que levaram os ortodoxos a acreditar que o papel de protagonista poltico caberia s classes educadas fizeram com que sua influncia 
maior fosse exercida sobre as elites. Mas, nos casos em que sua ao poltica encontrou apoio nas tradies populares, cabe-lhes o mrito de ter contribudo de maneira 
substantiva para a construo do pouco que subsistiu de imaginrio republicano.
Pg. 140
CONCLUSO
Falharam os esforos das correntes republicanas que tentaram expandir a legitimidade do novo regime para alm das fronteiras limitadas em que a encurralara a corrente 
vitoriosa. No foram capazes de criar um imaginrio popular republicano. Nos aspectos em que tiveram algum xito, este se deveu a compromissos com a tradio imperial 
ou com valores religiosos. O esforo despendido no foi suficiente para quebrar a barreira criada pela ausncia de envolvimento popular na implantao do novo regime. 
Sem raiz na vivncia coletiva, a simbologia republicana caiu no vazio, como foi particularmente o caso da alegoria feminina.
No por acaso, o debate mais vivo gira ainda hoje em torno do mito de origem e das utopias republicanas.  um debate ideolgico e historiogrfico, limitado ao pequeno 
circulo dos beneficirios do regime. Mesmo a transparece o carter inconcluso da Repblica: em seus cem anos de vida, ela no foi mesmo capaz de estabelecer um 
consenso mnimo entre seus adeptos. As alternativas colocadas nos primeiros dias ainda parecem a muitos desejveis e factveis. Se o modelo liberal-democrtico ganha 
foras, ainda permanecem vivos fortes bolses jacobinos, e traos positivistas ainda se agarram tenazmente aos flancos da Repblica. Nem mesmo h segurana de que 
a moderna viso do deodorismo esteja definitivamente morta.
A falta de uma identidade republicana e a persistente emergncia de vises conflitantes ajudam tambm a compreender o xito da figura de heri personificada em Tiradentes. 
O heri republicano por excelncia  ambguo multifacetado, esquartejado. Disputam-no vrias correntes; ele serve  direita, ao centro e  esquerda. Ele  o Cristo 
e o heri cvico;  o mrtir e o libertador;  o civil e o militar;  o smbolo da ptria e o subversivo. A iconografia reflete as hesitaes. Com barba ou sem barba, 
com tnica ou de uniforme, como condenado ou como alferes, contrito ou rebelde:  a batalha por sua imagem, pela imagem da Repblica.
Ele se mantm como heri republicano por conseguir absorver todas essas fraturas, sem perder a identidade. A seu lado, apesar dos desafios que surgem nas novas correntes 
religiosas, talvez seja ainda a imagem da Aparecida
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a que melhor consiga dar um sentido de comunho nacional a vastos setores da populao. Um sentido que, na ausncia de um civismo republicano, s poderia vir de 
fora do domnio da poltica. Tiradentes esquartejado nos braos da Aparecida: eis o que seria a perfeita piet cvico-religiosa brasileira. A nao exibindo, aos 
pedaos, o corpo de seu povo que a Repblica ainda no foi capaz de reconstituir.
Pg. 142

NOTAS
INTRODUO (pp. 9-15)
(1) Ver Jos Murilo de Carvalho, Os bestializados. O Rio de Janeiro e a Repblica que no foi.

(2) Sobre imaginrio social, ver Bronislaw Baczko, Les imaginaires sociaux. Mmoirs et espoirs collectifs.

(3) Sobre a importncia dos mitos polticos, ver Raoul Girardet, Mitos e mitologias polticas.

(4) Citado em Baczko, Les imaginaires sociaux, p. 54.

(5) Sobre David, ver Marie-Cathrine Sahut e Rgis Michel, David. L 'art et le politique.

(6) O relatrio vem reproduzido em Joshua C. Taylor (ed.), Nineteenth-century theories of art, pp. 44-5.

(7) Ver depoimento feito a O Paiz, 20/11/1912.

(8) A propsito da saudao "Sade e Fraternidade", houve na poca uma polmica semntica. Os crticos do positivismo ortodoxo, e havia numerosos deles, argiram 
"que era traduo malfeita do francs Salut et Fraternit. O correto, segundo eles, seria dizer Saudao e Fraternidade". Para a resposta dos positivistas que justifica 
sua traduo, ver Raimundo Teixeira Mendes, A bandeira nacional, pp. 18-9.

(9) Les imaginaires sociaux, p. 54.

(10) Sobre a dupla imagem de Lincoln, ver David Donald, "The folklore Lincoln", in Nicholas Cords e Patrick Gerster (eds.), Myth and the American experience, vol. 
II, pp. 43-54.

(11) Ver, sobre o assunto, E. N. Whittlesey, Symbois and legends in Westem art. A museum guide.

1. UTOPIAS REPUBLICANAS (pp. 17-33)
(1) Ver Benjamin Constant, De Ia liberte chez Les modernos, textes choisis, prsents et annots par Marcel Gauchet, pp. 491-515.

(2) Para o exame do pensamento dos fundadores da Repblica Americana, servi-me do livro de Gerald Stourzh, Alexander Hamilton and the idea of republican government.

(3) O conceito de pouvoir royal foi desenvolvido em Principles de politique, publicado em 1819, includo na seleo de Marcel Gauchel citada acima.
Pg. 143
(4) Para a discusso da idia de repblica na Frana, utilizei o excelente trabalho de Claude Nicolet, L'ide rpublicaine en Franco (1789-1924). As relaes entre 
o positivismo e a Terceira Repblica so discutidas no captulo IV dessa obra.

(5) At hoje, a melhor discusso sobre conceito de representao, e de que aqui meservi,  a de Hanna Fenichel Pitkin, The concept of representation.

(6) Ver Barrington Moore, Jr., As origens sociais da ditadura e da democracia. Senhores e camponeses na construo do mundo moderno.

(7) A influncia do direito administrativo francs  transparente no principal livro escrito no Imprio sobre a organizao poltica. Trata-se do Ensaio sobre o 
direito administrativo, do visconde de Uruguai. As contradies da poltica francesa permitiam que a influncia desse pais se desse tanto sobre os radicais como 
sobre os conservadores. O visconde de Uruguai era o principal pensador do conservadorismo monrquico.

(8) Sobre o positivismo no Rio Grande do Sul, ver Paulo Carneiro (org.), Idias polticas de Jlio de Castilhos.
(9) Ver a discusso desse tema em J. G. A. Pocock, "Civic humanism and its role in Anglo-American thought", in J. G. A. Pocock, Politics, language and time, pp. 
80-103.

(10) Retomo aqui parte da discusso feita em Jos Murilo de Carvalho, Os bestializados. O Rio de Janeiro e a Repblica que no foi, pp. 140-60. Ver Edmond Demoulins, 
A quoi tient Ia supriorit des Anglo-saxons; Alberto Sales, "Balano poltico  necessidade de uma reforma constitucional", O Estado de S. Paulo, 18/7/1901 e 25/7/1901; 
Slvio Romero, O Brazil social.

(11) Anbal Falco, Frmula da civilizao brasileira.

(12) Richard M. Morse, O espelho de Prspero. Cultura e idias nas Amricas.

  (13) Ver Alberto Torres, A organizao nacional, p. 297.

2. AS PROCLAMAES DA REPBLICA (pp. 35-54)
(1) Ver Tobias Monteiro, Pesquisas e depoimentos para a histria, p. 6.

(2) Blondel a Spuller, Rio de Janeiro,,4/1/1890. Quai d'Orsay, Correspondance politique, Brsil, 1871-1896.

(3) Os Fonseca formavam um verdadeiro cl dentro do Exrcito. Deodoro no tinha filhos, mas abundavam irmos e sobrinhos. Entre os parentes que tiveram alguma atuao 
na conspirao republicana, estavam seus irmos Pedro Paulino, coronel honorrio, Joo Severiano, general-mdico, e o marechal Hermes Ernesto, comandante das armas 
na Bahia e contrrio ao movimento. Os mais atuantes foram os sobrinhos, entre os quais o capito Hermes, genro de Pedro Paulino e futuro presidente da Repblica, 
os capites Perclio, Mrio Hermes e Pedro Paulo e o tenente Clodoaldo. O capito Pedro Paulo estava dentro do Quartel-General a 15 de novembro e, segundo algumas 
verses, teria aberto os portes para a entrada do tio.

(4) Ver Ernesto Senna, Deodoro: subsdios para a histria, p. 119. Das reunies resultou o opsculo Quinze de novembro. Contestao a Suetnio (1898). Suetnio era 
o pseudnimo do autor de uma verso sobre o 15 de novembro considerada favorvel a Quintino Bocaiva.

(5) Ver o longo depoimento de Sebastio Bandeira em Ernesto Senna, Deodoro. A citao est na p. 90.

(6) Ver Ernesto Senna, Deodoro, p. 20.

(7) Ver R. Magalhes Jnior, Deodoro. A espada contra o Imprio, vol. II, pp. 48-9. Ver tambm o depoimento do j ento general Hermes ao Jornal do Commercio, 15 
de novembro de 1903.

(8) Ver depoimento de Serzedelo Correia ao Jornal do Commercio, 26 de novembro de 1903. A importncia da doena do imperador para a derrocada da Monarquia, desde 
a
Pg. 144
Questo Militar,  salientada por Wanderley Pinho em "A Questo Militar e a Repblica", Revista do Brasil, ano II n 17 (novembro, 1939), pp. 23-30.

(9) Ver depoimento do major Roberto Trompowsky ao Jornal do Commercio, 26 de novembro de 1889. Trompowsky foi o mensageiro de Saraiva.

(10) Ver Magalhes Jnior, Deodoro, p. 49.

(11) Ver R. Teixeira Mendes, Benjamin Constant. Esboo de uma apreciao sinttica da vida e da obra do fundador da Repblica brasileira. Outro representante ilustre 
da corrente Benjamin Constant  Vicente Licnio Cardoso. Consulte-se seu capitulo sobre Benjamin na coletnea que organizou,  margem da histria da Repblica, 2 
ed., t. II, pp. 81-94.

(12) Segundo testemunho de Medeiros e Albuquerque em Quando eu era vivo, pp. 104-5.

(13) Sobre o jacobinismo, ver Suely Robles Reis de Queiroz, Os radicais da Repblica. Jacobinismo: ideologia e ao, 1893-1897.
(14) Ver R. Teixeira Mendes, Benjamin Constant, pp. 536-8. Concepo semelhante  do monumento tinha o projeto de um quadro a leo de Eduardo de S sobre a proclamao 
da Repblica. Nele, Benjamin aparece como figura central e elo final da cadeia que comea com Tiradentes e passa por Jos Bonifcio. A Repblica aparece ligada tambm 
 humanidade. O quadro aparentemente no foi completado. Ver O Paiz, 15 de novembro de 1899.

(15) Sobre o monumento a Floriano Peixoto, ver A. R. Gomes de Castro, O monumento a Floriano por Eduardo de S. O major Gomes de Castro, positivista e florianista, 
era o presidente da comisso de construo do monumento. O comentrio de Francisco de Assis Barbosa est no prefcio que escreveu para a segunda edio do livro 
de Srgio Correia da Costa, A diplomacia do marechal, p. XIX.

(16) Para um exemplo das crticas ao monumento, ver O Paiz, 10 de maio de 1904. O editorial do jornal de Quintino Bocaiuva censura a comisso por impor limitaes 
aos escultores que concorreram com projetos para o monumento. Resultaram projetos malfeitos, sem originalidade, ridiculamente complicados e censura velmente partidrios. 
Segundo o editorialista, levantar tal monumento seria 'darmos ao mundo culto um triste atestado de fanatismo e incorrermos perante ns mesmos num tristssimo ridculo". 
Mas, aps batalha de seis anos, o monumento foi erguido como o desejavam a comisso e o major.

(17) Ver O monumento a Jlio de Castilhos, folheto publicado pelo governo do Rio Grande do Sul, em que Eduardo de S expe as teorias estticas do positivismo e 
descreve a concepo da obra. Ver tambm Gomes de Castro, O monumento a Floriano, pp. 9-35.

(18) Ver Eduardo Silva (org.), Idias polticas de Quintino Bocaiuva, vol. 1, p. 643.

(19) Ver Coleo Saldanha Marinho, Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, 41-1-59,12P vol., ff. 122-5.

(20) Ibid., 41-1-61, 14 vol., f. 45, carta de Saldanha Marinho a Francisco Glicrio de 3 de outubro de 1888.

(21) Ver nota 20.

(22) Ver entrevista de Aristides Lobo em Tobias Monteiro, Pesquisas e depoimentos, pp. 199-213. Tambm Idias polticas de Quintino Bocaiuva, vol. 1, p. 645.

(23) Ver Tobias Monteiro, Pesquisas e depoimentos, p. 211. Ver ainda Lencio Correia, A verdade histrica sobre o 15 de novembro, pp. 85, 256, 262. A frase do capito 
Mrio Hermes est em Deodoro e a verdade histrica, pp. 151-3. Talvez por causa dessa hesitao, os vencedores proclamaram provisoriamente o regime republicano, 
 espera de que uma consulta popular decidisse sobre a forma definitiva de governo.

(24) Ver M. E. de Campos Porto. Apontamentos para a histria da Repblica dos Estados Unidos do Brasil, p. XIII.

(25) Ver depoimento de Arthur Azevedo em O Paiz, 17 de novembro de 1902.

(26) Ibid.

(27) Anais da Assembleia Constituinte, 1891, vol. II, pp. 637-50, e vol. III, pp. 293-4.

(28) O episdio  narrado em Ernesto Senna, Deodoro, p. 106.
Pg. 145
(29) Sobre os militares na dcada de 30, ver Jos Murilo de Carvalho, Foras Armadas e poltica, 1930-1945", em A Revoluo de 30. Seminrio internacional, pp. 
109-50. Agradeo ao professor Mrio Barata a informao sobre a transferncia da esttua de Benjamin Constant.

(30) O potencial de gerar controvrsia ficou claro no Congresso Nacional de Histria da Propaganda, Proclamao e Consolidao da Repblica no Brasil, organizado 
pelo Instituto Histrico e Geogrfico em novembro de 1989. Repetiram-se, s vezes quase literalmente, as posies e argumentos de cem anos atrs. Os trabalhos do 
Congresso devero ser publicados em anais.
3. TIRADENTES: UM HERI PARA A REPBLICA (pp. 55-73)
(1) Ver Eduardo Prado, Fastos da ditadura militar no Brasil, p. 287. Medeiros e Albuquerque confirma a personalidade pouco militar de Benjamin Constant. Era de 
uma extrema meiguice", simptico e suave no falar. Introspectivo e distrado, tinha muitas vezes "o aspecto de um sonmbulo". Ver Medeiros e Albuquerque, Quando 
eu era vivo, pp. 109-13.

(2) A sobrevivncia do florianismo no imaginrio popular do Rio de Janeiro foi detectada e analisada com inteligncia por Maria Helena Cabral de Almeida Cardoso 
em A herana arcaica do jacobinismo", trabalho apresentado ao Congresso Nacional de Histria da Propaganda, Proclamao e Consolidao da Republica no Brasil, IHGB, 
Rio de Janeiro, novembro de 1989.

(3) O cmico aparece em Mendes Fradique na sua Histria do Brasil pelo mtodo confuso. Em um imaginado julgamento de d. Pedro II, a personagem Brasil dorme o tempo 
todo. Ao final, acorda e ainda meio tonta pergunta: "Que bicho deu?". "Deodoro", lhe respondem (p. 168).

(4) Tiradentes continua at hoje sendo a figura que mais se aproxima da condio de heri nacional, num pas em que os heris so frequentemente desprezados, seno 
ridicularizados. Uma indicao da plausibilidade dessa hiptese est no livro de Paulo Miceli, O mito do heri nacional, pp. 22-5. Segundo pesquisa desse autor, 
Tiradentes  o heri preferido entre estudantes do primeiro e segundo graus.

(5) A informao consta do trabalho de Hlio Moro Mariante, 'Revoluo de 1893, apresentado ao Congresso Nacional de Histria da Propaganda, Proclamao e Consolidao 
da Repblica no Brasil, IHGB, novembro de 1989.

(6) Ver Memria do xito que teve a conjurao de Minas e dos factos relativos a ella acontecidos nesta cidade do Rio de Janeiro desde o dia 17 at 26 de abril 
de 1792", Revista do IHGB, vols. 62-3, t. 44 (1881), pp. 140-60. Os enforcamentos no Rio de Janeiro eram, em geral, ocasio de grande excitao e prazer populares. 
A tristeza causada pela execuo de Tiradentes foi exceo. Veja-se sobre enforcamentos Mello Moraes Filho, Festas e tradies populares do Brasil, pp. 218-24.

(7) Ver "ltimos momentos dos inconfidentes de 1789 pelo frade que os assistiu de confisso". Revistado IHGB, vol. 62-3, t. 44(1881), pp. 161-86.

(8) As queixas so do prprio Joaquim Silvrio dos Reis em carta a Martinho de Melo e Castro, segundo informao de Augusto de Lima Jnior em suas Notcias histricas, 
citado por Waldemar de Almeida Barbosa em A verdade sobre Tiradentes, p. 59. Outro denunciante da conjurao, o coronel portugus Baslio de Brito, em carta-testamento 
de 1806, admite que "todo povo de Minas e mesmo do Brasil me concebeu implacvel dio'' e teme morrer assassinado. Ver Eduardo Machado de Castro, "A Inconfidncia 
Mineira. Narrativa popular", Revista do Arquivo Pblico Mineiro, ano VI, fase. I (janeiro a maro, 1901), p. 1145.

(9) Ver documento encontrado na Biblioteca Pblica de vora, reproduzido em parte por Waldemar de Almeida Barbosa em A verdade sobre Tiradentes, pp. 35-6. O documento, 
uma carta, diz ainda que algumas famlias saram de Vila Rica, que * 'fbricas grandes de minenerao
Pg. 146
se derrotaram", que os homens mais doutos e necessrios se tornaram civilmente mortos. Testemunha ocular da partida dos "prisioneiros da rainha" de Vila Rica para 
o Rio de Janeiro tambm registra o fato de que "uma tristeza geral cobriu a vila", as ruas ficaram desertas, as casas fechadas. Ver Eduardo Machado de Castro, "A 
Inconfidncia Mineira", p.1113.

(10) Richard Burton, Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho.

(11) Jos Antnio Marinho, Histria da Revoluo de 1842, p. 42. A carta do padre Manuel Rodrigues da Costa vem transcrita nas pginas 71 a 73 desse livro, cuja 
primeira edio  de 1844.

(12) Robert Southey, Histria do Brasil, tomo VI, cap. XLIII. Veja tambm Revista do IHGB, t. VIII (1846), pp. 297-310.
(13) Charles Ribeyrolles, Brasil pitoresco, pp. 47-95.

(14) Castro Alves, "Gonzaga ou a revoluo de Minas", em Obras completas, pp. 579-661. A primeira edio da pea  de 1875. Os inconfidentes de Castro Alves falavam 
j da Revoluo Francesa, que ainda no acontecera, e cantavam a Marselhesa, que s seria composta em 1792.

(15) Pedro Lus Pereira de Sousa, "O Tiradentes", em Tiradentes. Homenagem ao primeiro mrtir da liberdade, 21 de abril de 1888.

(16) Sobre os incidentes de 1893, ver O Paiz de 19, 20 e 21 de abril daquele ano, o Jornal do Brasil de 20 de abril e o Jornal do Commercio da mesma data. Sobre 
o Palcio Tiradentes, ver Livro do centenrio da Cmara dos Deputados (1826-1926). O monumento construdo em Ouro Preto data de 1894. Os documentos do Clube Tiradentes, 
hoje no Museu Histrico Nacional, tambm fornecem rico material sobre a luta pela memria do heri.

(17) Ver Joaquim Norberto de Sousa Silva, Histria da Conjurao Mineira. As explicaes de Norberto sobre as razes de ter apressado a publicao da obra e de se 
ter oposto  construo do monumento encontram-se em seu artigo "O Tiradentes perante os historiadores oculares de seu tempo". Revista do IHGB, vol. 62-3, t. 44 
(1881), pp. 131-9. A citao est na p. 138. Norberto ironiza as comemoraes do martrio de Tiradentes, dizendo que seriam gratas ao conde de Rezende.  o mesmo 
que ironizar as celebraes crists da paixo de Cristo alegando que seriam gratas a Ans e Caifs.

(18) As primeiras reaes apareceram na imprensa republicana. Norberto menciona,  sem fornecer referncia completa, artigos em A Repblica e em A Reforma, esse ltimo 
assinado por "Um Mineiro". Menciona ainda artigo de Aristides Maia em A Repblica, rgo do Clube Republicano Acadmico de So Paulo. Em 1901, saiu a critica de 
Eduardo Machado de Castro, texto j citado, que foi escrito em 1896. A batalha foi retomada em 1922 por Lcio Jos dos Santos, em trabalho apresentado ao Congresso 
de Histria Nacional promovido pelo Instituto Histrico. Por essa mesma poca, Assis Cintra retomou as posies de Norberto. Mais recentemente, o livro de Waldemar 
Almeida Barbosa, tambm j referido, voltou a atacar Norberto com virulncia. O prefcio de Lcio Jos dos Santos diz abertamente que o objetivo do autor  acabar 
com as mistificaes de Norberto, o qual quis denegrir ou apagar a figura excepcional do alferes Joaquim Jos". O autor usa expresso ainda mais forte: Norberto 
procurou "achincalhar a figura de Tiradentes". Ver A verdade sobre Tiradentes, pp. 7, 17. Consulte-se tambm o captulo XIII dessa obra para um exame da influncia 
de Norberto sobre os autores que vieram depois, ai includos Capistrano de Abreu, Joo Ribeiro e Pedro Calmon, entre outros. Augusto de Lima Jnior e Waldemar de 
Almeida Barbosa fizeram-se tambm defensores da representao de Tiradentes como alferes e imberbe, para contrastar com a figura mstica apresentada em Joaquim Norberto. 
A corrente antitiradentes  representada hoje por Srgio Faraco. Ver seu Tiradentes. A alguma verdade (ainda que tardia).

(19) "O Tiradentes perante os historiadores", p. 132.

(20) Citado em "Advertncia"  Histria da Conjurao Mineira, p. VII. Em defesa dessa afirmao, poder-se-ia alegar que era a maneira encontrada pelo aulicismo 
de justificar perante d. Pedro II o tratamento de assunto to delicado.
Pg. 147
(21) O Tiradentes perante os historiadores", p. 131.

(22) As reaes foram registradas por Norberto em "O Tiradentes perante os historiadores ". Muitas se deviam, sem dvida, ao fato de no terem os opositores de Norberto 
tido acesso aos documentos por ele usados. Mas o importante aqui  a admisso, tambm por parte dos republicanos, secundando Norberto, de que o mstico diminua, 
se no anulava, o patriota.

(23) Veja Joo Pinheiro, Antnio Olinto e Nicsio Machado, "Minas Gerais", O Tiradentes, ano VII (1888).

(24) O Paiz, 21/4/1890.

(25) Herculano Gomes Mathias pediu a vinte escolares que identificassem a figura representada no desenho de Dcio Viliares. Treze disseram tratar-se de Cristo; cinco 
viram nele Tiradentes; um, Felipe dos Santos; um, Antnio Conselheiro. Ver Herculano Gomes Mathias, Tiradentes atravs da imagem, p. 29.

(26) Ver "Tiradentes", O Paiz, 21/4/1896.

(27) As celebraes de Tiradentes em 1902 adquiriram especial brilho. No dia 18 de abril, 3 mil pessoas, segundo O Paiz, assinaram a ata de tomada de posse pela 
prefeitura do terreno em que se deveria construir o monumento a Tiradentes. Na ocasio, foi inaugurado o quadro de Eduardo de S intitulado A confirmao da sentena. 
Na festa do dia 21, foi executada a protofonia de O guarani e um hino a Tiradentes, msica do maestro Francisco Flores e letra de Lus Delfino. O editorial de O 
Paiz do dia 19 refere-se a Tiradentes como heri e mrtir que no culto republicano  um semideus. Mas na mesma ocasio (O Paiz de 21 de abril) artigo de Feliz Bocaiuva 
intitulado Os olvidados'' anota as mudanas na natureza das solenidades. As celebraes, segundo Bocaiuva, esto sendo apropriadas pelos arrivistas. Os republicanos 
da propaganda, dos tempos hericos, os que levantaram o ideal de Tiradentes e so seus legtimos sucessores, esto sendo postos  margem, esto sendo esquecidos 
"nas liturgias cvicas do patriotismo". Talvez porque sejam tempos em que, segundo o autor, a Repblica arrasta pela lama a asa branca e impoluta dos ideais.

(28) Jos Pereira de Arajo, Tiradentes, publicao avulsa do Centro Positivista, 1884.

(29) Ver visconde de Taunay, "O Tiradentes e ns, monarquistas", em Imprio e Repblica, pp. 5-15.

(30) Ubaldino do Amaral, "Tiradentes", discurso na comemorao do 102 aniversrio do suplcio de Tiradentes, em 21/4/1894, no salo do Ginsio Nacional.

(31) Ver Viriato Correia, Tiradentes. Comdia histtca em trs aios e sete quadros.

(32) Curiosamente, o governo militar no quis adotar a representao proposta por Walsht Rodrigues, apesar da presso de crticos de Joaquim Norberto, como Augusto 
de Lima Jnior. Decreto de 1966, complementando a lei de 1965, mandou usar como modelo nas representaes de Tiradentes a ser colocadas nas reparties pblicas 
a esttua do Palcio Tiradentes, escultura de Francisco Andrade. A esttua  um compromisso entre as verses cvica e religiosa. O inconfidente a aparece de alva 
a caminho da forca mas, ao mesmo tempo, mantm atitude desafiadora e rebelde.

(33) Ver Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri, Arena canta Tiradentes. Cabe observar que a Inconfidncia em geral, e Tiradentes em particular, constitui um dos 
temas que mais tm inspirado os artistas brasileiros, uma indicao poderosa da atrao exercida sobre a imaginao nacional. So romancistas, poetas, teatrlogos, 
msicos, artistas plsticos, cineastas. No sculo passado, salientaram-se Bernardo Guimares, Castro Alves, Pedro Lus, Pedro Amrico, Dcio Villares, Antnio Parreiras. 
Mais recentemente, Portinari, Glauco Rodrigues, Ceclia Meirelles, Gilberto de Alencar, Autran Dourado, Joaquim Pedro de Andrade. A arte erudita alia-se a arte popular, 
do cordel ao samba-enredo. Quem no se lembra da Imprio Serrano cantando Mano Dcio da Viola: "Joaquim Jos da Silva Xavier/ Morreu a 21 de abril/ pela independncia 
do Brasil/ Foi trado e no traiu jamais/ a Inconfidncia de Minas Gerais ?".
Pg. 148

4. REPBUCA-MULHER: ENTRE MARIA E MARIANNE (pp. 75-96)
(1) Aqui, sigo de perto o excelente trabalho de Maurice Agulhon, Marianne au com bat. L'imagerie et Ia symbolique republicaines. A citao est na p. 2. Ver tambm, 
do mesmo autor, Esquisse pour une archologie de Ia Republique: I' allgorie civique fminine,  Annales ESP, 28 (1973), pp. 5-34.

(2) Sobre o concurso de 1848, e tambm sobre Delacroix e Daumier, ver T. J. Clark, The absoluto bourgeois. Artists andpolitics in France, 1848-1851.

(3) Agulhon, Marianne au combat, p. 164.

(4) A passagem da mulher nua para o homem de tronco nu na simbologia do movimento popular  discutida por Eric J. Hobsbawm em homem e mulher: imagens da esquerda, 
captulo de Mundos do trabalho. Novos estudos sobre histria operria, pp. 123-47.

(5) Ver Hippolyto da Silva, Humorismo da propaganda republicana, p. 2. "Matar? Sim!", diz Silva Jardim em relao ao conde D'Eu em discurso de fevereiro de 1888. 
Ver Antnio da Silva Jardim, Propaganda republicana (1888-1889), p. 85.

(6) Ver lvaro Cotrim (Alvarus), O 15 de novembro na imprensa ilustrada". Jornal do Brasil, 15/11/1973. Ver tambm a excelente Histria da caricatura no Brasil, 
de Herman Lima, que me foi de grande utilidade.

(7) Agradeo a Cludio Veiga, presidente da Academia de Letras da Bahia, o acesso  foto e as informaes sobre o quadro e pintor.

(8) A viso comtiana da mulher, fielmente incorporada pelos positivistas ortodoxos no Brasil, pode ser encontrada em R. Teixeira Mendes, A mulher. Sua preeminncia 
social e moral segundo os ensinamentos da verdadeira cincia positiva. Trata-se de conferncia pronunciada por Teixeira Mendes em 27 de novembro de 1908.

(9) As idias estticas positivistas foram expostas pelo prprio Eduardo de S no folheto O monumento a Jlio de Castilhos.

(10) Ver tambm as figuras femininas no altar-mor das capelas da humanidade no Rio de Janeiro e na casa de Clotilde em Paris. A primeira  de Dcio Viliares, a segunda 
de Eduardo de S. Ambas reproduzem claramente os traos fisionmicos de Clotilde.

(11) Sobre a poltica artstica e as primeiras exposies de arte aps a proclamao da Repblica, ver Donato Mello Jr., As primeiras exposies de belas-artes 
na Repblica", trabalho apresentado ao Congresso Nacional de Histria da Propaganda, Proclamao e Consolidao da Repblica no Brasil, IHGB, novembro de 1989. Sobre 
a Constituio, ver os quadros de Aurlio de Figueiredo, O compromisso constitucional, e E. Visconti, A Constituio de 1891.

(12) Agradeo a Francisco de Assis Barbosa ter chamado a minha ateno para esse episdio. A denncia de Fausto Cardoso pode ser encontrada nos Anais da Cmara dos 
Deputados, vols. 5 e 6, 1900, pp. 62, 144, 145. Ao discursar, o orador exibia a nota do Tesouro com o retrato. A reproduo da cdula encontra-se no livro Cdulas 
brasileiras da Repblica. Emisses do Tesouro Nacional, p. 19, publicado pelo Banco do Brasil. Trata-se da estampa de nmero 9, de 1900. Segundo informao constante 
do livro, a estampa baseia-se em quadro do austraco Conrado Kiesel, intitulado Saudade, representando uma brasileira que conheceu em Viena.

(13) Ver Coelho Netto, Fogofdtuo, pp. 229-38.

(14) Ver Mendes Fradique, Histria do Brasil pelo mtodo confuso, pp. 153-8. Agradeo a Isabel Lustosa a indicao dessa referncia.

(15) Sobre o uso j meio mitificado das figuras da heroina de Saint-Milhier e da cidad Bourgougnoux plos pintores do salo do ano II, ver Claude Langlois, Les 
drives vendennes de I'imaginaire rvolutionnaire", Annales ESC, 3 (mai-juin, 1988), pp. 771-97. Sobre o papel real das mulheres na Revoluo, ver Lesfemmes et 
Ia Rvolution, 1789-1794, apresentao de Paule-Marie Duhet.
Pg. 149
(16) Poder-se-ia perguntar por que David no representou a Repblica inspirando-se em algumas das heroinas da poca. Quando quis usar a figura feminina, recorreu 
seja a modelos vivos, como na festa do Ser Supremo, seja a exemplos da Antiguidade, como em As mulheres sabinas. A razo poderia ser suas convices estticas neoclssicas. 
Mas tais convices no o impediram de pintar a antolgica Morte de Marat. Talvez, como a outros revolucionrios, lhe fosse incmoda a atuao concreta das mulheres 
na Revoluo.

(17) Ver Esther de Viveiros, Rondou conta sua vida, pp. 53-4, 58.

(18) O adolescente Di Cavalcanti relata sua surpresa ao ver o retrato do imperador no quarto de uma prostituta, j na Repblica. Citado em Eduardo Silva, As queixas 
do povo pp. 61-4.

(19) Ver Gilberto Freyre, Ordem e progresso, tomo I, pp. VIII, 21-4.

(20) Sobre o culto de Nossa Senhora Aparecida e suas conotaes polticas, ver Rubem Csar Fernandes, "Aparecida: nossa rainha, senhora e me, sarav!", em Viola 
Sachs et al., Brasil e EUA: religio e identidade nacional. Ver tambm Mrio Carelli, "Quelques rflexions autour de l'indefinition de l'allgorie fminine du Brsil", 
trabalho apresentado no colquio Identit Nationale, Genre, Expression Culturelle: une Comparaison entre les tatsUnis et l Brsil.

(21) Para uma histria da pintura no Brasil, pode-se consultar Quirino Campofiorito, Histria da pintura brasileira no sculo XIX.

(22) Maria Cristina Castilho Costa, em sua tese de mestrado, 0 retrato feminino na pintura brasileira, 1800-1950" (USP, 1985), v uma mudana na viso da mulher. 
Os retratos, de estilo mais realista na primeira metade do sculo, adquirem traos romnticos na segunda metade, quando so salientadas as caractersticas de fragilidade, 
doura e submisso.

(23) Para tentativa de resposta, ver Mrio Carelli, "Quelques rflexions", citado acima. Rarssimo exemplar de representao da nao como ndia pode ser encontrado 
na Revista Illustrada, n? 577, 8/2/1890.

(24) Sobre as mulheres do Rio de Janeiro vistas por viajantes estrangeiros, ver Mriam Lifchitz Moreira Leite, A mulher no Rio de Janeiro no sculo XIX. A idealizao 
da mulher pelos escritores masculinos  discutida por Maria Thereza Caiuby Crescenti Bernardes em Mulheres de ontem ? Rio de Janeiro  sculo XIX.

(25) O Paiz, 13/11/1902.

5. BANDEIRA E HINO: O PESO DA TRADIO (pp. 109-128)
(1) Sobre o episdio, ver Ernesto Sena, Deodoro: subsdios para a histria, pp. 53-4.

(2) Sobre a bandeira tricolor dos franceses, ver Raoul Girardet, Les trois couleurs, niblanc, ni rouge", in Pierre Nora (org.). Les lieux de mmoire, vol. I, La 
Rpublique, pp.5-35.

(3) Ver a srie de depoimentos sob o titulo Uma dvida histrica: a bandeira da revoluo de 1889". O depoimento do capito Souza Barros saiu no dia 20 de novembro.

(4) Ver O Paiz, 21/4/1894.

(5) O depoimento de Augusto Malta est em O Paiz, 19/11/1912.

(6) Ver O Paiz, 17/11/1912.

(7) Sobre a troca de bandeiras no Alagoas, ver Tobias Monteiro, Pesquisas e documentos, p. 305. lvaro Cotrim (Alvarus) tambm diz que a bandeira hasteada na Cmara 
Municipal, reproduzida no Mequetrefe, foi iada no Alagoas, o que, como vimos,  impossvel. Veja lvaro Cotrim, 0 15 de novembro na imprensa ilustrada". Jornal 
do Brasil, 15/11/1973. Segundo Cotrim, ela teria treze listras horizontais, e o quadriltero seria de fundo azul.

(8) Ver, por exemplo, o testemunho do major Dias Jacar, em O Paiz, 16/11/1912. Sampaio Ferraz, presidente do Clube Tiradentes em 1889, confunde ainda mais as coisas 
em
PG.150
1912. Diz que entregou no dia 15, para ser hasteada na Cmara, uma bandeira tricolor. Veja O Paiz, 16/11/1912. O fundo preto  confirmado por Emilo Ribeiro na edio 
de 17/11/1912 de 17/11/1912.

(9) A posio dos positivistas est bem documentada na coletnea organizada pela Igreja e Apostolado Positivista do Brasil sob o titulo A bandeira nacional. Nela 
se encontram os principais artigos de Teixeira Mendes e Miguel Lemos relativos ao fato. Utilizei a terceira edio, de 1958.
(10) Ver A bandeira nacional, pp. 5-10.

(11) Mas o receio da adoo do smbolo americanizado est explicito na biografia de Benjamin Constant que Teixeira Mendes publicou em 1891. Ver Benjamin Constante 
pp. 376-7.

(12) Ver Dirio do Commercio, 24/11/1889. Para a resposta de Teixeira Mendes, A bandeira nacional, pp. 11-4.

(13) O jornalista era provavelmente Eduardo Prado, que na poca escrevia da Europa tremendos libelos contra o novo regime.

(14) Ver A bandeira nacional, pp. 14-21.

(15) Ver Eduardo Prado, A bandeira nacional. A incorreo da posio das constelaes, e mesmo da localizao do plo sul na parte inferior do desenho,  confirmada 
por Ronaldo Rogrio de F. Mouro em A bandeira da Repblica", Revista do Brasil, ano 4, n 8 (1989), pp. 84-90. Luiz Cruls, diretor do Observatrio Astronmico 
na poca, apoiou Pereira Reis contra a opinio da Sociedade Astronmica da Frana, dizendo ser comum nos atlas geogrficos representar o norte no alto e o sul embaixo.

(16) Ver Dirio de Notcias, 8/9/1892. E Coelho Netto, Fogo ftuo, p. 233.

(17) Os dois documentos esto includos em A bandeira nacional, pp. 49-55.

(18) O projeto de Valado foi apresentado ao Congresso em 1 de setembro de 1892. A defesa da bandeira foi feita pelo militar positivista Jos Bevilqua, em termos 
que repetiam quase literalmente os argumentos de Teixeira Mendes. Ver Anais da Cmara dos Deputados,1892, vol. V, pp. 92, 352, 381-2, 434. A oposio de Floriano 
Peixoto  bandeira positivista  confirmada por Serzedelo Correia em Paginas do passado, pp. 85-6. O projeto de Valado contava com apoios importantes, inclusive 
na imprensa. O Jornal do Brasil opinou favoravelmente  mudana, acusando o governo provisrio de ter adotado um emblema inspirado "por um grupo sectrio, insignificante, 
diminutissimo em nmero, medocre em valor social, antiptico ao pais e sem apoio nele, representando no o sentimento nacional mas um novo ultramontanismo, e que 
tem por chefe invisvel um decrpito filsofo francs. Ver edio de 8/9/1892. Em 1905, novo proieto foi apresentado  Cmara, tentando retirar o lema positivista. 
Ver Agenor de Roure, "A bandeira nacional", Kosmos, ano 4, n? 3 (maro, 1907).

(19) Ver seu artigo "O 15 de novembro na imprensa ilustrada". Jornal do Brasil, 15/11/1973.

(20) Em suas memrias, Medeiros e Albuquerque menciona a presena de Teixeira Mendes na primeira reunio do governo provisrio, na noite do dia 15. Segundo seu depo 
mento, o lder positivista ia de pessoa a pessoa exortando: "Proclamem a ditadura! Proclamem a ditadura!''. Veia Medeiros e Albuquerque, Quando eu era vivo, pp. 
104-5.

(21) Quando eu era vivo, p. 90.

(22) Era "uma data muito delicada", como diz o representante francs, Amelot, ao ministro Spuller, em carta de 10 de julho de 1889. Ministre des Affaires Etrangres, 
Correspondance politique, Brsil, vol. 53.

(23) As informaes sobre a histria da Marselhesa aqui resumidas so devidas a Michel Vovelle, "La marseillaise. La guerre ou Ia paix", in Pierre Nora (org.). Les 
lieux de mmoire, vol. 1, La Republique, pp. 85-136.

(24) Vovelle, La marseillaise'', p. 96.

(25) Vovelle, " La marseillaise ", p. 119.
pg.151
(26) O texto encontra-se na Biblioteca Nacional, Seo de Msica, Arquivo de Agostinho D. N. D'Almeida, Coleo Ayres de Andrade. No h data.

(27) Medeiros e Albuquerque confirma que os republicanos cantavam a Marselhesa ao sair dos meetings. O fato levou-o a escrever uma letra brasileira, que apresentou 
a Silva Jardim e foi adotada. Ver Quando eu era vivo, pp. 90-1,116-7.

(28) Ver, por exemplo, o artigo de Oscar Guanabarino, 0 hino nacional", O Paiz,17/1/1890. Tambm o noticirio do Jornal do Commercio e de O Paiz, 16/1/1890, e R. 
Magalhes Jr., Deodoro. A espada contra o Imprio, vol.II, pp. 133-9. O Paiz de 16 de janeiro de 1890 afirma que no houve premeditao. O episdio seria devido 
 voz do povo que ento falou". O hino de Francisco Manuel da Silva era em geral apenas tocado, razo pela qual o chamavam de Ta-ra-ta-ta-tchin. Fora composto logo 
aps a Independncia, mas cantado pela primeira vez em 1831, depois da Abdicao, com letra de Ovdio Saraiva de Carvalho e Silva. A letra era muito antilusitana 
e foi aos poucos abandonada. Outra letra, de autor annimo, surgiu por ocasio da coroao de d. Pedro H, adaptada a esse acontecimento. Pelo carter restrito, no 
teve tambm maior difuso. O fato de ter sobrevivido apenas a msica sem dvidafacilitou a aceitao do antigo hino pelo novo regime. Ver, sobre o assunto, Max Fleiuss,Francisco 
Manuel da Silva e o hino nacional", conferncia realizada no IHGB a 12 de outubro de 1916.

(29) Ver Raul Pompia, Obras, vol. VII, pp. 250-1, 256-7. Ver tambm Oscar Guanabarino, artigo citado na nota anterior.

(30) Sobre a extraordinria histria do pianista de Nova Orleans, ver Louis Moreau Gottschalk, Notes ofapianist. Sua aventura no Rio  descrita em Francisco Curt 
Lange, Vida y muerte de Louis Moreau Gottschalk en Rio de Janeiro, 1869.

(31) Ver O Paiz, 21/1/1890, matria no assinada, intitulada "O hino da proclamao". Ver tambm Oscar Guanabarino, 0 hino", O Paiz, 21/1/1890.

(32) Ver Thom Jnior, "J  tempo!", Revista Illustrada, n9 590 (maio, 1890), pp. 2-3.

6. OS POSITIVISTAS E A MANIPULAO DO IMAGINRIO (pp. 129-140)
(1) A presena de elementos msticos na obra de Comte anterior ao encontro com Clotilde de Vaux  salientada por Ernest Seillire, Auguste Comte, e Edward Caird, 
The social philosophy and religion of Comte. A descontinuidade, por sua vez, foi apontada por Littr, um de seus principais seguidores, dando origem ao primeiro 
grande cisma no positivismo. Stuart Mill, que simpatizava com o pensamento de Comte (a ponto de organizar na Inglaterra uma subscrio para prover  sua subsistncia), 
tambm no aceitou a nova fase do filsofo. Ver John Stuart Mill,Auguste Comte and Positivism'', in Coilected works ofJohn Stuart Mill, vol. X, pp. 261-368. Sobre 
Comte em geral, ver Auguste Comte: qui tes-vous?

(2) As posies de Comte posteriores ao encontro com Clotilde esto expostas principalmente no Catecismo positivista, escrito em 1852, verso mais popular dedicada 
especialmente s mulheres, e no Systme de politique positive, ou trait de sociologie instituant Ia religion de Ihumanit, escrito entre 1851 e 1854.

(3) Citado em R. Teixeira Mendes, A mulher, p. 32.

(4) Ver Systme de politique positive, tomo I, p. 282.

(5) A acusao de sectarismo se encontra, por exemplo, em Slvio Romero, Doutrina contra doutrina. O evolucionismo e o positivismo no Brasil. A acusao dos inimigos 
mais emocionais dos ortodoxos pode ser exemplificada pela obra de Antnio Torres, Pasquinadas cariocas. Segundo A. Torres, Teixeira Mendes "era um verdadeiro luntico" 
(p. 140).

(6) Sobre o positivismo no Brasil, ver Ivan Lins, Histria do positivismo no Brasil, Cruz Costa, O positivismo na Repblica. Notas sobre a histria do positivismo 
no Brasil; e Joo Camilo de Oliveira Torres, O positivismo no Brasil.
pg.152
(7) Boa parte da correspondncia dos positivistas brasileiros com Pierre Laffitte foi publicada por Ivan Lins na obra citada na nota anterior.

(8) Sobre esse ponto, ver Emest Seillire, Auguste Comte.

(9) Appel aux conservateurs.p. 109.
(10) A lista dos deveres dos membros da Sociedade Positivista do Rio de Janeiro se encontra no Apndice E acrescentado  Circulaire coilective de 3 de dezembro de 
1883. Alm de proibir a posse de escravos e a ocupao de cargos pblicos, ela inclua tambm o dever de no exercer funes acadmicas nas escolas superiores, no 
exercer o jornalismo remunerado e assinar o nome em todos os escritos.
Pg.153

FONTES
1 - JORNAIS E REVISTAS
O Cruzeiro
O Diabo a Quatro
Dirio de Notcias
Dirio do Commercio
Dirio Oficial
D. Quixote
O Filhote
Fon-Fon
O Gato
Gazeta de Notcias
Jornal do Brasil
Jornal do Commercio
Kosmos
O Malho
O Mequetrefe
O Paiz
Revista do Arquivo Pblico Mineiro
Revista do Brasil
Revista do IHGB
Revista Illustrada
Semana Illustrada
O Tiradentes

2 - LIVROS
Agulhon, Maurice.
Marianne au combat. L 'imagerie et Ia symbolique republicamos de 1789 a 1880. Paris, Flamarion, 1979.
Albuquerque, Medeiros e. Quando eu era vivo. Rio de Janeiro, Record, 1981.
Arendt, Hannah.
On revolution. Nova York, The Viking Press, 1965.
Augusto Comte: qui tes-vous? Lyon, Manufacture, 1988.
pg.155
Autos da devassa da Inconfidncia Mineira. Rio de Janeiro, MEC-Biblioteca Nacional, 1936-48.
Baczko, Bronislaw.
Les imaginaires sociaux. Mmoire et espoirs collectifs. Paris, Payot, 1984.
Boal, Augusto & Guarnieri, Gianfrancesco.
Arena canta Tiradentes. So Paulo, Sagarana, 1967.
Banco do Brasil S. A. Museu e Arquivo Histrico.
Cdulas brasileiras da Repblica. Emisses do Tesouro Nacional. Ro de Janeiro, 1965.
Bernardes, Maria Thereza Caiuby Crescenti.
Mulheres de ontem ? Rio de Janeiro  sculo XIX. So Paulo, T. A. Queiroz, 1989.
Barbosa, Waldemar de Almeida.
A verdade sobre Tiradentes. Belo Horizonte, Instituto de Histria, Letras e Arte, s. d.
Burton, Richard.
Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. Belo Horizonte, Itatiaia/Edusp, 1976.
Caird, Edward.
The social philosophy and religion o f Comte. Glasgow, James Maclehore & Sons, 1885. Nova York, Kraus Reprint Co., 1969.
Campofiorito, Quirino.
Histria da pintura brasileira no sculo XIX. Rio de Janeiro, Pinakotheke, 1983.
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1a edio [1990] 14 reimpresses
ESTA OBRA FOI COMPOSTA PELA FORMA COMPOSIES GRFICAS EM GARAMOND E IMPRESSA PELA GEOGRFICA EM OFSETE SOBRE PAPEL ALTA ALVURA DA COMPANHIA SUZANO PARA A EDITORA 
SCHWARCZ EM JANEIRO DE 2004
